A nova versão de Sandokan chegou à Netflix Brasil como quem já conhece o caminho da vitória. Inspirada nos romances clássicos de Emilio Salgari e produzida pela Lux Vide, a série resgata um ícone da literatura de aventura e o reapresenta ao público atual com uma combinação certeira de romance proibido, crítica colonial, ação e espetáculo visual.
Não é exagero dizer que Sandokan surge como uma raridade no catálogo do streaming: uma série de aventura clássica, colorida, romântica e assumidamente épica, algo cada vez mais incomum em tempos dominados por thrillers urbanos e dramas intimistas.
Uma história de amor, guerra e identidade
Ambientada em Bornéu, em meados do século XIX, a trama acompanha a transformação de Sandokan, um pirata que vive apenas para sobreviver, em uma figura central de resistência contra o domínio do Império Britânico. Conhecido como o Tigre da Malásia, ele lidera ataques pontuais, sem grandes ambições políticas, até que o encontro com Lady Marianne, filha do cônsul britânico, muda completamente o curso da sua vida.
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O romance entre os dois não é apenas um elemento sentimental. Ele funciona como motor narrativo e símbolo do choque entre dois mundos irreconciliáveis. A partir dessa relação, Sandokan passa a enxergar a opressão sofrida pelo povo Dayak e é empurrado para um destino maior do que ele próprio.

Can Yaman sustenta o mito de Sandokan
Escalar Can Yaman como protagonista foi um acerto evidente. O ator entrega um Sandokan carismático, físico, impulsivo e com aura de herói clássico. Seu desempenho aposta mais na presença e na fisicalidade do que em grandes variações emocionais, o que pode incomodar parte do público, mas também reforça o arquétipo do aventureiro mítico que a série deseja construir.
Yaman funciona especialmente bem nas cenas de ação e nos momentos de humor leve, trazendo um charme quase nostálgico que remete às grandes séries de aventura da televisão europeia.
Ed Westwick brilha como vilão colonial
Se existe um grande destaque dramático da série, ele atende pelo nome de Ed Westwick. O ator vive Lord James Brooke, um caçador de piratas inspirado em uma figura histórica real, e entrega um antagonista elegante, cruel e perturbador. Seus maneirismos, a frieza calculada e o senso de superioridade colonial fazem dele um vilão que o público adora odiar.
Westwick dá densidade ao conflito central da série, representando não apenas um inimigo pessoal de Sandokan, mas a própria lógica imperialista que tenta subjugar povos e territórios.
Visual exuberante, com alma televisiva
Visualmente, Sandokan é uma série vibrante. A fotografia aposta em cores fortes, contrastes intensos e paisagens naturais exuberantes, filmadas em locações como a Ilha da Reunião, Calábria e Toscana. O resultado é belíssimo, embora em alguns momentos as cenas gravadas em estúdio nos estúdios Cinecittà revelem um certo ar teatral.
Ainda assim, isso não compromete a experiência. Pelo contrário: reforça a sensação de que estamos diante de uma série de aventura clássica, feita para entreter, emocionar e envolver, sem medo de soar maior do que a vida.
Uma aventura que cresce com o tempo
É verdade que os primeiros episódios são mais contidos, quase didáticos, apresentando personagens, conflitos e o mundo em que a história se passa. Mas, episódio após episódio, Sandokan encontra seu ritmo ideal, equilibrando ação, romance e comentário social com mais segurança.
A atualização temática, incluindo discussões sobre colonialismo, exploração e identidade cultural, pode dividir opiniões entre fãs mais puristas da obra original. Ainda assim, a série consegue respeitar o espírito de Salgari enquanto dialoga com o público contemporâneo.
Vale a pena assistir?
Sem dúvida. Sandokan não tenta ser uma série cínica ou excessivamente realista. Ela abraça o espírito da aventura, do herói romântico e da luta por liberdade. É uma produção pensada para o entretenimento, para o escapismo e para a celebração de um tipo de narrativa que anda em falta no streaming.
Para quem sente falta de histórias de piratas, romances impossíveis e jornadas épicas, Sandokan é um respiro bem-vindo e um dos grandes acertos recentes da Netflix.