Santa Clarita Diet: nonsense e humor ácido como entretenimento

Imagem: Netflix

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Crítica da 1ª temporada de Santa Clarita Diet – SEM SPOILERS

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Um dos lances da Netflix é investir em conteúdos e produções abrangentes e variadas para atrair os mais diversos tipos de público, o que inclui uma audiência com gostos nada convencionais, seja pela narrativa ou pela estrutura da produção. E não é de hoje que o serviço de streaming tem apostado nas narrativas nonsenses para compor seu catálogo, a exemplo das originais Unbreakable Kimmy Schmidt e Wet Hot Summer Camp, Haters Back Off – uma vergonha alheia sem precedentes – e da adição de Chewing Gum ao catálogo. Santa Clarita Diet, criada por Victor Fresco, nada mais é do que mais uma investida do canal na comédia de nonsense com fortes influências do horror: ela é sobre a história de uma mulher que vira uma zumbi, ou melhor, uma morta-viva.

Mas, assim, não é que seja só isso. Afinal, temos ninguém mais ninguém menos do que Drew Barrymore no papel da protagonista, Sheila Hammond, aumentando a lista das atrizes e atores que migraram para a televisão, sem contar que Drew é um forte chamariz de audiência.

Pois bem, Sheila é uma corretora de imóveis, casada, mãe de uma adolescente, moradora do subúrbio da pacata Santa Clarita. Literalmente, num belo dia, Sheila está mostrando uma casa para potenciais compradores e passa mal. Mas MUITO mal. É MUITO vômito, no estilo mais trash possível, tornando quase que impossível não lembrarmos da clássica cena de vômito em O Exorcista.

Como se não bastasse, ela ainda expele uma espécie de bola vermelha e começa a apresentar um comportamento incomum. Sheila se torna mais impulsiva, intensa e desenvolve um apetite voraz por carne crua de animais – e de humanos – e sexo. Seu corpo e organismo também começam a apresentar sinais de mudança e com a ajuda do vizinho adolescente nerd, ela e a família iniciam um processo de entender o que está acontecendo com Sheila.

A química e a dinâmica do núcleo da família Hammond é um achado. Junto a Drew, Timothy Olyphant é Joel, o devoto e controlado marido, e Liv Hewson é Abby, a filha adolescente meio blasé. De início eles são concisamente apresentados como uma típica família dos subúrbios norte-americanos, mas diante do ocorrido com Sheila, a família passa a mostrar outras facetas de suas personalidades. É importante notar que a mudança não é só em Sheila. Joel se torna um histérico desesperado, enquanto Abby mostra sinais de amadurecimento e auto-controle mais latentes do que se comparada a seus pais.

Falando sobre os outros personagens, o elenco é um dos grandes trunfos de Santa Clarita Diet e todos os atores funcionam muitíssimo bem nas cenas em grupo. Os destaques vão para Ricardo Antônio Chavira e Skyler Gisondo nos papéis de Dan Palmer e Eric, respectivamente, padrasto e enteado que não mantêm um relacionamento saudável entre si e têm participações importantes no núcleo da família Hammond.

Imagem: Smedia

Imagem: Smedia

A sacada de Santa Clarita Diet é ironizar o universo da vida perfeita e avacalhá-la ao trazer como protagonista uma mulher tradicional que se torna canibalista. É uma perspectiva sarcástica da sociedade e das tantas dietas milagrosas que prometem o mundo a seus adeptos e adeptas. A alfinetada está no minimalismo e na simplicidade da abertura da série.

A trama incorpora elementos de clássicos do horror e da comédia, caminhando para se tornar uma Família Adams mais ensolarada e menos monstrenga, porém igualmente unida e fiel. Há uma áurea extraída do sobrenatural, do improvável e do bizarro que às vezes parece retirada de um episódio de Além da Imaginação. Elementos do suspense e do horror se fazem presentes na construção sonora dos momentos de tensão.

Alia-se a esta atmosfera elementos do gore, presentes por todos lados e não se faz questão de abrir mão de suas representações gráficas. Sheila é uma morta-viva que se alimenta de carne humana e isso está imagética e sonoramente exposto por todos os episódios. Há sangue. MUITO sangue. Há pedaços de corpos e vísceras. MUITAS vísceras. Há ruídos oriundos da mastigação. MUITOS ruídos. Fica aqui, inclusive, um destaque para a equipe de arte e seus props super bem feitos, e para o desenhista de som e seus precisos efeitos sonoros.

Existe também uma preocupação em ser ácido, escrachado e sarcástico, tanto no texto quanto no comportamento dos personagens, principalmente. Todos xingam e expõem algumas opiniões nada convencionais e isso está ok. Todos têm suas contravenções e seus segredos que tentam esconder de todas as formas possíveis. É um ponto que acaba por escancarar fragilidades e hipocrisias das fachadas que construímos ao redor de nossas relações pessoais, especialmente entre vizinhos. Ninguém sabe o que se passa de fato da porta para dentro da casa do outro. Ninguém sabe de fato o que Sheila bebe em seu copinho.

Uma escorregada da série fica por conta de um roteiro pouco desenvolvido nos primeiros e últimos episódios, fazendo com que os fatos aconteçam muito atropelados, o que pode causar certa sensação de confusão e de falta de coesão no espectador. O formato também contribuiu para esse deslize ter ficado tão latente. Optaram por dez episódios que variam entre 25 e 30 minutos, sendo que, se talvez fossem treze episódios de 20 minutos, um melhor desenvolvimento dos episódios em questão poderia ser possível. O próprio desfecho da temporada é muito acelerado e abrupto, deixando um incômodo do tipo “acabou assim?”.

Entretanto, no frigir do todo, Santa Clarita Diet garante boas horas de entretenimento supostamente despretensioso e picos de risadas, e tal como Sheila devora corpos, fica a dica para fazerem o mesmo com seus dez episódios.

PS: Prestem especial atenção nas participações de Nathan Fillion e Portia de Rossi.

PS 2: O relacionamento dos Hammond é meta de vida.

PS 3: A trilha sonora é muito boa e vale a pena uma busca pelas músicas.

 

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