Scandal – 7×02 – Pressing the Flesh

Imagem: ABC/Divulgação

“Vale mais ser amado ou temido( no comando) ? O ideal é ser as duas coisas, mas como é difícil reunir as duas coisas, é muito mais seguro – quando uma delas tiver que faltar – ser temido do que amado.”
(Maquiavel in O Príncipe)

Uma série não pode ser compreendida como um filme isolado. Numa história contada em capítulos os personagens não mudam o tom completamente por temporada como se não tivessem personalidade capaz de nos fazer ama-los, teme-los ou odiá-los. Até mesmo se for um tipo bipolar, podemos distingui-lo e após 5 anos de convivência sabemos ao menos se ele tem índole boa ou má.

A Olívia que nasceu na temporada 7 tem 100 dias de poder absoluto e a cena logo no início do episódio , após sair do hotel 5 estrelas deixando o seu novo affair ainda na cama e caminhar pelo corredor da Casa Branca com desenvoltura demonstra que ela desafia tudo e todos de forma destemida, agora ela vista como pop star, vaidosa ao extremo e todos querem fotografa-la. Ela não mais mais expressa sentimentos ternos por ninguém e elegeu os homens como inimigos, os humilha e faz o que quer nesse campo, esquece o amor, dispensa o amante e escolhe outro como capricho ou como troféu sexual.

Usar o sexo como ferramenta de poder parece coisa ultrapassada, não uma ação de emancipação feminina e isso não está em debate na série, nem consta no enredo, então podemos entender que há uma tentativa dela em mostrar que pode com atitudes assim, mudar as regras conservadoras e a “República” poderá ser renovada por suas mãos. Olívia não aprendeu com o sequestro antigo que liberdade não é escolha , mas conquista. Essa nova Olívia de uma hora pra outra é mais cruel, amarga e solitária. O poder é solitário mas o poder feminino parece que é mais e até Mallie Grant desabafa sobre não ter mais liberdade nem mesmo para os orgasmos. Curioso pensar que ela só alcança essa plenitude de poder juntamente com aquela que foi sua rival desde o começo, a esposa republicana perfeita de fachada. A personalidade de Olivia é complexa, e sua identidade moral ainda não é clara, temos pouco tempo para decifrar… Vamos adiante seguindo os sinais de Shonda.

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A agencia bacana OPA/QPA virou um fracasso a ponto de pedir favores mas são deles os dois lances decisivos no início da temporada. Estão sendo preteridos por alguma razão que ainda não sabemos. Olivia usa seus parceiros gladiadores como instrumentos de poder manipuláveis porque ela sabe que corre riscos e precisa ter proteção a qualquer momento, então ela controla a QPA e eles não perceberam ainda.

Os casos de espionagem dos 2 episódios iniciais tratam de um possível acordo de paz no Oriente Médio. Incrível coincidência que justamente nesse momento Trump esteja colocando em cheque o Tratado com o Irã. Shonda se sai bem sempre, é genial. O roteiro continua sendo sua arma secreta capaz de atenuar falhas de produção perdoáveis , já que a maratona parece intensa. (Hulk assentado no chão do corredor da Casa Branca entediado com o celular descobrindo um assassino parece amador, o excesso de flores no quarto presidencial é uma demonstração de feminilidade cafona, a sala secreta de crises já foi usada antes mas aparece com destaque de novidade como a sala que abrigou a piscina de Franklin Roosevelt e o casal de agentes grávidos Quinn/Charlie discute a relação no escritório após uma festa, mas eles tem casa, já foi mostrado.)

O mais interessante desse segundo episódio foi a clareza da disputa pelo poder paralelo. Jack se armou bem plantando um suposto assassino na Casa Branca. Jack é agente treinado, sabe como tudo funciona e atua nas sombras literalmente (citar Roosevelt, o presidente cadeirante, foi uma pérola no roteiro). Ele não acredita em métodos de chantagem do tipo OPA fartamente usados e sabe que é amador fazer isso quando se trata de defender a “República” onde um acordo nuclear e alta espionagem estão em jogo.

O jornalista novato dá pistas de que não é somente um sedutor arrogante que ganhou as graças de nossa heroína um pouco perdida e deslumbrada com o poder. Olívia já deu demonstrou suas fraquezas e o pai manipulou isso ao colocar no passado agentes amantes no seu caminho. Talvez ela não tenha percebido o risco de ser ela própria o escândalo do poder, algo que sempre a perseguiu. As cenas finais do episódio com o retorno de Fitz em surpreendente flagra na amada demonstra que alguém sempre está vigiando outro alguém quando o poder está em jogo.

As melhores cenas do episódio vieram de Cyrus e seu novo par, o milionário (Dean Norris entrou com pé direito brilhante!) extravagante, sem charme aparente, colecionador de arte que quer ser governador. Novamente é dele, Cyrus, a melhor fala quando defende a Democracia. A anterior foi em defesa da Lei Vargas.

E quando ninguém esperava, um presente revelador dará o tom dos próximos episódios. Explico: Cyrus recebe um Cézanne de 100 milhões de dólares. Para quem não sabe, aqui um pouco da realidade pra entender o roteiro: A obra “Le garçon au gilet rouge” (“O menino de colete vermelho”), de Paul Cézanne, custa isso mesmo e pertence a uma Fundação na Suíça que a recebeu como doação. A obra é considerada pelos críticos uma perfeição de equilíbrio e inteligência composicional. Em 2008, a pintura foi roubada da Fundação em Zurique e depois recuperada na Sérvia em 2012. Isso faz lembrar a operação “Lazarus” da 6ª temporada onde o perigoso Eli Pope deflagra o processo de roubo de obras de arte para capitalizar e reativar o B613 num momento em que ele se sentia vulnerável, preso, como agora. Se foi uma referência, mesmo que sutil, Shonda merece um Oscar.

Nada é por acaso quando se trata de Shonda Rhimes e a temporada final certamente sofrerá reviravoltas excepcionais e só o que temos com clareza é esta nova estrutura de poder. Shonda não perdeu sua monstruosa coerência narrativa ainda que possa até parecer confuso o destino da série. Difícil fazer previsões e por ora somente sabemos que não se pode ter tudo, as escolhas serão colocadas à mesa em breve.

“E aquele príncipe que tiver confiado naquelas promessas, como fundamento do seu poder, encontrando-se desprovido de outras precauções, está perdido.” ( Maquiavel in O Príncipe).

MZR
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