Scandal – 7×04 – Lost Girls

Imagem: ABC/Divulgação

“Nunca fui capaz de responder à grande pergunta:

‘O que quer uma mulher?’”( Freud)

Nas últimas cenas da sexta temporada de Scandal, vimos Olivia se despedir de Fitz com muito afeto para em seguida assumir as funções de chefia do novo gabinete presidencial – uma jogada esperta, também a da organização clandestina B613. Ou seja, ela inicia a nova jornada aparentemente no controle de tudo. “Parece justo!”, foi sua última frase. Mas será possível que alguém numa Democracia seja capaz de sozinha subverter a ordem das coisas numa espécie de Absolutismo contemporâneo sem que ninguém perceba? Olivia tem ideia disso? Ela sabe o que quer?

Lost Girls, um episódio que Freud explica.

Logo no começo, descobrimos que o beijo de Olivia em seu novo affair, que poderia gerar grande desconforto, perdeu totalmente a graça e deu lugar a uma sequência de hostilidades gratuitas e assustadoras, protagonizada por ela ali mesmo na saída do elevador. Fitz foi recebido após 100 dias com injustificado desprezo e rispidez no diálogo curto que se desdobrou numa violenta porta na cara (é bem claro que a porta na cara foi dada em todos nós seguidores da série, porque a cena foi desconfortável e sem sentido. Temos memória, somos fãs atentos!)

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Antes, porém, uma demonstração elegante veio do acompanhante dela na despedida dirigida ao ex presidente. O jornalista sabe que faz parte do jogo de sedução, mas não é ingênuo a ponto de se queimar. Somente Olivia perdeu o tom, somente ela adoeceu psiquicamente nessa busca de poder e não tem tempo para mais ninguém e nada que não seja, ou esteja, diretamente envolvido em suas estratégias para controle de todos e tudo à sua volta. A conversa com Marcus Walker em seu gabinete é reveladora nesse sentido. Aqui cabe um alerta, a autora precisa ser cuidadosa para não deixar que nossa protagonista passe daquele ponto onde não mais vamos encontrá-la. Vale tanto na vida como na arte, sempre é bom lembrar.

A Olivia transtornada pela onipotência, que não permite falhas, que quer manter um padrão de perfeição, esconde uma fraqueza enorme que é o medo da perda, do que lhe resta de valores e de se enfraquecer diante do imponderado. Já Fitz renasce iluminado das montanhas “frias e brancas” de Vermont para se firmar como o humanista da história (numa espécie de alter Ego de Shonda, ou talvez seguindo um perfil Obama pós presidência, que resolveu olhar o mundo e fazer a diferença com sua Fundação). É dele o sinal para que a QPA esteja sintonizada agora no bem maior.

A partir disso surge a grande crítica política do episódio. Afinal, que país é esse que quer mediar acordos internacionais sobre a não proliferação de armas nucleares e ao mesmo tempo não vê o que se passa dentro do seu próprio território? “A América realmente é grandiosa. Mas é um grandioso equívoco.” escreveu  Freud.

Mais uma vez Shonda Rhimes dá um show de ativismo ao levar para o roteiro um caso real absurdo. Para quem não sabe, no início do ano, os Congressistas negros dos Estados Unidos pediram investigação ao Departamento de Justiça sobre o alto número de crianças e adolescentes negros desaparecidos em Washington, através do Congressional Black Caucus, organização para legisladores negros e a Fundação de Negros e Desaparecidos.

Enquanto o tema das meninas,  considerado menor, está sob os cuidados de Marcus, Fitz e da QPA, Mallie está com Olivia numa rodada de negociações tensas, onde a presidente lida com um componente novo, que é seu envolvimento emocional com um dos líderes do Oriente Médio. Parece improvável e surreal surgir um caso daí, mas é o que estamos vendo e, certamente, o desdobramento, caso ocorra, será explosivo, escandaloso!

Mas Mellie demonstra uma veia diplomática até então desconhecida e ganha agora destaque merecido, já que no início, como governante, pareceu manipulável ao extremo. Também para ela a teoria de Freud é uma receita: “Qualquer coisa que encoraje o crescimento de laços emocionais tem que servir contra as guerras.”

O problema de Mellie pelo que parece tem nome: Olivia Pope, que talvez terá que rever seus conceitos sob pena de perder tudo: amor, status, apoio e reino. A forma de conduzir a diplomacia é evidente em Mellie e inexistente em Olivia que, como sabemos, é uma estrategista política ultra habilidosa, nem sempre ética e pouco diplomática. O interessante é perceber essas diferenças claras na política.

Os deslizes de Olivia neste episódio parecem intermináveis. Nem sua sutil ajuda aos gladiadores atenua o desgaste da imagem arrogante que aparece em cada cena, com qualquer pessoa que cruza seu caminho. Ela tem até um vassalo morando nos porões da Casa Branca. Jack outrora amante está lá aprisionado e infeliz. Simbolicamente, ele hoje é o  soldado escravo, assim como foi do cruel Eli Pope, quando era torturado e jogado numa caixa subterrânea de cimento escuro. A sala secreta do B613 nada mais é do que isso, uma masmorra onde Jack é serviçal.

O triângulo amoroso Fitz-Olivia-Jack acabou e o personagem parece sem função. Jack talvez seja o elemento de uma cartada vingativa que aniquilará o pai cruel, ou ele mesmo, afinal, os traumas psicológicos causados pelos abusos sofridos são feridas abertas ainda. Ele é o comandado “defeituoso”, porque se apaixonou. Então vamos ver até quando sobreviverá.

E já que falamos em Eli Pope… O mestre supremo parece não ter desistido de reinar. Suas falas como de costume são as melhores e ele repete que não se pode ter tudo e que ser comandante é ser solitário. Como exemplo cita que o que lhe restou foram os dinossauros para conversar. Ele toma para si o questionamento freudiano: “O que quer uma mulher?” O que quer afinal Olivia? Amor e poder absoluto juntos? Impossível. Com sua inteligência e astúcia, ele conduziu Fitz para o centro da crise, numa tentativa última e desesperada de afastar Olivia do poder total. E pode ser que  consiga, mas não sem antes causar um acidente de proporções nucleares para salvar a “República”, afinal, ele vive para defende-la acima de tudo e todos. Para nós, a questão é outra, também em forma de pergunta freudiana: Caro comandante, “Qual a sua responsabilidade na desordem da qual você se queixa?”

O fabuloso Cézanne, que parecia ser a ponta de um iceberg para um intrincado desdobramento político aparece como introdução do romance maduro articulado para o genial senhor do mal, Cyrus Beene, aquele que foi o responsável pelos lances mais baixos e também mais inteligentes até aqui, juntamente com seu parceiro das trevas Eli Pope. A questão que fica é: Cyrus merece perdão com uma história de amor quando as cortinas já se fecham em Scandal? Nem ele acredita no presente!

Concluindo, após 4 capítulos, os personagens vão se posicionando no tabuleiro do poder para a jogada final. As histórias que serão vividas daqui em diante são desdobramentos pautados para o encerramento da série e todas elas giram em torno dos dois principais protagonistas. Olivia se encaminha para viver a batalha final com o pai que a confirmará no poder ou a afastará definitivamente. Em qualquer situação, ela perde algo, é fatal.

Enquanto isso, Fitz dá os primeiros passos para se confirmar no poder maior, aquele que vem de fora, que é invisível e que passa despercebido de todos que pensam estar no poder. O caso das meninas negras desaparecidas é a metáfora do que ele precisa conquistar, ou seja, trazer de volta para a luz aquilo que lhe foi sequestrado, a liberdade, a vida, a paixão e a virtuosidade de ser, porque para ele parece claro que “todo homem tem de descobrir por si mesmo de que modo especifico pode ser salvo.” (Freud). Ele já escolheu como, resta saber se nossa “Olivia de Tróia” também quer olhar para dentro de si mesma, para suas profundezas como auto conhecimento e retornar para ser resgatada.

 MZR

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