Scandal – 7×05 – Adventures in Babysitting

Imagem: ABC/Divulgação

“A luz se foi e agora nada mais resta a não ser esperar por um novo sol, um novo dia, nascido do mistério do tempo e do amor do homem pela luz.” (Gore Vidal in Juliano)

Heróis ou heroínas são figuras especiais que encaram desafios e superam tudo de forma excepcional. Na Grécia antiga, os heróis nasceram da união entre deuses e mortais, daí vem os semideuses. Eles tem coragem, força de vontade, determinação, fé, ética e se sacrificam por um bem maior, raramente são egoístas, são guiados por senso de justiça, virtude elevada e acima de tudo moral. Já os anti-heróis não são essencialmente o contrário dos heróis,  nem apenas  do mal. Eles são individualistas, solitários, egocêntricos e sem ideais elevados, embora possam atuar em prol de um grupo. Um exemplo clássico de anti-herói é Macbeth, de Shakespeare, para facilitar a identificação, o personagem manipulador, maquiavélico, cruel e homicida Frank Underwood, em House of Cards, foi inspirado nele. Tony Soprano, Walter White e Dexter Morgan são todos anti-heróis incríveis na ficção. Eli Pope é um anti-herói fabuloso. Mas Olivia, “Quem é você?”

Adventures in Babysitting” é um episódio que comete o pecado mortal de  transformar definitivamente uma  heroína em anti-heroína, flertando com a tirania.

Inicio a resenha citando uma frase que li nas redes sociais: “Eu acho que tudo que aconteceu até agora nessa temporada poderia ter sido resumido apenas no primeiro episódio, mas sinto que a ‘treta’ vai começar agora!!” Completando o pensamento do amigo virtual, os 5 episódios iniciais poderiam ser resumidos em um apenas. Vamos aos fatos: As séries políticas se diferenciam  das demais porque criam diálogos com nossa realidade, então quando nos deparamos com situações que causam estranhamento, facilmente percebemos que existe um problema. Se for retificado logo, tudo bem, senão a coisa toda se perde. O que estamos vendo em Scandal é algo bem abaixo da média do que já assistimos. Talvez o cansaço da equipe, produtores, o desgaste por mais de 5 anos no ar com maratonas, a química do elenco que vai se perdendo, tudo esteja  interferindo. Nota-se claramente uma falta de ritmo, certo desleixo cenográfico e parece que não encontraram ainda o caminho para finalizar a história ou tudo foi pensado às pressas.

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O excesso de bullying provocado por Olivia Pope é patético, incomoda porque o personagem se converteu de heroína para a galeria de anti-heroínas com traços explícitos de vilania maquiavélica, tirania e crueldade homicida, num passe de mágica. Embora sua história seja complexa é difícil localizar quando essa inversão se deu, porque durante 5 longos anos nos envolvemos e nos apaixonamos por ela , nos encantamos com sua força, rebeldia, coragem, carisma, beleza, por tudo que ela representa como mulher, por ser negra, inteligente, intuitiva, fascinante, sedutora, poderosa e humana (o jornalista Curtis resumiu tudo ao encerrar o breve caso, afinal, ele também foi seduzido por nossa ‘Olivia de Tróia’).

No primeiro momento, temos Olivia controlando o angustiado Eli Pope destilando ameaças patéticas: “Você acha que gosto de puni-lo?”, “Falar comigo é um privilégio”. Ler é privilégio, ir ao banheiro é privilégio,  comer é privilégio, viver é privilégio, que somente ela pode conceder a ele. Por um momento entendemos que somos nós perguntando:  “Quem é você?”, “Em que você se tornou?”, “Cada coisa em você me decepciona”. Ela dita frases ameaçadoras e inacreditáveis como recado ao então amado Fitz (que irá se repetir mais 3 vezes!) “Volte para Vermont, não hesite, não faça nem malas. Apenas vá. E uma vez que você esteja lá, fique lá”. Transtornada,  a fisionomia mudou radicalmente e seu semblante é feio, sombrio com tom de voz rancoroso. Olivia adoeceu no corpo e na alma, ficou vulgar de repente (em um dia troca afetos com Fitz e no dia seguinte está na cama de Curtis, sem moralismos anotamos em 100 dias 3 parceiros sexuais!). E se tornou pior do que o pai, porque não herdou seu intelecto sofisticado, não decifrou os códigos de comando corretamente. Quando ela vai ao apartamento de Fitz e o humilha, dizendo que sempre o comandou e o enganou e foi fácil, morre toda sua credibilidade construída em 6 temporadas. Então tudo é mentira? Olivia sempre enganou Fitz e não existe o amor verdadeiro, foi tudo jogada para chegar ao poder? Sinceramente, os fieis seguidores não mereceram a reviravolta tão brusca.

O Oriente Médio ainda é a pauta (que se confunde um pouco com o caso real da Síria com protestos civis contra o governo de Bashar al-Assad por causas religiosas, territoriais e étnicas) desses 5 episódios e, apesar disso, a questão de armas e tratado de paz  se misturou e não ficou clara a história até o momento (falha de roteiro!). Agora temos também um atentado para decifrar.

Mellie quer uma guerra para salvar um homem que ela pouco conhece e que sequer quer ser salvo. Rashad é duro ao dizer que a batalha não é dela e que não é covarde para fugir às responsabilidades mesmo destituído. As cenas de intimidade com o inimigo do Oriente Médio são um delírio do ponto de vista político (o ator que faz o papel de presidente do fictício país Bashran, não tem sintonia corporal com ela, falha de direção). Ela abriu mão durante anos de qualquer ideia de afeto, justamente para conquistar o poder e quando tem a chance de ser diplomática e exercer o comando com bom senso inverte tudo, se fragiliza e resolve pensar com o coração quando deveria usar a razão. Ela passa por cima do povo e do Congresso para fazer uma guerra. O anúncio na TV por si só foi ofensa para qualquer cidadão.

Mesmo descobrindo a traição perigosa de Olivia, Mellie não abre mão dessa possibilidade de relacionamento com o aliado do momento. Assim ela começa a perder a presidência, exatamente quando cede e dá carta branca para Olivia resolver tudo e obter todo o delírio que imagina poder conseguir, ou seja,  um amante, um tratado de paz nuclear e uma guerra para coroar tudo por vias não oficiais. A cena repetindo o mantra de Olivia para afastar Fitz é constrangedora. Ninguém governa ou permanece no poder com tamanha ingenuidade. Nem merece.

Cyrus novamente tem a melhor momento do episódio e parece  se configurar a mudança radical de rumos com o fortalecimento da relação com o rico empresário bonachão, simpático e inteligente que conquista mais espaço no mundo do vice-presidente. A bela cena do beijo emoldurado pelo Cézanne é o sinal de que o final será feliz para o inusitado par. Cyrus ainda deixa um recado para a infeliz Olivia: “Ninguém governa sozinho Liv”. Cyrus é o demônio sábio da Casa Branca, que defende a Democracia com todas as armas que tem. No momento começa a usar uma  poderosa que se chama Fentsie, seu amante.

O grupo da QPA está a serviço de Olivia e se contenta em fazer os pequenos favores como esse fraco babysitting service. Yasmeen foi uma metáfora bonita apenas. Uma pena ver como tudo se desenvolve porque até a temporada passada foi deles o dinamismo da série com suas histórias intricadas e absurdas, ricas em ritmo, além da ótima atuação do núcleo. Nada de relevante aconteceu , talvez a partir de agora tenham mais chances, afinal, a tragédia de Olivia se aproxima.

Jack, o “soldado defeituoso” resignado, parece feliz em informar ao amigo Fitz que ele perdeu Olivia para o comando. Soou com tom de vingança dizer que ela não tem salvação. Se não conseguiu mantê-la como amante, que ela se torne o monstro da história. Jack destila mágoa, algo pior que a raiva e ódio. A jogada infeliz que ele conduz com ela para matar alguém de um dos lados rebeldes do conflito em Bashran… “Se um dos líderes for morto e a outra parte for culpada” pode ser a chave para desvendar o atentado. Quem explodiu o avião do presidente Rashad? Talvez a mesma pessoa que ameaçou matá-lo dentro da Casa Branca. A probabilidade é grande de que Jack e Olivia tenham tramado tudo. Se isso se confirmar, é o começo do fim para ambos e pode derrubar o governo de Mellie.

A conclusão evidente é que de agora em diante os dias da comandante em chefe da Casa Branca e do B613 serão mais complicados. O abismo é profundo com resgate doloroso. “Quem combate monstruosidades deve cuidar para que não se torne um monstro. E se você olhar longamente para um abismo, o abismo também olha para dentro de você.” Escreveu Nietzsche em  “Para além do bem e do mal”. A frase é o desenho exato de Olivia.

A série precisa de ajustes para não perder o que já foi conquistado, afinal, estamos nos despedindo e 10 ou 11 episódios restantes precisam amarrar pontos, fechar ciclos, aparar arestas e clarear o caminho novo. Assim se faz bonito e não se subestima a inteligência do seguidor fiel.

P.S.: Imaginário para Shonda Rhimes: Em 1998, uma trama global brasileira, assinada por Silvio de Abreu chamada “Torre de Babel”, sofreu um revés incrível quando, por conta dos baixos níveis de audiência, o autor criou uma enorme explosão matando 10 personagens de uma só vez e mudando o enredo. Um detalhe curioso: Abreu havia colocado o  protagonista como vilão, um homem cheio de ódio, que matou a esposa após flagrar uma traição. O público não gostou de ver o adorável ator na pele de um monstro e simplesmente mudou o canal, boicotando. Pois bem, parece que após 5 episódios muito abaixo do que sempre tivemos, além de mergulhar a protagonista em um obscuro caminho que parece cada vez mais sem volta transformando-a em anti-heroína ou vilã, uma explosão pode ter  efeito transformador. Quem sabe não terá sido um “conserto” de Ms. Shonda?

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