Scandal – 7×07 – Something Borrowed

Imagem: ABC/Richard Cartwright

“Então no fim das contas a coisa realmente aconteceu!

E agora, quem sou eu?

Vou me lembrar se puder! Estou decidida!”

(Alice – Através do Espelho- Lewis Carroll)

Something Borrowed” ou, o dilema moral escandaloso.

É frequente usar a expressão “A escolha de Sofia” diante de uma necessidade de tomada de decisão difícil, em condição adversa e com impacto moral. Ela remete ao filme homônimo de 1982, onde Sofia era uma polonesa presa com seus dois filhos pequenos, um menino e uma menina no campo de concentração de Auschwitz, durante a 2ª Guerra Mundial. Um oficial nazista dá a ela a opção de salvar apenas uma das crianças da execução. Sofia escolhe salvar o menino, que ela acredita ser mais forte para sobreviver, porém nunca mais irá vê-lo. Atormentada com a decisão, ela acaba se matando no final.

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O Episódio 7 de Scandal talvez tenha sido o mais desconcertante de toda a série até aqui. Olivia Pope, após assumir o controle do governo e da organização paralela B613, ganhou poderes de vida ou de morte sobre qualquer pessoa na face da terra. Desde que assumiu, obrigou uma vice presidente ao suicídio, ameaçou matar uma criança com um fuzil, encarcerou o pai louco e a mãe terrorista em confortáveis abrigos sob vigilância, determinou um atentado terrorista dentro do próprio país vitimando um presidente estrangeiro e uma jovem,… Sua organização matou um jornalista pelo simples fato dele ameaçar uma investigação comprometedora e, por último, numa cartada absurda jogando com as trevas, num  poker com o diabo, paga pra ver a morte de uma amiga grávida de 9 meses (no elevador Quinn aparece pela última vez na série, linda de noiva). Isso é ultrapassar todos os limites com um só personagem e testa-lo em grau máximo, desviando-o do caminho da luz. Não entendemos  essa  inversão brusca de rumos, não sabemos por que e para que chegaram a nesse ponto.

Olivia se tornou um ser angustiado e infeliz, com atitudes patéticas somente comparadas às de um cruel ditador de quinto mundo. Sua estupidez grita pelos quatro cantos da tela e o som não é bonito. Logo no início do episódio, vamos encontra-la na masmorra da Casa Branca, determinando ao seu soldado de chumbo que mova céus e terra para encontrar a gladiadora dona de todos os segredos capaz de derrubar o governo. Em seguida, ela encontra o agente Charlie em sua porta desconsolado a pedir ajuda. Ele e os amigos fazem buscas mórbidas por necrotérios, já antevendo o pior.

Curioso é o fato de que, em outros tempos, estariam se mobilizando em desespero, o que não ocorre desta vez. A série peca pela total ausência de ritmo já em seus momentos de fechamento e entrega aos protagonistas textos preguiçosos que não exigem grande esforço de representação.

Cyrus, o dono das melhores falas da temporada, é o primeiro a desconfiar que o desaparecimento de Quinn tem conexões sombrias com Jake e Olivia. Ainda não temos elementos para confirmar como seu personagem se encaminhará, apenas sabemos que continua amante de um rico empresário que costuma dar presentes inusitados a ele. O que uma vela está fazendo em sua mesa, mesmo? Em outros tempos, tínhamos microfones escondidos sutilmente em porta retratos… Agora nem isso.

Fitz e Marcus continuam envolvidos com a nova fundação e apenas marcam presença. O triste é vê-los relegados a uma função coadjuvante (tanto no enredo quanto no episódio) e sem sentido, já que vão em busca de apoio da presidente Mellie para tocar um projeto de Reforma Criminal. Até onde entendemos, Fitz não é mais do governo e não precisa de capital político, afinal, governou por dois mandatos e tem o suficiente para fazer o que quiser. Então, por que afinal introduziram essa pauta na história? Não bastou o tema Oriente Médio mal resolvido por Mellie e Olivia?

A presidente nos faz parafrasear a filosofa feminista Simone de Beauvoir, que escreveu “Você não nasce mulher, você torna-se mulher”: Você não nasce presidente mulher, você precisa tornar-se uma presidente mulher. Mellie até aqui decepcionou e a razão parece ser o fato de que não estava no roteiro original desenvolver nenhuma trama inteligente para ela enquanto governa. Afinal, conforme já foi divulgado, Scandal se encerraria justamente na posse, “estamos muito satisfeitos com este ano extra”, disse a atriz numa entrevista. As horas extras foram assumidas por Shonda Rhimes num momento delicado, quando ela já negociava novos projetos, e agora estamos assistindo uma sequência de equívocos definidos bem por um amigo internauta: “O problema é estrutural”, se referindo ao roteiro atual, e para completar, comercial. Nossa protagonista chave continua desfilando cinco ou seis modelos de luxo por episódio, movimentando o mercado.

Ficamos sem entender a cena estranha de Olivia Pope pedindo conselhos para Maya Pope, aquela que foi cruel e terrorista, desde sempre e que, ao invés de estar encerrada em Guantanamo, desfruta de um loft prisão, com direito à obras de arte, tapetes e pijama de seda. Nada mais sem propósito, ou somente para mostrar que o comando do B613 está nas mãos de uma mulher diferente? Era mais real e emocionante quando Eli Pope a mantinha numa cela de segurança máxima, sem conforto dentro do Pentágono. Afinal, colocar uma bomba num avião para matar civis, explodir uma igreja para matar um presidente, esfaquear Eli Pope, matar agentes e tentar assassinar a vice presidente na posse não parece ser digno de confortos. Mas a Olivia humana não mata pai e mãe, não por enquanto, primeiro os tortura como castigo e vinhos caros.

As cansativas crises existenciais de Olivia soam falsas e são usadas para justificar todo o delírio de poder, ou talvez indique uma saída menos traumática para o personagem no final. Ela não consegue ser comando à sobra do pai, porque alguém que assume essa posição precisa ter alto controle, sob pena de colocar tudo a perder, e parece que é isso que estamos vendo. Agora se inicia um mergulho no desespero da culpa, remorso e medo. Ela, que se julga dona da situação e do mundo, não percebeu que para estar no comando é preciso desenvolver o instinto assassino que, embora alojado em seu DNA, pode não ter células propícias para torná-la um monstro cria de dois monstros do sistema. Olivia luta internamente com essas duas forças, com poucas chances de salvar sua alma. Mas milagres acontecem e absurdos também no vale tudo do roteiro.

David Rosen dá o sinal para a reflexão que também é nossa, ao comentar sobre o mundo assustador em torno de Olivia e dos que trabalham com ela na OPA/QPA: “Toda a gente envolvida com este lugar negociou com a morte“. E é justamente a partir da negociação da vida ou morte de Quinn que chegamos no impasse final de Scandal, quando  Olivia e Eli Pope travam um embate fatal.

Algo emprestado, que intitula o episódio, pode ser um simples grampo em formato de joia que Olivia pediu ao museu do pai para Quinn usar no casamento, como pode ser o esqueleto do dinossauro que ela retirou do laboratório dele, impedindo-o de trabalhar com aquilo que lhe dava mais contentamento, ou a própria amiga grávida de 9 meses sequestrada. São as peças do jogo embaralhadas agora para que possamos tirar conclusões antecipadas até o final do hiato que se inicia.

A chocante cena em que vimos Olivia blefar com o mais perigoso dos assassinos da história, desafiando-o a matar a amiga grávida de seu afilhado pelo bem da República, foi um tiro fatal em Quinn e também em si mesma, porque  se igualou em crueldade com o pai e disputou com ele a vida de outrem banalizando o mal.

Voltando em nossa questão inicial do dilema moral, “A escolha de Sofia“ também decreta a morte mesmo em vida de quem faz a escolha. Não sabemos como tudo vai se desenrolar de agora em diante para Olívia, mas é certo que a libertação dos tormentos  só virá se ela encontrar quem ainda a ame incondicionalmente, e sabemos que poucos serão capazes. Sem isso, talvez seja impossível obter paz, porque ela não vem com tratados tortos, mas, sim, com perdão, concessões, perdas, virtudes e valores resgatados. E não, não queremos ver o corpo.

MZR

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