A resposta para essa pergunta é: os dois. E talvez, acima de tudo, profundamente humano. O final de Se a Vida Te Der Tangerinas — nova joia sul-coreana da Netflix — entrega uma despedida emocionante, delicada e cheia de significados.
Não é o tipo de encerramento que provoca uma felicidade eufórica, tampouco uma tristeza devastadora. É o tipo de fim que nos faz chorar sorrindo, que carrega a beleza de uma vida bem vivida mesmo entre dores e perdas.
A morte de Gwan-Sik em Se a Vida Te Der Tangerinas e a força silenciosa de Ae-Sun
No último episódio de Se a Vida Te Der Tangerinas, acompanhamos Ae-Sun enfrentando a ausência de Gwan-Sik, seu companheiro por uma vida inteira. Ele sempre esteve lá — protegendo, alimentando, cuidando dela como quem ama em silêncio, com gestos pequenos, mas imensos. E, mesmo quando chega sua hora de partir, ele faz isso como viveu: pensando nela. Deixa os armários ao alcance dela, ajeita a fechadura da porta, até prevê que ela vai chorar ao ver os rolinhos de ovo que ele costumava preparar.
Na hora da despedida, Ae-Sun cumpre sua promessa: sorri para ele, o sorriso mais largo que consegue dar. E depois, mesmo com o coração despedaçado, continua. Ela encontra sua forma de viver sem ele — ou, talvez, com ele ali de outra maneira. Passa a ensinar poesia para mulheres idosas, vira professora mesmo sem diploma, e retoma o uso dos grampos de cabelo que ele sempre lhe dava. Cada grampo vira um abraço diário do marido que partiu, mas nunca foi embora de verdade.
O simbolismo dos grampos e o laço com as gerações
É impossível ignorar o simbolismo dos grampos de cabelo, presentes desde o começo da série. Gwan-Sik dava um novo a ela todos os dias. E, após sua morte, o único momento em que Ae-Sun aparece sem um deles é exatamente nos dias seguintes à perda. Quando ela volta a usá-los, é como se voltasse a viver. Os grampos são sua forma de continuar sendo amada.
E o momento em que a filha, Geum-Myeong, usa um grampo com laço branco no funeral do pai é um aceno tocante: o luto se mistura com a gratidão. É uma conexão entre gerações, uma corrente de amor que ultrapassa a ausência.



A presença simbólica da mãe e a personagem Chloe Lee
O encerramento da série ainda nos oferece uma camada extra de sensibilidade com a aparição de Chloe Lee, editora das poesias de Ae-Sun e, curiosamente, interpretada pela mesma atriz que fez a mãe da protagonista. Chloe é a mulher que, no passado, encontrou o anel que Ae-Sun havia jogado fora durante uma briga com o marido — e agora, décadas depois, ela é quem se emociona ao ler os versos que traduzem toda a trajetória daquela mulher.
É como se o ciclo se fechasse: Ae-Sun, que desejava que sua mãe tivesse reencarnado e realizado o sonho de ter um emprego de escritório, a reencontra de certa forma nesse gesto final. A filha que sobreviveu, que viveu, agora é também poeta. E seu maior poema é sua própria história.
Afinal, o final é feliz?
Se a gente for buscar finais que ignoram a dor, talvez esse não seja o mais feliz. Mas se entendermos que viver é carregar perdas e mesmo assim florescer, então sim: o final de Se a Vida Te Der Tangerinas é profundamente feliz. É um lembrete de que a vida continua, de que a primavera sempre volta, e de que mesmo as tangerinas mais azedas podem render pratos doces.
No fim das contas, a série é uma carta de amor às mulheres, às mães, às cuidadoras. É sobre resistência, memória, poesia, e sobre seguir em frente com tudo que a vida nos dá — mesmo que, às vezes, o que venha seja um punhado de tangerinas.