Sense8 – 1×01 – Limbic Resonance

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Os Wachowski despontaram em 1999 com aquele que é um divisor de águas no gênero da ficção científica. Matrix deu um nó na cabeça do público e deixou a crítica de joelhos. A mistura de ação e trama complexa agradou e desde então vários escritores/diretores tentam repetir o feito, inclusive os próprios Wachowski. De 99 para cá muita coisa mudou e Andy e Lana, os criadores da Matrix, tornaram-se cada vez mais incompreendidos. Seu maior sucesso de crítica e que angariou mais fãs foi V de Vingança, que sequer foi dirigido pela dupla. Neste período, os irmãos lançaram Speed Racer (um bom filme, mas equivocado), A Viagem (uma ótima e subestimada produção) e O Destino de Júpiter (outra boa e subestimada obra). Boa parte da indústria e do público já havia perdido as esperanças na dupla. Mas Sense8 ainda estava por vir.

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Que fique claro logo de início, porém, que Sense8 – ao menos neste episódio piloto, não representa um renascimento de Andy e Lana Wachowski. Isto por dois motivos óbvios: primeiro porque o primeiro episódio não supera, nem visual nem narrativamente, a complexidade e as camadas de A Viagem. Segundo porque a dupla não precisa de renascimento. Simples. Os Wachowski sempre fizeram os projetos que quiseram fazer. Não é à toa que cada projeto é completamente diferente do outro e todos são extremamente ousados. Eles não estão preocupados em seu superar ou renascer, eles querem contar uma boa história e de quebra entregar um visual arrebatador.

É o caso de Sense8. Trama profunda alia-se a personagens multifacetados e visual impecável para tecer a história dos sensates, oito indivíduos completamente distintos vivendo em países diferentes que, por algum motivo ainda incerto, estão conectados. Tudo começa com Angelica (“Angel”, aqui já começa a referência sobrenatural), uma mulher que parece poder se conectar mentalmente com várias outras pessoas (precisamente os oito sensitivos do título e mais dois homens). Angelica parece estar em perigo e no limite de suas forças. Um dos homens que se conecta a ela quer ajudar e salvá-la, outro que destruí-la. De maneira rápida e orgânica a primeira cena já nos apresenta a dois conceitos básicos na série: os sensitivos que se conectam e os dois grupos que seguem os sensates, um tentando ajudar e o outro tentando matar todos aqueles que possuem as habilidades sensitivas.

A partir daí saltamos de país em país para conhecermos os vários personagens da série. Ainda não é possível saber se todos os episódios trarão todos os oito personagens ou se desenvolverão um ou dois por vez. Neste piloto, por exemplo, tivemos maior tempo dedicado a quatro (Will, o policial, Wolfgang, o ladrão, Riley, a DJ, e Nomi, a ativista), o que acabou deixando os outros quatro de lado. Não podemos atribuir isso como um erro, já que séries da Netflix se desenvolvem de formas diferentes. Na TV aberta, por exemplo, é provável que cada episódio fosse centrado em um personagem diferente. Aqui, os roteiristas armam um esquema para desenrolar suas tramas no tempo necessário. A boa notícia é que todos os oito personagens são interessantes. Em histórias do tipo, que envolvem um grupo de pessoas, sempre encontramos um ou dois indivíduos que não gostamos ou não nos identificamos. Em Sense8 todos parecem minimamente interessantes, principalmente os que tiveram mais destaque no primeiro episódio.

Transcendência

Transcender
v.t.d e v.t.i. Ultrapassar; ser superior a: às vezes certos sentimentos transcendem a razão.
v.t.d. Ir além do ordinário, exceder a todos, chegar a alto grau de superioridade.
v.t.i. Destacar-se dos demais: aquele artista transcende em talento.
Filosofia. Ir além dos limites do conhecimento.
v.pron. Ultrapassar-se; exceder ou superar seus próprios limites: alguns estudiosos conseguem transcender-se, embora sejam incompreendidos.
(Etm. do latim: transcendere)

Transcender sempre foi uma das palavras de ordem na carreira dos Wachowski. Em Matrix os humanos precisavam ir além do conhecimento, liberar-se do casulo, da Matrix, e conhecer a verdade. Em Speed Racer o personagem precisava sempre superar a si mesmo e seus adversários. Tudo em um universo colorido que fugia completamente do real ou conhecido pela humanidade. Em A Viagem tínhamos histórias atemporais e sem fronteiras que se conectavam de modo puramente transcendental, rompendo qualquer barreira, qualquer limite. Em O Destino de Júpiter também temos a personagem que descobre um universo inteiro que antes estava longe de seus olhos e de sua mente. Para os irmãos, sempre há espaço e oportunidades para ir além do conhecido, do habitual. Sair da casca. Abrir a mente.

E os Wachowski já saíram da casca e abriram as mentes há muito tempo. Não é à toa que a série não tem limites ou preconceitos. Em tempos de intolerância, Andy, Lana e demais roteiristas vêm para esfregar na cara da sociedade que a diversidade faz parte do nosso mundo e ela é bela. Depois de uma parcela ignorante da população decidir boicotar uma empresa depois de um comercial que “desvirtuava os valores da família brasileira”, Sense8 e a Netflix chegam com o pé na porta e afirmam com clareza: tem que ser muito babaca pra nutrir preconceitos tão bobos.

A vontade é de dar um prêmio especial para os envolvidos na série: logo na abertura vimos um casal de homens se beijando enquanto tomam o mesmo sorvete; uma das sensates é transexual e vive feliz com a companheira; além disso há uma sequência engraçada e provocante que traz uma atriz vestida de freira tentando transar com alguém. A “patrulha da família” pira. No mínimo já pretendem boicotar a Netflix… Outro momento que merece destaque é quando um personagem comenta: “Ela mixa bem para uma mulher” e recebe a melhor resposta possível: “Ela mixa bem, ponto”.

Sense8 surge complexa, mas entendível. Não é impossível entrar nas camadas do projeto e tentar entender o que está acontecendo. Muito disso se deve à direção precisa (a câmera não para nunca, dando fluidez visual e narrativa ao episódio) e à edição ágil. É ótima a cena em que uma galinha é jogada em um país e cai em outro; outra ótima sequência é quando um personagem escuta a música alta que outro personagem ouve em outro país. Tudo interligando os sensitivos e deixando a narrativa bem equilibrada. De ressalva, apenas um ponto: a fotografia poderia ser trabalhada de modo a diferenciar ainda mais um núcleo do outro. Poderia haver um trabalho de cores, por exemplo: o núcleo de Riley surge azulado, o de Capheus avermelhado, etc. Seria uma forma de facilitar a identificação do público com as várias tramas e personagens.

#Sense1 : Não sei se todos sabem, mas Lana Wachowski é transexual. Ela nasceu como Laurence “Larry” Wachowski e assim permaneceu até 2007, aproximadamente. Desde então, Lana luta pela igualdade de gêneros e diversidade.

#Sense2 : É possível ver uma tatuagem em forma de oito (símbolo do infinito e referência aos oito sensitivos) na nuca de Riley. Ela é a DJ, caso você não tenha decorado o nome de todos.

#Sense3 : O parceiro de Capheus (o motorista da “Van Damn”) segura um papel que traz o número oito impresso. A arte lembra muito o logotipo da série e faz referência lógica aos sensitivos.

#Sense4 : Muito boa a referência a The X-Files: “Com tantos policiais eu fui ser parceiro do Mulder”.

#Sense5 : Os episódios são creditados a apenas um ou dois diretores, mas na verdade são dirigidos por várias pessoas ao mesmo tempo, já que a série é filmada em pelo menos oito cidades diferentes. Ainda assim há o(s) diretor(es) principal, que no piloto foram Andy e Lana.

#Sense6 : Andy Wachowski seria um Rei do Crime perfeito em Demolidor. É mal encarado, careca, grandão e bem parecido.

#Sense7 : Para ser realmente universal, o ideal seria que a série fosse falada em diversos idiomas, e não apenas em inglês. Ainda assim, é compreensível a decisão em manter a produção apenas em uma língua.

Matheus Pereira

Matheus Pereira

Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.

4 comments

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  1. Avatar
    Robson Sobral 9 junho, 2015 at 20:53 Responder

    Posso fazer um off-topic? Parabéns pela resenha. Eu estava cansado de ver sites até de renome trocando resenhas de verdade por recapitulações.

    É bom ver alguém levando as coisas a sério.

    • Matheus Pereira
      Matheus Pereira 10 junho, 2015 at 14:36 Responder

      Muito obrigado, Robson! A intenção é fazer reviews diferenciadas, trazendo um olhar que vai além da recapitulação, da simples descrição das cenas.

      Quem bom que gostou! Aproveite e já dê uma olhada na review do segundo episódio (aqui: http://goo.gl/wtR1OK) e fique de olho nos próximos textos! 🙂

  2. Avatar
    Leandro Cardoso 11 junho, 2015 at 02:22 Responder

    A soma da placa da Van do Capheus também dá 8, assim como em outros personagens tbm ocorre, mas isso é mais pra frente rs

  3. Avatar
    Paula Reis 2 julho, 2015 at 02:25 Responder

    Também reparei neste lance das línguas… Fiquei um pouco decepcionada ao ver todos falarem inglês.
    Excelente review, Matheus!

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