Sense8 – 2×05 – O medo nunca resolveu nada

Imagem: Youtube/Reprodução

Uma das coisas mais complicadas na construção de uma série é a segunda temporada. É comum que o primeiro ano seja elogiado, pois o início de uma trajetória, quando bem feito, pode ser excelente. O segundo ano já é mais delicado: a história já foi estabelecida, os personagens já são conhecidos e, embora não pareça, é muito mais complicado continuar contando uma história do que começá-la. No início há várias coisas a serem ditas, inúmeras peças a serem postas na mesa. Depois disso, é preciso continuar. É por este motivo que muitas vezes as segundas temporadas de tantas séries se saem mal entre público e crítica. Nessa situação, é possível que os roteiristas aprendam com os erros e voltem aos trilhos em um eventual terceiro ano.

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Há exceções, entretanto. No cinema e na TV é possível que as continuações superem os originais. Pode ser cedo para afirmar, mas parece que a segunda temporada de Sense8 deu um salto enorme com relação à primeira. Não que o ano de estreia tenha sido ruim, mas os quatro primeiro episódios podem ser considerados melhores do que metade da primeira temporada, no mínimo. A quantidade de novidades, reviravoltas e cenas de ação e impacto são provas dessa mudança. Embora ótimo, o ano de estreia pecou pela falta de ritmo e por perder oportunidades excelentes que a ideia central proporciona.

Agora, os realizadores, comandados por Lana Wachoswski, parecem decididos em desenvolver ideias bacanas e relevantes, aumentando o escopo sci-fi do programa. Aos poucos estamos descobrindo o que são os sensates, e melhor: estamos conhecendo cada vez mais pessoas dessa espécie. No desfecho deste brilhante episódio, por exemplo, os nossos conhecidos sensates decidem procurar por seus iguais, o que cria um ótimo momento (um dos melhores de toda a série) envolvendo todo o elenco e a música que já virou tema do show. Essa reviravolta, que já era esperada e construída desde a première, representa uma mudança enorme para a série, abrindo inúmeras perspectivas e possibilidades.

Com novos sensates, imagine o que pode ser possível em termos narrativos e visuais. Além disso, é possível que, no futuro, possamos acompanhar outros grupos, renovando os rostos e as tramas com frequência. Enquanto isso não acontece, podemos seguir adorando os sensates que temos. E é com muito alívio que vejo os nós mais fracos da série sendo fortalecidos. É ótimo perceber que justamente Sun, Wolf e Kala, os personagens mais problemáticos, começam a ganhar formas interessantes na temporada. Sun está exilada, ameaçada pela polícia e pela própria família. Wolf começa a se envolver com outra sensate e com problemas que parece não poder se afastar. Já Kala, embora ainda não protagonize diretamente a melhor das tramas, ao menos vê a briga de seu pai se tornar mais interessante, e a discussão à mesa, durante a refeição, é ótima.

Como um todo, o quinto episódio (quarto a partir da première) resgata alguns detalhes interessantes que possam escapar da memória: o homem que aparece para ajudar Sun já apareceu anteriormente. Na primeira temporada, ele e Sun têm um momento íntimo no vestiário após lutarem. Algo que motiva o sujeito neste segundo ano. Já Riley retorna à sua profissão anterior e, para isso, pinta uma mecha do cabelo de azul, assim como fazia anteriormente. Já Will faz a barba e tem o cabelo cortado. Lito, ao receber um convite para a Parada Gay de São Paulo, recebe uma dose de ânimo para assumir quem realmente é. Parece que todos arregaçam as mangas para momentos de decisão, voltando a serem fortes, voltando a ter foco e coragem.

Outro momento que merece destaque é o encontro de Nomi, Amanita e Bug no cinema. O Cara que os encontra usa uma máscara de Guy Fawkes, popularizada no filme V de Vingança e utilizada por ativistas do grupo Anonymous. Parece um detalhe bobo e óbvio (um hacker com essa máscara não é novidade), mas vamos voltar à abertura do episódio e ver o nome do diretor: James McTeigue. Para que não lembra ou não sabe, McTeigue é simplesmente o cara que dirigiu V de Vingança. Foi ele que trouxe, ao lado das irmãs Wachoswki que escreveram o roteiro, e tornou famosa a máscara de Fawkes. É curioso, portanto, que surja no capítulo dirigido por ele um sujeito que encarne a persona de V, o protagonista do filme. O Cara chega a abusar da verborragia e das palavras com v, assim como no longa-metragem, numa clara referência e piada interna. Ao ser questionado se ele havia criado todo aquele texto sozinho, ele diz ter um aplicativo muito bom que o permite falar daquela forma, o que também é um deboche ao filme, cujo texto rebuscado de seu protagonista quase não pode ser entendível.

Mas é mesmo o desfecho que torna-se o melhor momento de um episódio cheio de partes memoráveis. Depois de pintar o cabelo, cortar o de Will, Riley vai a uma festa, tocar para uma multidão. É lá, entre luzes e o calor de muitas pessoas, que outros sensates surge enquanto What’s up, o hino da série, toca a todo volume, numa das sequências de maior impacto da série. Aqui, contudo, há uma mudança que merece ser apontada: a versão da canção é uma mais acelerada, com batida potente e pegada envolvente. Assim como a música, Sense8 aparece desta vez com uma nova cara: surge remixada.

Tags Sense8
Matheus Pereira

Matheus Pereira

Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.

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