À primeira vista, Sereias (Sirens), nova série da Netflix, pode parecer apenas mais um drama contemporâneo ambientado em uma ilha isolada com toques de suspense psicológico e intrigas entre ricos e poderosos. No entanto, quem mergulha de verdade na trama descobre que por trás da história de Michaela “Kiki” Kell, Simone DeWitt e Devon está um subtexto riquíssimo inspirado na mitologia grega — especialmente nos mitos de Perséfone, Hades e, claro, das próprias sereias.
Com referências visuais e simbólicas escondidas em quase todos os episódios, Sereias reimagina antigas figuras mitológicas sob a lente moderna do poder, do controle masculino e da repressão feminina, enquanto oferece novas respostas — e questionamentos — sobre o papel das mulheres na narrativa e na história.
A Casa no Penhasco é o palácio de Hades moderno
O local onde tudo acontece, a mansão isolada de Peter Kell, é uma clara releitura do mundo inferior de Hades. Assim como o submundo grego, a casa só é acessível por balsa e é marcada por um ambiente sombrio, opressivo e afastado do restante da sociedade. Lá dentro, a personagem Michaela cuida de um aviário com aves raras, uma possível alusão ao Jardim de Perséfone — o único lugar colorido e vivo no reino dos mortos.
Peter, assim como Hades, é um homem poderoso, controlador e seduzido por mulheres mais jovens. Michaela, apesar de vista por muitos como a mulher fatal que destruiu uma família, na verdade se torna uma prisioneira desse relacionamento, sem filhos e com a solidão como única companhia. Ela é Perséfone sob uma nova ótica, tentando encontrar identidade e sentido em um lugar onde foi colocada, mas nunca realmente acolhida.

Michaela, Simone e Devon: as verdadeiras sereias
Na mitologia, as sereias eram originalmente companheiras humanas de Perséfone. Quando ela desapareceu, sua mãe, Deméter, transformou essas mulheres em criaturas aladas para que procurassem pela filha. Mais tarde, sem função no submundo, as sereias foram relegadas a ilhas, onde usavam suas vozes para atrair marinheiros à destruição.
Na série, Michaela, Simone e Devon representam esse trio mitológico. Não apenas porque estão presas em uma ilha cercada de homens obcecados, mas também porque são mal interpretadas, manipuladas e rotuladas como perigosas — não por quem são, mas por como os homens reagem a elas.
O ponto é reforçado quando vemos que Peter, não Michaela, é quem destrói seu próprio casamento e afasta os filhos. E ainda assim, ele a culpa por tudo. O mesmo se aplica a Ethan, que chama Simone de “monstro” por não aceitar seu pedido de casamento. Ou Raymond, que joga toda a culpa de seu casamento destruído sobre Devon, embora tenha sido ele quem traiu.
Esses homens são os marinheiros modernos, cegos pelo desejo e pelo ego, que destroem a si mesmos ao seguirem o canto das sereias — e depois as culpam pelo naufrágio.
O barqueiro, as Moiras e os pequenos detalhes mitológicos
Até os coadjuvantes carregam simbolismos. Jose, o mordomo fiel de Peter, é facilmente reconhecido como uma alusão a Caronte, o barqueiro do Hades, que conduz almas — ou visitantes — de e para a casa sombria.
Já o trio Cloe, Astrid e Lisa, amigas íntimas de Michaela que andam sempre juntas e vestidas em sintonia, funcionam como as Moiras, as irmãs do destino. Em uma das cenas mais simbólicas, elas praticamente predizem o futuro de Devon durante um passeio de compras, sugerindo que ela tem o poder de moldar sua realidade com confiança. Embora tratadas com leveza e humor, essas “fadas sociais” contribuem para o misticismo da série.

A crítica escondida por trás do mito
No final das contas, Sereias não é só uma história sobre mitologia — é uma crítica contemporânea sobre como mulheres são constantemente desumanizadas, idealizadas ou culpadas dentro das narrativas dos homens. A série mostra que as sereias talvez nunca tenham sido vilãs, mas sim vítimas de um sistema que não aceita sua liberdade e autonomia.
Ao transformar mitos antigos em personagens modernos, a Netflix entrega uma trama densa, cheia de segredos, metáforas visuais e simbolismos escondidos em detalhes que só se revelam a quem está atento. E se há uma mensagem que ecoa com força ao fim da série é: o problema nunca foram as sereias. Foram sempre os homens que não souberam lidar com o poder do canto.
Sereias não apenas resgata vozes femininas mitológicas esquecidas — ela as amplifica. E por isso, o final da série diz mais do que parece. Basta saber ouvir.