O título da série Sereias (Sirens), da Netflix, vai muito além de uma referência mítica. Ele carrega uma carga simbólica profunda que costura o passado traumático das protagonistas — as irmãs Simone e Devon DeWitt — com as escolhas que moldam seus destinos na trama.
Ao longo da minissérie, a palavra “sirene” funciona como um código íntimo entre as irmãs. Sempre que uma delas precisava de ajuda, enviava um sinal de alerta: “sirens”. Esse código se torna ainda mais significativo quando conhecemos a origem dele — e sua conexão direta com um momento doloroso do passado.
Sirene como grito de socorro
No primeiro episódio de Sereias, quando Devon é presa, ela manda uma mensagem com a palavra “sirens” para Simone. Mas Simone, imersa em sua nova vida como assistente da socialite Michaela Kell, ignora o chamado. Isso se torna o estopim para Devon procurar a irmã pessoalmente, no luxuoso refúgio litorâneo onde a trama se desenrola.
A origem do código, porém, só é revelada no episódio final: quando eram crianças, a mãe das duas tentou tirar a própria vida e a da pequena Simone, deixando o carro fechado com fumaça de escapamento. Foi Devon quem salvou a irmã.
O som que Simone ouviu, enquanto sufocava no banco de trás, foi o das sirenes da polícia e da ambulância chegando. Desde então, esse som passou a simbolizar, para elas, um pedido de socorro — o chamado mais urgente entre irmãs.
O canto da sereia: sedução e tragédia
O episódio final de Sereias, chamado Siren Song, aprofunda a metáfora do título. Na mitologia grega, as sereias são criaturas híbridas (meio mulher, meio pássaro) que seduzem marinheiros com cantos irresistíveis, levando-os à destruição. Essa simbologia ecoa diretamente nos acontecimentos finais da série.
Quando Peter, o bilionário marido de Michaela, ouve uma melodia à beira-mar, corre em direção à voz. Para ele, é como se tivesse sido salvo de um ataque de pânico. Mas quem canta — simbolicamente — é Simone, que se torna sua nova musa. Ele a enxerga como um novo recomeço e a pede em casamento, ignorando a esposa. O canto da sereia, nesse caso, hipnotiza Peter e o leva a abandonar Michaela, assim como um marinheiro encantado pelas sereias mitológicas.
Mas a ironia é que Simone aprendeu esse “canto” justamente com Michaela. A socialite atraía jovens mulheres com promessas de uma vida melhor, quando, na verdade, as introduzia a uma prisão invisível: a vida de esposa troféu.
No episódio 4, Michaela alerta Simone: estar casada com um homem extremamente rico pode parecer um conto de fadas por fora, mas por dentro é solitário e sufocante. Infelizmente, Simone ignora esse aviso — os “sinais de sirene” que tentavam alertá-la.

A ilha como submundo: a releitura de Hades e Perséfone em Sereias
A jornada de Michaela também carrega paralelos com o mito de Perséfone. Assim como a deusa foi raptada por Hades e levada ao submundo, Michaela foi seduzida pelo luxo, casou-se com Peter e foi levada para a ilha — onde sua identidade se dissolveu sob o peso das aparências. Sem liberdade, cercada apenas por pássaros e silêncios, Michaela vivia isolada, presa em um paraíso dourado.
Ao final da série, vemos Simone ocupando esse mesmo espaço. Ela se tornou a nova “rainha” da ilha — mas tão sozinha quanto Michaela. Devon, sua única ligação com o mundo real, vai embora. E Simone permanece na beira do penhasco, com o “canto da sereia” ecoando. Assim como Michaela antes dela, ela agora aguarda que outra jovem, encantada por promessas de sucesso e estabilidade, chegue à ilha — reiniciando o ciclo.
Conclusão: o ciclo das sereias
Sereias usa seu título como símbolo de vários ciclos: o grito de socorro entre irmãs, a sedução de uma vida aparentemente perfeita e o aprisionamento em relações desequilibradas mascaradas de poder. O “canto da sereia” é, ao mesmo tempo, um convite e um alerta. Ele pode parecer uma salvação — como para Peter —, mas pode ser também uma armadilha. Ao ignorar os sinais, Simone cai no mesmo destino que tentou evitar.
Com isso, Sereias entrega uma crítica poderosa sobre ambição, relações de poder e a solidão disfarçada de luxo — tudo embalado por uma metáfora que atravessa da mitologia à dor contemporânea.