Sherlock – 4×02 – The Lying Detective

Imagem: Arquivo Pessoal/Richard Gonçalves
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Imagem: Captura de Tela/Reprodução

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“You’re suicidal, you’re allowed chips. Trust me, it’s about the only perk.”

Difícil. É somente assim que consigo descrever “The Lying Detective”, segundo episódio desta temporada final de Sherlock. Não posso negar que gostei do conto que “empresta” o título ao episódio e dos paralelos criados entre o conto e a série… mas, pela primeira vez,  me senti dividido. Não quero soar extremamente fanboy, ao ponto de negar que algo me incomodou, mas também não quero esquecer ou desmerecer os momentos espetaculares que o episódio teve.

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A necessidade de um período de adequação, depois do que aconteceu com Mary, era óbvia, e a série escolheu uma maneira louvável de fazê-lo, traçando analogias com um conto que mostra Holmes emulando um profundo nível de adoecimento. Na verdade, a doença de Sherlock no começo de “The Adventure of the Dying Detective” (1913) é traduzida pelo “adoecer” que ele causa a si mesmo com as drogas aqui, e isso até nos rendeu alguns momentos hilários. Mas é o papel de Watson que foi mudado do conto para o episódio, e que aqui, não agradou. E isso, de forma alguma nega ou diminui o valor daquilo a que o roteiro se propôs. Não sendo um especialista em lidar com o luto ou tudo o mais que possa se entender do que está acontecendo com Watson, parece inapropriado julgar, mas estamos falando de qualidade narrativa, terras onde um tipo enevoado de negação ao ad hominem impera; não importa a qualidade total da série, muito menos o nível titânico da atuação oferecida… e não importa que o texto da série nos mime posteriormente, a “terapia” de lamentação de Watson, vendo ilusões de Mary e tudo o mais foi muito mais tortura para o expectador do que real ambientação do tipo de sofrimento que ele estava vivenciando. O tempo empregado aqui não só parecer ter sido demais; ele parece ter sido desperdiçado.

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Foi sim um episódio emocionante, e Eurus/Sherrinford Holmes foi uma revelação brilhante, que fez os fãs da lore irem fundo na busca por referências. E claro, não podemos esquecer da melhor atuação no episódio todo, a divina a Mrs. Hudson (RAINHA da série), violando a lei e sendo um alívio cômico tão bom quanto foi inesperado… na verdade, tirando esse erro inicial no tom de Watson, foi um episódio mais sombrio e, ao mesmo tempo, muito mais agitado e intrigante, deixando um gosto de “quero mais”, que infelizmente não apaga o todo do dissabor deixado por Watson, mas que não falha em apresentar algo excelente.

Olhemos, por exemplo, para o “vilão” desta semana. Toby Jones conseguiu, com sua impecável representação de Culverton Smith, fazer algo singularmente difícil: ultrapassar (em termos de “impacto” dramático) Charles Augustus Magnussen e lembrar-nos da crueza má de Moriarty. É claro, o papel de Jones capturou a essência de Smith em suas minúcias, absorvendo os ímpetos, a agressividade da fala, a leviandade… toda  a perturbação e, simultaneamente, frieza apresentados por Culverton Smith no “The Adventure of the Dying Detective” (1913), sem deixar de acrescentar suas nuances ao personagem.

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Moffat fez dessas nuances sua maneira de ambientar o vilão, fazendo dele um tipo diferente de inimigo “inalcançável”. Na verdade (e é aqui que minha menção anterior a Charles Augustus Magnussen passa a fazer sentido), é o tipo de inalcançável que vimos em “The Adventure of Charles Augustus Milverton” (1904). Assim como Magnussen, Smith é uma figura de certa notoriedade pública, que controla segredos – ou, neste caso, um nível de influência alto – de certas pessoas que podem alterar o equilíbrio do jogo.

Mas enquanto minhas observações sobre Culverton Smith ainda beiram as divagações, façamos um desvio para analisar o estado do grande Sherlock Holmes depois dos eventos do episódio anterior. Enquanto Watson se perde em delírios que, acho, deixei evidente que não atraem a minha atenção, Holmes absorveu o perfeito desarranjo que esperava dele. O tipo correto de insanidade, de vício, o declínio do foco, mas não da exatidão de suas deduções. E “Faith” foi um elemento muito mais interessante do que aquele usado no conto que ambienta a situação. A garota cumpriu muito mais do que lead-in para o caso; ela foi o espectador, questionando, procurando entender, fazendo com que as explicações para às deduções fossem necessárias e naturais. E claro, ela permitiu que Cumberbatch pudesse fazer suas deduções e ainda tirar onda com Mycroft, tudo isso num passeio só. Mesmo que ela fosse Eurus Holmes o tempo todo, isso não estragou a diversão.

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Falando nele, assim como o irmão, Mycroft conseguiu imprimir uma quote permanentemente na memória. Enquanto Sherlock tenta (e falha) se distanciar da condição humana com o seu “I’m not sweet, I’m just high.”, Mycroft mostra um cinismo que só vi na versão dele apresentada em “The Abominable Bride” com o seu “Everybody dies. It’s the one thing human beings can be relied upon to do.”. Mesmo assim, a preocupação dele com o irmão que ainda não se perdeu é notável, e vira espaço para um alívio cômico excelente.

Entretanto, é Sherlock e ninguém mais que diz aquilo que precisa ser dito, num dos muitos momentos em que a série fala diretamente para o telespectador e sobre os problemas reais da vida, sem se afundar em autopiedade e lamentação, mas abraçando a sutileza que já se espera da série. E nada, além da própria frase, pode capturar a essência do quão belo e poderoso é o conceito: “Taking your own life. Interesting expression… taking it from who? Once it’s over, it’s not you who’ll miss it. Your own death is something that happens to everybody else. Your life is not your own. Keep your hands off it.”.

Imagem: Arquivo Pessoal/Richard Gonçalves
Imagem: Captura de Tela/Reprodução

Agora para o terceiro “irmão” Holmes, não vou negar que adorei a surpresa. Eurus/Sherrinford Holmes foi decididamente uma cartada poderosa dada pela produção, mais ainda por enganar todo o público que, como eu, lembra da entrevista em que Steven Moffat declarou que, dada a escolha, gostaria de interpretar Sherrinford Holmes. Um nome cheio de significado, Sherrinford foi tanto um dos nomes que Sir Arthut Conan Doyle considerou para seu grande detetive, ele é também o nome de solteira da mãe de Sherlock e Mycroft no canon. O fato de Sherrinford ser uma mulher referencia a bem mais do que isso. No todo (embora fora do cânone) das produções que abordam o detetive inglês, esta não é a primeira vez que Sherlock tem uma irmã; uma série foi escrita, por Nancy Springer, onde a protagonista era a jovem Enola Eudoria Heddassa Holmes, uma jovem de 14 anos que evita Mycroft (porque ele queria confiná-la a um tipo de internato), mas que tem certa afeição por Sherlock.

Mas falemos de outro dos verdadeiros prazeres que o episódio nos deu, Mrs. Hudson simplesmente foi além dos sonhos mais insanos de qualquer fã, e uma das melhores ironias é que ela faz algo similar em “The Adventure of the Dying Detective” (1913); ela procura Watson porque Sherlock está “doente” e é assim que todo o conto começa. Entretanto, essa foi só a primeira das muitas delicadas sutilezas da personagem. Depois de mostrar que a dinâmica entre ela e Holmes é muito mais do que aquilo que pode ser descrito (a defesa dela a si mesmo com aquele “Don’t you dare!” foi também uma defesa a ele), ela ainda surpreende ao bancar o speed racer e fazer isso enquanto fala ao telefone, ambos fatos que ela confessa, sem cerimônia, ao policial. E isso para não mencionar fazer Watson prometer examinar Sherlock antes de abrir o porta-malas, a maneira com que ela dominou Sherlock e, claro, seu momento mais célebre: “The Game is on”. Simplesmente espetacular.

Verdade seja dita, foi esse desvio cômico que o meio do episódio tomou que me fascinou mais. Obviamente Mrs. Hudson foi a melhor parte, mas a maneira com que Sherlock orquestrou a situação toda, mesmo estando num estado tão decadente, foi perfeito. Claro, a real base para que todo o arranjo seja tão interessante é a mudança de tom. O cômico aqui é só o fôlego que a série toma antes de um mergulho profundo e soturno no universo de Culverton Smith. É uma mudança tangível. Cada ameaça, o nível do poderio do rival enfrentado, tudo isso torna-se quase que tangível quando o humor acaba e o silencio desconfortável das manipulações de Smith entra em cena.

O discurso dele sobre poder e ser intocável é um tapa direto na cara da situação do mundo atualmente, enquanto não deixa de ser um perfeito testemunho da excelente atuação de Toby Jones. Mais ainda porque há a sutileza. Jones brinca, diverte-se no papel de vilão enquanto usa a Rainha como exemplo e marco de sua “influência”. Ao mesmo tempo, a inversão, aqui não é Culverton Smith que se propõe a assistir a “morte” de Sherlock Holmes, como no conto; é Sherlock quem prepara (erroneamente) o golpe e é ele – e toda a audiência – quem se surpreende com o resultado final.

Esperava sim que, de alguma forma, Sherlock tivesse feito algum preparo para obter a confissão de Culverton Smith, e até achei que, depois de ter batido nele, John acabaria por perdoar Sherlock, num momento meloso que faria os shippers dos dois ficarem felizes. Sabia também que alguém traçaria um paralelo com o jogo com Irene Ardler para evidenciar a curva emocional sofrida por Holmes aqui. Mas o que realmente me surpreendeu foi como a Mrs. Hudson conseguiu fazer sentido a tudo no fim, sem precisar de todo o esforço que os outros desempenharam. Ela simplesmente desconstruiu o grande Sherlock Holmes, humilhou Mycroft Holmes e revelou o mistério de Mary Watson, parte da solução para o problema Culverton Smith, tudo isso em poucos minutos de cena.

Nesse meio tempo, a recriação do confronto final entre Culverton Smith e Sherlock Holmes honrou o conto em cada linha, com ainda mais beleza do que era de se imaginar. Smith se portou exatamente como um caçador cruel, aproveitando o sofrimento de sua vítima enquanto achava ter a vitória assegurada destilando um nível de obsessão tão doentia; então covardia e confissão, a falha de um pseudo-predador derrotado.

Agora, resta esperar. E na falta de uma despedida apropriada ou de qualquer tipo de conclusão para esse longo devaneio, me emprestarei do que o próprio Arthur Conan Doyle disse para terminar com um aviso… “[…] Um vento do leste se aproxima, um vento como nunca soprou na Inglaterra. Será frio e implacável, e muitos de nós poderemos perecer sob seu sopro.”.

Deduction 01: Ainda falta explicar exatamente onde o nome Sherrinford entra. O terceiro “irmão” apresentou-se como Eurus, e não fica claro se há mais um irmão, se esse é só um codinome que Mycroft deu a ela ou se seria simplesmente uma persona/designação que ela adotou ao longo dos anos? Ou ainda, este seria o nome ou codinome do lugar a que ela foi confinada?
Deduction 02: Esta é a vingança final de Moriarty? Libertar uma irmã, tão dotada quanto Sherlock e Mycroft nas artes da dedução e enganação, para confrontar e possivelmente destruir os irmãos.
Deduction 03: O aniversário de Sherlock Holmes sempre foi tópico de discussão entre os fãs – já que Arthur Conan Doyle nunca fixou essa data nos livros. Mas é comumente aceitado, entre os fãs e estudiosos, que a data seja 06 de janeiro.
Deduction 04: Foi interessante que Mary tenha parecido mais como um reflexo de Sherlock do que de John. Longe de mim negar ou negligenciar os possíveis poderes de dedução de Watson ou da finada Mary, mas essa velocidade de pensamento, para uma alucinação, foi interessante.
Deduction 05: Revisitar a intensidade do descontrole causado pelas drogas em Sherlock foi necessário, mas cansativo. Já havíamos, em “His Last Vow” e “The Abominable Bride”, entendido o quão poderosas as combinações de narcóticos que ele usa podem ser, e este episódio só reforçou a magnitude dessa premissa já conhecida.
Deduction 06: Vale notar – uma coisa que acabei retirando da ultima review por não ter pesquisado a ideia suficientemente – que the east wind, tão mencionado e sendo um pilar tão intenso na iconografia desta temporada, pode transcender Eurus Holmes. A história de Mycroft, do vento leste punindo os que não mereciam de maneira implacável pode ser também uma alusão ao declínio do próprio Sherlock Holmes – o que era o plano de Moriarty desde o começo. É tanto que, quando ele pede a Mrs. Hudson que lhe diga “Norbury” quando ele estiver muito envolvido emocionalmente ou em suas faculdades dedutivas, isto nada mais é do que um lembre de que linhas não devem ser cruzadas, linhas que ele cruzou nesses dois episódios e talvez tenha que cruzar na grande finale que nos aguarda.