Sherlock – 4×03 – The Final Problem [SEASON FINALE]

Imagem: Arquivo Pessoal
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Imagem: Captura de Tela/Reprodução

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“Hello. My name’s Jim Moriarty. Welcome to the final problem.”

AhSherlock, chegamos a esse momento. Não de adeus, obviamente. Não, pelo menos não enquanto Moffat não disser que este realmente foi o fim; por hora, este momento foi apenas a conclusão de um grande ciclo. Afinal, o jogo com Jim Moriarty finalmente chegou ao fim, mas as aventuras de Sherlock Holmes e do Dr. Watson estão apenas começando, porque como Moffat e Mary nos disseram, não temos permissão para acabar com Sherlock Holmes. Ele sempre estará lá. Mas isso é me adiantar no que já disse a frente, então vamos à review.

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Confesso que estava um pouco (muito!) curioso para descobrir como o episódio se ambientaria; afinal, o título é bem sugestivo, e é fácil pensar direto no “The Adventure of the Final Problem” (1893), o que não é errado, afinal, a essência do problema ainda é a mesma, e o fato de que este conto já contribuiu com “The Reichenbach Fall” (S02E03), não é um impedimento. Mas, como vimos, Moffat brincou com nossas emoções ao acrescentar nuances de um dos meus contos favoritos, “The Adventure of the Musgrave Ritual” (1893) e até de “The Adventure of the Empty House” (1903). Toda a aura de mistério policial e terror dos primeiros segundos, e depois toda a dinâmica de um jogo que vem sendo planejado e desenvolvido em todos os episódios que vimos até agora só nos assegura de que, mesmo que este seja NÃO É um “adeus”, sairemos não só com uma grande aventura, mas com um marco da feitura da TV moderna.

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Seja pelos pequenos plot twists que se encadearam na trama, assegurando uma variedade de sentimentos a cada cena ou simplesmente pelo brilhantismo da escrita – que parece, sem motivo algum, ter desagradado bastante alguns “fãs”, fato evidenciado pelo rage visto nas redes sociais – “The Final Problem” prometeu e cumpriu, indo além das minhas mais insanas expectativas, até mesmo em quotes como essa:

– Well, don’t worry, there’s a place for people like you, the desperate, the terrified. The ones with nowhere else to run. (John)
– What place?
(Mycroft)
221B Baker Street. See you in the morning. If there’s a queue, join it. (John)

Na verdade, grande parte das reclamações se dá pela humanização do personagem de Holmes, que escolhe seus aliados finais, que cerca-se de amigos para a batalha com o Vento Leste e para tudo o que se seguirá. E é exatamente essa humanização que acrescenta ainda mais brilho a série. É maximizar a katharsis, e nos incluir, nós que suportamos longos hiatus e o toda e qualquer indefinição sobre o futuro da série por sabermos que ela não nos abandonaria; ao nos incluir, Moffat garante que também somos uma parte do Jogo que agora termina, e que ele não acabaria sem nós.

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Ver, por exemplo, Sherlock defender Watson frente a Mycroft, dizendo que Watson deve participar exatamente por ser um assunto de família, ver esse mesmo Sherlock negar a Eurus o prazer de vê-lo matar Mycroft ou Watson… ver o mais velho dos irmãos finalmente nos mostrar o seu Palácio Mental e descobrir que talvez um dos contos mais peculiares – por ser um caso que Sherlock é quem narra para o Dr. Watson – “The Adventure of the Musgrave Ritual” (1893) não passaria sem ser usado.

Watson também foi, do início ao fim, o personagem que lembramos e queríamos ver. Não só pelo seus diálogos com Mycroft, nem pela situação de perigo em que ele acaba, e nem mesmo pela menção à “Importância de Ser Prudente”, uma das mais populares peças de Oscar Wilde, mas pela plenitude e sutileza de suas ações. Ele, assim como é mencionado no início de “The Adventure of the Empty House” (1903), tenta aplicar os “métodos” de Sherlock; ele tenta ser mais do que só a voz de razão e consciência moral; ele entra no jogo que não é mais um jogo, preparado para tudo e todos os custos, não só para resolver esta última charada, mas para defender Sherlock, para ser, com ele, um soldado nessa aventura, assim como Sherlock acaba por ser um soldado na aventura que deve ser criar a pequena Rosie, como vimos nas cenas finais.

E como foi difícil ver que o início da aventura exigia, assim como foi no conto que empresta o título ao episódio, que o 221B Baker Street precisasse ser destruído. Claro que isso nos rendeu excelentes cenas no fim do episódio, e toda a destruição e reconstrução funcionam como o fim absoluto e um novo começo de ciclo para os “meninos de Baker Street”, mas mesmo assim, ver aquela sala em que a mágica acontecia desaparecer, mesmo que momentaneamente, foi forte.

E falando em impactante, Eurus decididamente causa uma impressão e tanto. Sempre imaginei – e, em algumas partes de fora do cânone, isso deve ter sido feito – como seria se um Holmes fosse entregue ao “crime”. E Eurus completa essa visão sem maiores esforços. Sim, no final, as coisas são resolvidas, mas só o fato de que ela escravizou uma prisão inteira simplesmente para poder sair e brincar foi espetacular.

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Na verdade, Eurus só perde, em termos de “entrada triunfal”, para Moriarty. Mesmo que num flashback, o grande nemesis de Sherlock retorna dos mortos uma última vez, com direito a “I want to Break Free”, um outro exemplo da maravilhosa trilha sonora que embalou o episódio. E – não acredito que estou realmente escrevendo isso – como eu senti falta de Moriarty! O cinismo, a insanidade refinada, o funcionar brilhante de uma mente distorcida… simplesmente um presente cheio de nostalgia para os fãs.

De volta a Eurus, não vou negar que essa trama meio Jogos Mortais meio novela mexicana me incomodou a princípio. Afinal, é de Sherlock que estamos falando. Crescemos acostumados a um certo padrão. Contudo, quando a metáfora é finalmente revelada… ainda me incomodou um pouco. Talvez esse tenha sido o problema. A narrativa nos é oferecida linearmente, mas quando paramos para contemplar o todo, as coisa passam a fazer sentido.

Moly Hooper, por exemplo, que foi uma participação pensada e incluída já durante as gravações; a declaração de amor dela era um elemento há muito esperando para ser usado na série. E mesmo que Moly não compreendesse o todo da situação, uma parte dela sabia o quão sérias as coisas deveriam ser para que Sherlock fizesse aquele pedido. Nós somos Moly por grande parte da trama. Não podemos ver além da linearidade dos fatos que Eurus nos apresenta, e quando isso desmorona, leva tempo – e rever o episódio algumas vezes – para passar da desorientação inicial e nos recompormos para a batalha que ainda nos aguarda.

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É nesse momento, quando, nem por um segundo, consegui acreditar que Mycroft realmente quisesse dizer aquelas coisas, quando ficou transparente que ele só queria irritar Sherlock para que ele atirasse, tão transparente que nenhum dom de observação ou poder dedutivo é necessário para perceber isso… é nesse momento, quando Sherlock faz a opção pelos outros mais uma vez, quando ele escolhe autossacrifício, como foi quando Moriarty o obrigou a “se matar” em “The Reichenbach Fall” (S02E03), é neste momento que tudo passa a fazer sentido. Quando Sherlock faz algo que nós, que realmente o conhecemos, esperávamos dele, quando ele contraria Eurus, a trama finalmente se revela. Ela não se simplifica. Os problemas não diminuem. Mas a mensagem é clara. Quando, por um segundo, somos forçados a imaginar que “Holmes kills Holmes” fosse uma alusão a Sherlock matar a si mesmo de maneira literal, é aqui que a ideia que desagradou a tantos, internet a fora, se inicia.

Porque, obviamente, a mensagem não é literal. É só um momento de tensão – MUITA tensão – sendo construído. É um instrumento para montar uma katharsis mais poderosa. Afinal, no fim, Sherlock mata a si mesmo, mas não da maneira que Moriarty ou Eurus esperavam. Ele se mata ao se desconstruir, ao abandonar a faceta que era a sombra de sua irmã perdida para se tornar mais humano. Sim, é um final de novela, dos piores até. Mas funciona com tamanha perfeição que, se for observado corretamente, sem a pressa oriunda da cacofonia de uma “pós”-modernidade hiper-real que perdeu a noção de si mesma ao tornar-se tão banal quanto aquilo que abomina, tudo ficaria bem claro. É novamente uma queda para Sherlock; mas ele renascerá.

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Afinal, Eurus esperava, assim como Moriarty, brincar com a lógica de Sherlock, usando suas emoções como uma fraqueza. E como todo bom clichê de novela, são essas emoções, é essa dor de perda, é esse amor, que é a solução, não só do Ritual Musgrave, mas de todos os dilemas que o grande detetive enfrentou até aqui. É claro que havia um quarto elemento! Seja pelas divagações divididas com Caroline Marques – a quem aproveito essas linhas para agradecer imensamente, não só pelo feedback dos episódios e dessas reviews, mas pelo companheirismo de ser Sherlock, enquanto eu anoto deduções como o bom Dr. Watson – ou simplesmente porque tinha que ser, havia um quarto elemento. Mas não eram gêmeos, e sim um melhor amigo, morto por uma Eurus que só queria ser notada.

E quando ela é notada, o grande palácio mental em que estivemos por todo esse tempo se desfaz. A tensão se dissipa, agradecimentos são preparados e a cortina prepara-se para descer. Quando Sherlock, um Sherlock tão humano que até mesmo o nome de Greg Lestrade ele lembra, finalmente encontra a resposta que Eurus e Mycroft haviam lhe negado, tantos anos atrás, a história termina, e um novo capítulo prepara sua entrada, que trará consigo uma era de, como Moffat disse em entrevista, um Sherlock mais próximo daquele que conhecemos das obras de Jeremy Brett ou Basil Rathbone, fazendo do que vimos até aqui, um prequel muito elegante de um Sherlock Holmes ainda mais interessante.

E essa entrada também acentua uma tendência. De um jeito ou de outro, as coisas e as pessoas tendem a não ficarem mortas quando o assunto é Sherlock. Seja Mary, Moriarty ou o próprio Sherlock, a série continua nos dizendo que há sempre mais. E quando Mary, mais uma vez, retorna para nos das instruções finais, ela comprova aquilo que é dito em “His Last Bow” (1917). Agora que o vento leste veio e passou, agora “[…] o sol iluminará uma terra mais limpa e mais forte quando a tempestade tiver passado”. Agora sim, em plenitude, as palavras de Mary são verdadeiras e o melhor final que eu poderia dar a essa mais-que-longa divagação:

“Will you listen to me? Who you really are, it doesn’t matter. It’s all about the legend. The stories, the adventures. There is a last refuge for the desperate, the unloved, the persecuted. There is a final court of appeal for everyone. When life gets too strange, too impossible, too frightening, there is always one last hope. When all else fails, there are two men sitting arguing in a scruffy flat like they’ve always been there, and they always will. The best and wisest men I have ever known. My Baker Street boys. Sherlock Holmes and Dr Watson”

 

Deduction 01: O atentado à 221b Baker Street é uma referência ao incêndio que os capangas de Moriarty causam no apartamento, durante “The Adventure of the Final Problem” (1893).
Deduction 02: Vale mencionar que em “The Abominable Bride”, as cataratas descritas em “The Adventure of the Final Problem” (1893) são representadas perfeitamente, outra evidência do quão amarrada é a trama traçada por Moffat.
Deduction 04: Mrs. Hudson não deixou de ser RAINHA nesse episódio também. Ela teve a chance de, mais uma vez, fazer Mycroft parecer idiota e ganhou muitos pontos extra por aspirar ouvindo “The Number of the Beast”, do Iron Maiden.
Deduction 05: No fim, Sherrinford era mesmo um lugar.
Deduction 06: A menção a “O Silêncio dos Inocentes”, como bem observado pelo Den of Geek, nos leva a ironia de que Sherlock, assim como Hannibal, chegou a dizer que nada aconteceu com ele, que nada o fez e sim que ele fez a si mesmo. E assim como foi com Hannibal – embora aqui tenha funcionado e sido feito com sutiliza e qualidade, e não com o absurdo que foi Hannibal Rising – descobrimos que Sherlock também foi “feito” por algo. Que as ações de Eurus e o eco de quem ela é (e de RedBeard) fizeram de Holmes essa figura tão singular.
Deduction 07: Uma combinação estranha de “The Adventure of the Three Garridebs” (1924) com “The Adventure of the Empty House” (1903) é o mistério que Eurus propõe a Sherlock na segunda “fase” de seu jogo de confinamento em Sherrinford.
Deduction 08: Um imenso obrigado a todos que acompanharam, contribuíram e tiveram paciência para as minhas intermináveis – e nada razoáveis – linhas que formaram essas três reviews. Foi um imenso prazer dividir essa temporada fantástica com vocês, e espero reencontrá-los quando – nunca direi “se”, já que não acredito que este seja o fim – a série retornar.

Professor de Língua e Literatura, apaixonado por quadrinhos, música e cinema. Viciado em café, bons livros, boas animações e ocasionais guilty pleasures (além de conversas sem começo, meio nem fim). De gosto extremamente duvidoso, um Reviewer ocasional aqui no Mix de Séries e Colunista no Mix de Filmes.