Sherlock Holmes: entre o clássico e o contemporâneo

Sherlock BBC (1)

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Sherlock Holmes é o investigador mais famoso surgido na literatura. Criado nos idos de 1887, o racional detetive fez sua primeira aparição no romance “Um Estudo em Vermelho”, no qual conhecemos não apenas o personagem principal, mas seu fiel companheiro de aventuras, o Dr. John Watson.

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Concebido pelo médico escocês (e até então escritor nas horas vagas) Arthur Conan Doyle, Holmes foi uma verdadeira inovação para a literatura criminal ao resolver casos aparentemente insolúveis por meio da dedução lógica e do método científico. Além do seu envolvimento com drogas, sua personalidade arrogante e sempre pertinente ajudou a fazer dele um personagem memorável.

Presente em aproximadamente 60 histórias escritas por Conan Doyle, não era de se espantar que o personagem ganhasse sua cota de adaptações. Sua primeira versão cinematográfica foi lançada em 1939 e a obra continua sendo adaptada para as telonas até hoje. Na tevê não poderia ser diferente. Nos últimos sessenta anos, Holmes já ganhou adaptações norte-americana, britânica, francesa e até russa. A mais recente é considerada uma das mais importantes produções britânicas da atualidade.

Capa original do romance "Um Estudo em Vermelho".

Capa original do romance “Um Estudo em Vermelho”.

Transmitida pelo canal BBC One, Sherlock estreou em 2010, com uma temporada de três episódios, cada um com duração de 90 min. Para quem é acostumado a assistir séries com temporadas maiores, a atração pode até parecer curta, entretanto é aconselhável olhar para a produção de Steven Moffat e Mark Gatiss com outros olhos. O formato de telefilme é o ideal para adaptar as histórias de Conan Doyle de forma justa, permitindo um melhor desenvolvimento da narrativa, sem cair na armadilha dos procedurals.

O show tem início no mesmo ponto dos livros: com o caso de “Um Estudo em Vermelho”, que vira “A Study in Pink” (1×01) na versão televisiva. O episódio mostra de forma muito fiel ao original o primeiro encontro de Sherlock e Watson, interpretados por Benedict Cumberbatch e Martin Freeman, respectivamente, quando passam a dividir o apartamento mais famoso da Baker Street.

As adaptações são necessárias, e aqui foram muito bem vindas. Enquanto no livro a vítima deitada no chão onde tem escrito rache é um homem, na série se trata de uma mulher. O significado da palavra em questão é diferente em ambos os casos. No livro, rache é alemão para “vingança”. Na série, isso vira um recurso narrativo, além de uma bela referência ao livro.Enquanto Sherlock conclui que a vítima apenas tentava escrever seu próprio nome, Rachel. A produção dá um grande passo para o enredo ainda no episódio inicial, apresentando Mycroft, o irmão de Sherlock, e Moriarty, o grande vilão da série – que não existem no romance adaptado.

Os episódios restantes do primeiro ano adaptam contos como “Os Dançarinos” e “O Vale do Terror”, além de fazer referência a várias outras histórias, que ganham adaptação nas temporadas seguintes como “O Signo dos Quatro” e “Um Escândalo na Boemia” – quando somos apresentados a Irene Adler, personagem tão importante que volta a ser referenciada em outras histórias.

Poster do filme "O Cão dos Baskervilles", de 1939.

Poster do filme “O Cão dos Baskervilles”, de 1939.

“O Cão dos Baskervilles”, um dos livros mais conhecidos do detetive – e certamente o favorito da maioria dos fãs, ganha sua versão televisiva na segunda temporada. O episódio The Hounds of Baskerville (2×02) já começa homenageando a primeira versão cinematográfica da obra de Conan Doyle (com o icônico Basil Rathbone no papel de Holmes) em sua abertura, além de fazer várias referências ao cinema de terror gótico feito pelos estúdios Universal e Hammer entre os anos 1930-70. O episódio antecedeu The Reinchenbach Fall (2×03), que marcou o fim da temporada, inspirado na história “O Problema Final”. Apesar de o episódio fazer referência clara ao local de morte de Sherlock e Moriarty no conto, em que eles caem nas cataratas de Reinchenbach na Suíça, a série não vai pelo mesmo caminho e mata os personagens em uma área urbana e movimentada de Londres.

O curioso é que os dois títulos, apesar de seguirem a mesma cronologia da série, foram lançados em ordem diferente. O conto “O Problema Final” foi lançado em 1893, enquanto “O Cão” foi publicado apenas oito anos depois. Sir Arthut Conan Doyle não esperava que o sucesso da sua criação mais famosa o obrigaria a “ressuscitar” seu personagem, usando a desculpa de que o caso dos Baskerville teria acontecido antes da fatalidade.

Apesar de todas as mudanças, e vale dizer, necessárias ao enredo, a série sempre foi muito fiel à essência do personagem. Quem já leu os livros certamente reconhece a importância de uma boa adaptação, seja entre as mídias, que convenhamos, são completamente distintas, seja pelo contexto histórico. O enorme conhecimento dos roteiristas Steven Moffat e Mark Gatiss sobre o assunto permite que a versão da BBC costure várias histórias em um só episódio, além de conseguir usar elementos do mesmo conto em vários telefilmes.

Só de pensar que os produtores já garantiram que as próximas duas temporadas estão planejadas dá até uma ansiedade para saber quais serão os contos adaptados. Enquanto a nova temporada não chega, podemos recorrer aos livros. Sempre existem os livros!

*Texto originalmente publicado no dia 02/06/2014.

Equipe Mix

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21 comments

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    Douglas Couto 2 junho, 2014 at 14:55 Responder

    Sherlock da BBC é um amontoado de referências as várias coisas já feitas de Sherlock, seja dos livros ou até dos filmes, isso é muito legal. No 2×3 até aparece no inicio a imagem de um quadro com a cachoeira. Sem falar que mesmo todo episódio representando um conto isso não impede que sejam feitas várias referências a outros contos no mesmo episódio. Muita gente reclama do tempo (provavelmente pessoas de outros planetas que nunca viram filmes) mas seria impossível fazer um piloto magnifico daquele em apenas 40min o 2×3 e 3×3 então nem se fala.

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      Rubens Rodrigues 20 junho, 2014 at 10:09 Responder

      Isso tudo é que faz Sherlock ser o que é. As referências, o formato de “telefilme”… não fosse isso, provavelmente teríamos um procedural qualquer.

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    Karla 2 junho, 2014 at 16:09 Responder

    Sou suspeita pra falar de Sherlock pq é a série da minha vida <3
    O que Mark e Moffat fazem com a série é simplesmente sensacional, fora as atuações impecáveis de Benedict, Martin e do Andrew Scott.
    Parabéns Rubens, excelente texto!

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      Rubens Rodrigues 8 junho, 2014 at 20:11 Responder

      Karla, taí um time que nós não podemos reclamar. Os atores, os roteiristas… é tudo muito acertado. 🙂

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    Alice Whitlock 3 junho, 2014 at 22:26 Responder

    Amei seu texto, mas tenho que comentar que até hoje não entendi essa moça na capa de o Cão dos Baskerville, eheheh

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      Rubens Rodrigues 20 junho, 2014 at 10:19 Responder

      Ela até existe no livro, mas no filme ela ganha certo protagonismo para se adequar aos “padrões” românticos que era moda entre as películas na época. Sabe como é, toda adaptação tem aquelas “pequenas” mudanças.

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    Aline Rodrigues Alencar 4 junho, 2014 at 00:46 Responder

    A série é excepcional e o seu texto vai na mesma vibe. Parabéns! E continue escrevendo sobre Sherlock, por favor. 😉

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      Rubens Rodrigues 5 junho, 2014 at 09:33 Responder

      Obigado, Aline. A ideia é justamente retomar Sherlock em um texto futuro, já que não deu para falar de muitos contos/episódios neste. 😉

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