Dez anos depois, nova “greve dos roteiristas” ameaça o futuro de várias séries de TV

Imagem: amariasoueu/Reprodução

Em novembro de 2007 o Sindicato dos Roteiristas de Hollywood deu início a uma greve histórica na indústria do entretenimento. Para àqueles que já acompanhavam televisão, lembram que em 2008 não tivemos Globo de Ouro em razão da paralisação e, consequentemente, uma série de programas foram afetados como The New Adventures of Old Christine, Scrubs, Desperate Housewives, The Big Bang Theory, entre tantos outros.

À época, o movimento foi até fevereiro de 2008, onde o sindicato chegou a um acordo com a Alliance of Motion Picture and Television Producers (ou simplesmente AMPTP), organização que representa 397 produtores de televisão e cinema dos Estados Unidos. Como resultado, diversas séries tiveram suas temporadas encurtadas, um hiatus maior se estabeleceu, e a televisão ficou meses sem a elaboração de episódios inéditos.

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Dez anos depois do início dessa primeira greve, o Sindicato pode parar novamente em razão da diminuição de salários, plano de saúde e entre tantos outros motivos. “Nós sempre estaremos prontos para uma greve,” disse um roteirista de televisão em condição de anonimato em meados de fevereiro. “A Televisão está em uma nova ‘Era Dourada’ e as empresas estão registrando arrecadações recorde, mas os roteiristas não estão recebendo nada disso. Nossa receita está em queda, então será uma negociação muito difícil,” completou. Como observa-se, a reivindicação básica é o reajuste de salário, mas não é a única.

Segundo um relatório divulgado pelo Sindicato em 2016, roteiristas ganharam menos em 2015 (326.1 milhões de dólares) do que em 1996 (364.4 milhões de dólares). Ajustando os valores para a inflação, coletivamente, eles ganharam um terço a menos em 2015 do que o arrecadado em 1996. Quanto aos profissionais da televisão, todos receberam um total de 803 milhões de dólares sob o contrato básico, o que dá uma média de apenas 194 mil dólares por ano.

Plano de saúde, que atualmente é um debate nacional com a busca incessante dos republicanos em derrubar o Obamacare ao invés de fazer ajustes, é um dos pilares das negociações deste ano. O problema é tão grande que, se não for feito nada e deixarem a situação como está, em três anos os roteiristas sindicalizados ficarão sem cobertura, visto que o sistema ficará insolvente.

Para salvar o plano deficitário pelos últimos quatro anos, as negociações terão que seguir três caminhos: 1) Aumentar a contribuição por empregado 2) cortar benefícios 3) aumentar o valor mínimo que os roteiristas têm que contribuir para qualificarem para o atual plano.

Caso não consigam chegar num consenso até dia 1º de maio, que é quando o contrato vigente expira, é provável que o Sindicato peça permissão aos seus membros para declarar estado de greve.

Outras propostas incluem:

  • Aumento da compensação mínima em todas as áreas.
  • Aumentos residuais para reutilização de empregados sub-remunerados de mercados.
  • Expansão de contrato para funcionários de novas mídias.
  • Aumento de contribuições para o Fundo de Pensão do Sindicato.
  • Fortalecimento da economia e garantia de proteção no local de trabalho para os roteiristas de televisão, e aqueles de novas mídias, que estejam empregados e que sejam compensados de episódio por base.
  • Maior regulamentação das cláusulas de exclusividade nos contratos de televisão e de novas mídias, garantindo outras opções.
  • Acabar com as desigualdades em compensação de escrever em equipes contratadas sob termo de negócios para a televisão e séries de novas mídias.
  • Licença maternidade remunerada para roteiristas empregados sob os atuais contratos de televisão e séries de novas mídias.
  • Alterar definição de um roteirista profissional para incluir exclusivamente para novas mídias.
  • Aumento de financiamento para o programa de treinamento de Showrunner e o programa de auditoria do Tri-Guild.
  • Modificação e expansão de todos os painéis de árbitro.
  • Requisitos modificados para listas de trabalho e outras informações apresentadas pelas empresas.

Para efeitos de curiosidade, o atual contrato firmado no estado da Califórnia permite que os roteiristas escolham, repito, escolham entre licença maternidade remunerada ou proteção do emprego quando retornarem ao trabalho.

A grande pergunta que você se faz neste momento é, provavelmente, a seguinte: Caso eles declarem greve, o que é improvável que não aconteça, o que acontece com a minha série preferida?

Caso aconteça, a paralisação deve começar a partir do dia 1º de maio, mês onde as principais séries se encaminham para sua conclusão e retornam apenas em setembro. O problema é que o processo de concepção dos textos é feito durante toda a Summer Season para que os atores possam retornar ao trabalho em meados de julho ou início de agosto.

O pior dos casos é ver toda a Fall Season atrasada e até mesmo adiada apenas para a midseason de 2018. Os canais podem contratar profissionais que não estejam sindicalizados, como algumas emissoras fizeram em 2007/2008, mas tal solução seria cabível apenas como um “tapa buraco” e não como algo definitivo para cuidar dos roteiristas do início de uma temporada.

O cinema não encontrará grandes problemas caso a greve venha a acontecer. Todos os filmes agendados para o curto, médio e longo prazo, estão em fases de pré-produção, filmagens ou pós-produção, o que já conta com um roteiro pronto e encaminhado.

O Mix de Séries entrou em contato com o Sindicato dos Roteiristas de Hollywood com o intuito de esclarecer algumas dúvidas, mas até o fechamento desta matéria não obtivemos resposta.

Complicado enfrentarmos uma situação dessas, não? Já pensou, as séries atrasarem o seu retorno por conta dessa greve, como aconteceu em 2007? É ficarmos na torcida para que os roteiristas conquistem mais direitos e essa situação seja resolvida sem prejudicar nenhuma parte – incluindo nós, fãs de séries de TV!

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Bernardo Vieira

Catarinense e estudante de direito. Escrevo sobre entretenimento desde 2010, mas comecei com política internacional depois da campanha americana de 2016. Adoro uma premiação e um debate político, mas sempre estou lendo ou assistindo algo interessante. Quer saber mais? Me pague um café e vamos conversar.

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