Somos todos piratas?

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Na última semana a internet foi tomada pela notícia de que um grande site de filmes e séries online havia sido fechado. O Mega Filmes HD, um dos portais com o maior acervo da internet, foi derrubado pela operação Barba Negra, que é voltada para a luta contra a pirataria online. Estima-se que o site contava com cerca de 150 mil filmes e séries de TV, muitos deles disponibilizados na rede antes mesmo de serem lançados oficialmente.

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A mobilização em favor ao site foi imediata. Cinéfilos e seriadores, em união, postavam: Luto!, Salve o Mega Filmes HD e até mesmo Prey for Mega Filmes! Outros tantos questionavam se a prisão dos responsáveis pelo portal era realmente importante. Com tantos problemas sérios no país e com tantos políticos corruptos à solta e cometendo ainda mais crimes, é realmente imprescindível à segurança nacional que os gerenciadores de um site sejam presos?

Bem, eles não matavam ninguém, nem traficavam, nem roubavam milhões dos cofres públicos, mas o que faziam era, sim, crime. Muitos já começam errando ao comparar este caso com outros fatores. É lógico que muitos criminosos do colarinho branco merecem muito mais punição do que o simples casal que comandava um site de filmes online. Uma questão, porém, não anula a outra, e a pirataria, ainda que quase todos se furtem de suas benesses, é um crime.

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Imagine que você é um produtor de cinema, ou um diretor, ou então um showrunner de uma série de TV. Você passa anos desenvolvendo um projeto, investe dinheiro (não pouco, mas muito dinheiro), tempo, sangue, suor e lágrimas. Você luta para fazer e, depois, luta mais ainda para vender o projeto e preparar um marketing poderoso. Eis, então, quando lançado, seu belo projeto cai na internet e milhões e milhões de pessoas o assistem online, deixando de pagar o ingresso do cinema ou a compra do DVD/Blu-Ray ou cópia digital.

Pensemos em um exemplo ainda mais pessimista: todos estes milhões de pessoas não vão ao cinema e às lojas. O seu projeto – aquele que você investiu anos de vida e muito capital – fracassa na bilheteria ou na audiência. Afinal, por que uma pessoa vai sair de casa, comprar um ingresso e gastar com pipoca e refrigerante para assistir um filme que já viu? Por que alguém pararia na frente da TV, no horário estipulado pela emissora, para assistir um episódio que já está na Web, legendado e em alta definição?

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editorial2211

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A ideia aqui não é vomitar demagogia. A grande maioria das pessoas hoje em dia já baixou, baixa e vai baixar muito mais filmes e séries no futuro. Assistir online também, só apertando o play. Você, lendo este texto, deve estar semeando um episódio através do Torrent. Hoje à noite vai deitar e assistir um bom capítulo de sua série favorita. Tudo bem, todos fazem isso. O ponto é: não finja que pirataria não é crime só porque você se beneficia com ela. Seja crítico: fique chateado pelo site ter acabado, afinal todos lamentam; tenha a mente aberta para aceitar, contudo, que o que rolava no portal era muito errado. Tente entender a magnitude das coisas.

Vários perderam e ainda perdem muito dinheiro nessa brincadeira “inocente”. Muitos também perdem o emprego. E não pense que estou exagerando. Afinal, quantas videolocadoras fecharam no seu bairro nos últimos anos? Eu era frequentador assíduo destes locais e cheguei a trabalhar, por puro hobby, em uma videolocadora. Hoje, o prédio onde ela ficava ainda está lá, mas o negócio agora é outro, pois o mercado de vídeo estava tão quebrado que as portas da velha locadora tiveram que ser fechadas. Todos os que dependiam da renda gerada pelo estabelecimento tiveram de rever seus planos. Agora, para combater ainda mais a pirataria, estúdios de cinema pretendem colocar fiscais permanentes em salas de cinema a partir do ano que vem. Qualquer pessoa que filmar ou gravar áudios de dentro da sala de exibição pode ir preso em flagrante.

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Game of Thrones é a mais pirateada dentre as séries. São mais de 7 milhões de downloads.

É claro que temos que ver o lado bom das coisas. O Mega Filmes HD e muitos outros sites do mesmo formato costumam levar cultura para pessoas que talvez não teriam acesso a ela sem estes portais. Os filmes, muitas vezes relegados às grandes cidades e redes de cinema, podem atingir as famílias que moram no interior e muitas vezes não têm oportunidade de assistir o filme que deseja, seja por falta de grana ou porque o pequeno cinema local não exibe os últimos lançamentos. Durante muitos anos em minha cidade havia apenas um cinema com três pequenas salas. Lá só chegavam os grandes blockbusters e muitas vezes com atraso de um mês ou mais. Aquele título mais alternativo ou menos conhecido acaba de fora. Como eu veria? Como eu teria acesso àquele audiovisual? Esperando meses para alugar ou baixando pela internet em algumas semanas.

O mesmo acontece com séries de TV. Como o fã poderá assistir o último episódio do seriado que só é exibido nos Estados Unidos? Ele deverá esperar mais de um ano para assistir dublado em rede aberta nacional? O tema é delicado e rende argumentos de todos os lados, sejam eles favoráveis ou não. Toda essa operação, que ocorre de forma similar em escala global, acontece em grande parte para garantir os milhões de dólares nos bolsos dos grandes estúdios. Há de se pensar no real propósito de tudo: existe realmente a moral luta contra a pirataria e o respeito aos direitos autorais do artista ou tudo não passa de uma forma de continuar lucrando. Ao fim, os fornecedores sempre lucram, sejam os produtores de Hollywood ou os donos de sites (não se engane, o lucro deles é grande!), e você, no meio do fogo cruzado, só quer assistir seu filme ou série em paz.