Spin-offs, ou a hora e o lugar do Universo Expandido

Imagem: Arquivo Pessoal

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Esta com toda certeza é uma surpresa. Afinal, o leitor habitual dessas minhas traquinagens de domingo já está mais do que cansado de saber o quanto me oponho a falta de conclusão – ou a negação da finitude, se você preferir – da TV no que toca a certos constructos temáticos e formatos de apresentação. Então, o choque de se deparar com um texto que advoga pelo prolongamento de certas histórias é algo que faz necessária essa… um tanto tediosa introdução.

Mas a simples verdade dos fatos que, mesmo acomodada em sua saturação de repetições nem mesmo a indústria pode negar é que a TV é um lugar de plasticidade quase que ilimitada. O formato capitular pode até ter sofrido nos últimos anos, mas como David Lynch nos lembrou mais cedo neste ano, é na TV que as produções artísticas estão realmente em casa. E é nas palavras do diretor – e em um ou dois acréscimos a minha grade nesta Fall Season – que encontrei o sentido para este Editorial. Lynch justifica sua afirmação dizendo que atenção do público ainda está muito voltada para a narrativa, e é nesse ponto que meu argumento sobre os spin-offs entra.

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Apesar de todas as minhas já gastas críticas sobre a saturação da maneira com que a ficção vem sendo usada, seria uma ignorância absurda negar o potencial que o ato de “contar histórias” tem na TV. Seja dentro de uma única mídia ou criando uma verdadeira “dinastia” que se estenda por todos os formatos aclamados pela cultura pop, uma ideia pode ser ou criar tamanha complexidade que as fronteiras definidas para ela se reafirmam como nada mais do que o limite da própria imaginação.

É claro, tudo isso parece passar longe daquilo que o título do Editorial sugere. Mas a verdade é que falar sobre o spin-off – um constructo que, em teoria, surge/é derivado de uma estrutura maior e aborda mais detalhadamente um único aspecto (como um personagem ou uma história ou um momento específico dessa história) – é falar sobre o ato narrativo em sua totalidade, afinal é dele que tais mecanismos se originam.

A verdade é que a questão de “fazer ou não fazer” quando se trata desses “extras” é o que conta, porque toda sorte de fatores é associada ao sucesso ou fracasso de um spin-off. Exatamente como a adaptação, o spin-off é o lugar em que é possível, consideravelmente ainda mais possível do que no já largo espaço mimético da ficção.

Por ser derivada, a produção pode, serve e deve pelo menos tentar concertar aquilo que não está funcionando na série-mãe, seja removendo um personagem cuja história é muito densa e envolvente para se manter junto com a trama dos protagonistas já existentes – como aconteceu com a família Original em The Originals – ou acrescentando um espaço de criação e trânsito novo, contando histórias que não negam o original, mas que não poderiam existir plenamente no espaço de regras já pré-definidas nele – como Private Practice fez ao dar a Addison sua própria história de redenção. Simultaneamente, os spin-offs também vivem eternamente um conflito existencial, já precisam aceitar seu papel como parte de um “todo” narrativo maior sem deixar que esta conexão apague ou impeça a série de desenvolver uma identidade própria, criando tramas inteiramente suas, sem cair nos mesmos erros cometidos pela série-mãe.

Tome alguns exemplos práticos. The Originals é um exemplo de um spin-off que soube escolher exatamente o que retirar da série-mãe. A família de Vampiros Originais liderada pelo híbrido mais charmoso e vingativo a andar pela Terra tinha consigo mil anos de histórias, rancores e inimigos, e todo um sem-fim de novos desafios, tudo isso embalado na visceralidade sexy dos Vampiros da titia Plec. Infelizmente, The Originals está cometendo os mesmos erros de The Vampire Diaries, buscando sempre uma ameaça mais impossível, com mais urgência e mais invencibilidade… Assim como em TVD, a busca por um vilão que seja mais vilão do que o anterior é o que estragará The Originals.

Better Call Saul viaja na direção oposta, sem negar, mas também sem afirmar que está ligada à Breaking Bad, dando a Saul Goodman todo o espaço para ser quase exatamente aquilo que esperávamos dele. Private Practice fez jus à tudo aquilo que merecíamos viver junto com Addison, nos ensinando lições inesquecíveis e fazendo alguns de nós torcermos o nariz para essa Amélia que agora vemos em Grey’s Anatomy. Wonderland foi um erro tão grande que Once Upon a Time está agressivamente reutilizando a trama do País das Maravilhas na tentativa de apagar esse erro caricato do passado. Joey foi a prova de que até mesmo os clássicos precisam saber a hora de acabar. Já Class chega para sacudir o universo Whovian depois de várias tentativas com outros spin-offs que valiam a pena, mas que não captaram o espírito certo do que acrescentar a um universo tão gigante.

Mas deixando de lado todos os meus duvidosos “entretantos”, aquilo que fica é a inegável validade dos Universos Expandidos. Sim, eles são uma janela gigante para se cometer erros e dentro deles abominações foram feitas. E, claro, nem todo spin-off serve a um propósito narrativo, as vezes é só a indústria querendo encher os bolsos da indústria… entretenimento funciona assim e continuará a funcionar assim, e é ingenuidade negar isso. Mas é o valor que nós, a massa telespectadora, atribui a certas coisas que conta.

Não importa se eles servem para acrescentar aos personagens ou a história ou se, como George Lucas fez (até conseguirem pará-lo), sejam somente um testemunho de uma insistência em certos erros, os spin-offs são tanto sonho quanto pesadelo para o seriador. Franquias foram construídas e destruídas por eles, e se eles, que são a ponta do iceberg têm tanto poder, como negar a capacidade da ficção? Como negar que quando ela se faz senhora de si, quando esse poder indomado dobra aqueles que o usam ao invés de se dobrar para eles… Como não amar e temer o poder da narrativa?

Tags Editorial
Richard Gonçalves

Richard Gonçalves

Estudante de Letras, apaixonado por quadrinhos, música e cinema. Viciado em séries desde sempre. Fã de carteirinha de Doctor Who, House, Battlestar Galactica, Sherlock, 24 Horas, The Borgias, Penny Dreadful, E.R. e Lost. Aqui no Mix de Séries é editor de reviews, além de escrever as reviews de Marvel's Jessica Jones, Marvel's Agents of S.H.I.E.L.D. e The Originals.

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