Spoilers, porque sim!

Spoilers - Rikk

Eis aqui um começo problemático. Afinal, estou prestes a entregar a vocês um texto sobre spoilers sem fazer nenhum spoileroh irony, thou art is a heartless bitch. Entretanto, agora que a temporada de Game of Thrones, a série que faz todos aqueles que não podem estar colados na HBO às 22 horas temerem a internet e os amigos – quem não tem aquele bro que liga só para dar uns spoilers básicos não sabe o que é amizade… – chegou ao fim, acho que é hora de conversarmos um pouco sobre esta maçã de discórdia da nossa geração.

Odiado por muitos e mais alguns, mesmo que, vez ou outra, ninguém resista a eles ou consiga evitá-los, os spoilers são algo que, assim como a indústria do entretenimento, se reformulam, se desdobram, adquirindo novos propósitos, novas maneiras e todos os trejeitos possíveis. O antes nada inofensivo e relativamente simplório – já que, como o Oxford Dictionary define, spoil e spoiler tem uma ideia bem menos terrível (algo do tipo “dar informações sobre o desenrolar de um filme/livro” ou “tornar ruim algo bom” – gesto passou, com o avanço das mídias sociais, a ser tão temido como o inverno Westerosi.

Continua após a publicidade

seespoilers-rikkÉ claro que a esta altura você deve estar pensando se vou realmente fazer algum spoiler, e posso dizer logo: não. Embora eu discorde plenamente desse caráter negativo – não nego que o spoiler seja ruim, mas ele não é o demônio que fazem dele –, para falar sobre eles, não precisamos fazê-los. Esta é uma das coisas que quero discutir. Até que ponto o spoiler é realmente danoso? Afinal, nessa nossa geração construída em mimimis, sempre haverá alguém reclamando de algo, e os spoilers são o bode expiatório perfeito. Como não culpar a pessoa que diz a você algo que você não sabia sobre algo que você queria saber?

Entretanto, ninguém pode se dizer isento desta culpa. Quem está hoje reclamando deste ou daquele spoiler provavelmente já esteve do lado de lá da coisa. E nem precisa ser um spoiler atual. Eu, por exemplo, que não me incomodo com spoilers mas evito fazê-los, já entreguei o final de um livro bem antigo – “Cartas na Mesa” (1936), Agatha Christe – para uma ex amiga minha, que não fala comigo até hoje por causa disso.

Assim como as próprias histórias a quem eles se referem, os spoilers podem ser usados para expropriar, para desmistificar, e se tornam os vilões por isso. Mas, pelo menos por hoje (voltarei para falar deles em breve), não falemos em vilões. Contar as histórias, sejam partes delas, até mesmo as partes dela que tiram de você parte do prazer do desconhecido, é o que realmente importa. Quem nunca precisou de um pouco de convencimento, que as vezes, chega na forma de um spoiler amigável, para decidir assistir/ler/jogar este ou aquele material?

Gente para reclamar sempre vai existir. Há mais paradoxos e reclamações nesta nossa internet do que supunha a vã filosofia do dramaturgo. E assim como há gente para reclamar, há e não há motivos para isso. É preciso sim respeitar o tempo e o espaço de cada um e seu direito de saber ou não saber. Mas é preciso também saber aceitar que certas coisas, embora não deixem de ser spoilers, não são motivo para se declarar uma guerra aberta a tudo e todos internet a fora.

Cl66jDPWEAASWPVNo fim do dia, o julgamento é o que conta. Mesmo defendendo que cada obra é idealizada para ser descoberta por quem interage com ela, e isso significa, em muito, entregar-se ao desconhecido que é proposto por essa obra, não posso dizer – e estou disposto a ser provado errado – que toda a obra se perca, que se torne impossível, ou que a catarse experienciada por cada um no processo. Que importa se você tenha descoberto antes de assistir o que Cersei fez no domingo passado? Que importa que alguém tenha revelado o destino de Han Solo antes que você chegasse ao cinema? Qual a diferença saber a verdade no fim d’O Sexto Sentido? E mesmo que seja divertido sentar e ver a treta à la Cersei, alguma dessas obras perdeu realmente a sua magnitude porque você já sabia?

Então, antes de atirar a primeira pedra naquele que faz ou deixa de fazer o spoiler, pense no quanto da sua experiência realmente se perdeu. O quanto esta ou aquela revelação realmente te espoliou – não pude resistir. Estamos numa era de exageros, e os spoilers nunca desceram deste barco onde se faz muito barulho por nada. É preciso aceitar que eles chegaram para ficar, e que os avisos sobre eles não são suficientes.

Afinal, até mesmo com os muitos filtros que já dominam as redes sociais ou com o humor de Siri – que tem feito trocadilhos infames enquanto se recusa a revelar os pais de Jon Snow – um spoiler alert não tem o poder que deveria. Quando cruzam com eles, os menos extremistas leem sem problemas, os meios-termos tentam não ligar e os mais chatinhos vão sempre reclamar, tendo lido ou não. A internet assim como – e por causa deles – os spoilers, serão sempre um reino de confusão.

Sendo assim, chega de pensar nesta ou naquela forma de contornar, demonizar ou sanar o problema. Vamos abraçar os spoilers, porque há muito fomos vencidos por eles. Isto não significa que cada um deve sair por aí gritando revelações bombásticas de tudo o que se consome, mas também não significa de que devemos repudiar, como crianças mimadas em meio a um chilique, esbravejar e espernear porque alguém disse alguma coisa. Em tempos tão confusos, vamos optar por aceitar… não sem problematizar, mas aceitar mesmo assim. Fará a nossa vida como seriadores, cinéfilos, leitores, gamers e Nerds como um todo muito mais fácil.

Richard Gonçalves

Richard Gonçalves

Estudante de Letras, apaixonado por quadrinhos, música e cinema. Viciado em séries desde sempre. Fã de carteirinha de Doctor Who, House, Battlestar Galactica, Sherlock, 24 Horas, The Borgias, Penny Dreadful, E.R. e Lost. Aqui no Mix de Séries é editor de reviews, além de escrever as reviews de Marvel's Jessica Jones, Marvel's Agents of S.H.I.E.L.D. e The Originals.

2 comments

Add yours

Post a new comment