Stranger Things – 1×08 – Chapter Eight: The Upside Down [SEASON FINALE]

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Imagem: Arquivo pessoal

Chegamos ao fim de Stranger Things. É cedo para afirmar que esta é uma das melhores séries originais da Netflix? Ali, do ladinho de House of Cards? Talvez não. O fato é que senti algo muito único e bom assistindo ao projeto dos irmãos Duffer: sentia que presenciava algo marcante, daqueles que ficam timbrados na história. Para citar um exemplo: quando assisti O Regresso, filme que deu o Oscar a Leonardo DiCaprio, eu sabia, de uma forma ou outra, que aquele seria um de meus filmes favoritos dali em diante. E eu estava certo. O longa de Alejandro Iñárritu está agora ao lado de tantas outras obras que admiro e levo comigo, revendo sempre que possível. Com Stranger Things, a sensação é semelhante. Poucas vezes tive a vontade de rever toda uma temporada novamente assim que a terminei. O último capítulo chegou ao fim e o impulso foi colocar o primeiro para rodar de novo e ver tudo, do início ao fim.

Stranger Things fez algo que a crítica adora comentar quando algo dá certo: ela apertou todas as teclas corretas. Cada referência, cada clichê, cada abordagem serviu para completar uma história concisa e envolvente. O grande barato é que o show faz sucesso entre os seriadores veteranos e entre os espectadores casuais. Isso porque ST é jogo rápido e não enrola o público. São oito episódio com início, meio e fim. Um dos maiores acertos é ter feito um arco completo, e não uma introdução para algo maior. A primeira temporada não é antecipação, não é treino, é jogo de verdade, trama rolando, personagens crescendo. Quem não quiser acompanhar o programa daqui em diante, não precisa ficar encucado, pois os roteiristas amarraram o principal em um capítulo final impecável. Algumas pontas ficaram, o suficiente para aguçar a curiosidade, mas a história em si foi fechada.

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The Upside Down foi tudo que uma season finale deve ser: dinâmica e emocionante. Todo o capítulo serve como um longo clímax. Stranger não é daquelas que engana por meia hora apenas para sacudir as coisas nos últimos dez minutos. Na finale, os Duffer conseguem, como roteiristas e diretores, trabalhar aquilo que melhor souberam fazer neste primeiro ano, que é a manutenção de diversos personagens e tramas sem deixar ninguém apagado e nenhuma ideia de lado. Assim como na maioria da temporada, no fim temos três grandes núcleos: as crianças, os adolescentes e os adultos, cada um caminhando de um jeito, agregando informações e sequências vitais para o quadro geral.

Assim, a graça do capítulo não fica apenas com os adultos, que adentram a outra dimensão. As crianças também participam de cenas incríveis tentando fugir do Homem Mal de Cabelos Brancos, bem como os adolescentes, que encaram uma criatura de frente, utilizando armadilhas caseiras, em outra grande referência aos anos 80. Mas vamos por partes, começando por Nancy, Jonathan e Stevie. Os jovens decidem colocar sua teoria em prática e derramam um pouco de sangue para chamar atenção da criatura. A ideia dá certo, e logo o monstro humanoide já surge na casa de Joyce. A sequência é muito bem feita, e embora peque por mostrar muito pouco (as luzes piscam o tempo todo), merece um desconto por um motivo simples: verba. Trabalhar com efeitos visuais e maquiagem é muito complicado, e para evitar resultados duvidosos, os diretores optaram por manter tudo na penumbra, evitando a artificialidade da criatura.

O que nos leva ao núcleo das crianças. Algumas cenas envolvendo os pequenos e outra criatura simplesmente não funcionam em termos de efeitos visuais. O momento em que o monstro rompe a parede e pula na sala onde se encontram Eleven e sua trupe é um tanto vergonhoso, passando a sensação de que a cena não fora finalizada a tempo. Ainda assim, é um pecado muito pequeno se levarmos em conta que a tal criatura funciona na maior parte do tempo. Tirando isso, os momentos dos garotos são insanos! Lucas usando um estilingue para acertar a criatura enquanto usa uma bandana na cabeça é tão oitentista que chega a doer. E estes atores mirins são realmente fantásticos. Já comentei que meu favorito é Dustin, mas Mike e Lucas também são excelentes. Além, claro, de Eleven, que protagoniza uma das cenas mais emocionantes da finale, se sacrificando pelos colegas.

E embora Stranger Things seja sobre as crianças, não posso ignorar o fato de que a principal parte deste encerramento pertenceu aos adultos. Finalmente visitamos Upside Down, e o visual do lugar, meio Silent Hill, é incrível. Mas o que é Upside Down. Em uma entrevista, os irmãos Duffer disseram que escreveram um documento detalhado com mais de trinta páginas apenas sobre a dimensão. O que ela é, de onde veio, quem habita, quais os detalhes? Tudo está nesse documento criado pelos Duffer. As teorias são várias: para começar, podemos perceber que Upside Down parece uma Terra pós-apocalíptica. Temos carros, casas e prédios abandonados, além de ruas desertas. É um mundo como o nosso, mas mergulhado em escuridão e sem vida alguma. A primeira coisa que pensei é que aquele é um universo alternativo e que humanos, assim como nós, ou talvez versões de nós mesmos, habitavam aquela dimensão. Com a chegada das criaturas, todos foram mortos. Assim, seria ilógico pensar que os monstros são, no fim, alienígenas?

Ora, Upside Down é exatamente como o nosso mundo. Há carros, prédios, tudo. Mas parece que os humanos ou fugiram ou foram aniquilados. Não é absurdo pensar que as criaturas vieram de outro planeta e tomaram conta daquele universo. Ou melhor: os monstros são seres que viajam entre diversas dimensões, conquistando uma a uma conforme necessitam. Posso estar muito longe das respostas, mas são teorias interessantes que merecem ser pensadas. Algo que indica toda essa piração é o fato de que os seres monstruosos de Upside Down parecem se alimentar de humanos. Ok, isso é óbvio, visto que eles são atraídos por sangue e matam sempre que podem. A questão é que Will, quando encontrado, parece estar servindo de fonte de energia para os monstrengos. Mais uma pista para a ideia de que eles vão de dimensão a dimensão se alimentando dos habitantes e se fortalecendo.

Mas ainda é cedo e temos pouquíssimas coisas para conjecturar. O que vale é que os momentos em Upside Down foram ótimos. E não faltaram referências a Alien – O Oitavo Passageiro, seja o ovo encontrado por Joyce e Hopper ou a criatura-sonda dentro de Will. O melhor de tudo talvez não seja o reencontro, mas sim os flashbacks envolvendo Hopper e sua família. David Harbour protagonizou os momentos mais emocionantes do episódios, e volto a afirmar: Harbour é um grande ator. Subestimado no cinema e na TV, o sujeito agora tem a chance de brilhar. E ele não decepciona. Seu passado triste é de partir o coração, e o paralelo estabelecido entre Will e sua filha é lindo. Hopper tentando reanimar Will enquanto vemos cenas de sua filha no hospital é o típico momento impactante que Lost tanto soube explorar: sequências distintas colocadas lado a lado e se completando.

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Imagem: Arquivo pessoal

Como uma boa saga, Stranger Things não termina sem amarrar tudo direitinho. Ou pelo menos deixar algumas pontas claras. Temos um desfecho para Jonathan e Nancy, que acaba com Stevie. Mike, Dustin, Lucas e Will voltam a dedicar horas ao RPG. Joyce, Jonathan e Will parece uma família feliz novamente e tudo vai bem. Duas pontas, contudo, deixam o público de cabelos em pé: primeiro, Eleven parece estar viva. Pelo que Hopper deixa naquela caixa no meio da floresta, a menina sobreviveu, mas está escondida. Como ela está, é impossível saber, mas os Duffer não mataria uma das melhores personagens. O outro gancho é Will vomitando aquela espécie de lesma. Novamente enveredando pela veia de Stephen King, os roteiristas sugerem que, agora, Will está suscetível às dimensões, e pode viajar entre elas sem querer (veja o momento em que o banheiro da casa dele parece se tornar parte de Upside Down). Além disso, o que a tal “lesma” significa? Além de estar fisicamente infectado, Will estaria psicologicamente alterado?

É o suficiente para me fazer sofrer até a segunda temporada. Stranger Things, seja bem-vinda. Você está agora ao lado das grandes e será muito aguardada até seu retorno. Muito obrigado. Obrigado Duffers, Netflix e todo o elenco. Vocês fizeram 2016 um ano melhor para a televisão.

Coisas Estranhas 1: A cena dos garotos entrando no quarto do hospital para ver Will lembrou muito a cena de O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei, quando os hobbits entram no quarto para ver Frodo, que acabara de acordar depois de voltar de sua jornada.

Coisas Estranhas 2: Lindo o momento do primeiro beijo de Mike e Eleven. Histórias de crescimento sem um primeiro amor não estão completas.

Coisas Estranhas 3: Sou fã declarado de Stephen King. É só você procurar outros textos que escrevi e ver como adoro o autor e suas obras. Assim, não precisou muito para Stranger Things me fisgar. E parece que o mestre também foi conquistado. Dá uma olhada nesse tweet do “Rei”:

Coisas Estranhas 4: Como sempre, aqui vai a “Música do Episódio/review“. Trata-se de When It’s Cold I’d Like to Die – Moby:

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=9zZfBBp-j6I[/youtube]

Coisas Estranhas 5: Muito obrigado a você que acompanhou as reviews aqui do Mix. Espero você na próxima temporada.

Matheus Pereira

Matheus Pereira

Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.

2 comments

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  1. Avatar
    Paula Reis 6 novembro, 2016 at 03:06 Responder

    Ameeiii a série e adorei suas reviews com referências, Matheus… Agora li com mais calma e percebi a complexidade de tudo. Acho que sobre Will, agora ele pode ir para outra dimensão não sem querer, mas quando entra em contato com a água. Não sei se tem a ver, mas ele estava com a torneira aberta no momento que foi para o mundo invertido. Enfim, só são palpites… Não vejo a hora de ver a segunda temporada e Eleven de novo (melhor personagem)!

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