Desde que estreou no Hulu, The Handmaid’s Tale conquistou uma legião de fãs ao retratar um futuro distópico aterrorizante e ao mesmo tempo inquietantemente plausível. Baseada no romance de 1985 escrito por Margaret Atwood, a série mergulha no regime totalitário de Gilead, onde as mulheres são privadas de praticamente todos os seus direitos.
Apesar da premissa poderosa e das atuações intensas, nem tudo no enredo faz tanto sentido assim — e algumas falhas deixaram o público questionando a lógica da narrativa.
A dependência de Gilead das mulheres ignora as necessidades básicas delas
Gilead é uma sociedade inteiramente construída sobre o controle e a exploração do corpo feminino, especialmente no que diz respeito à fertilidade. As mulheres são vistas como instrumentos para a reprodução, mas, paradoxalmente, suas necessidades médicas são frequentemente ignoradas.
Um exemplo emblemático é o da personagem Emily, que antes da ascensão do regime usava óculos — mas em Gilead, simplesmente não tem acesso a eles. Como é possível que uma sociedade tão dependente da capacidade das mulheres de procriar negligencie problemas de saúde tão simples? Essa contradição escancara uma falha narrativa que compromete a verossimilhança do mundo construído pela série.
O silenciamento das aias e suas implicações absurdas

Um dos momentos mais perturbadores da série acontece quando June conhece uma aia com a boca fechada por três anéis de metal, impedindo-a de falar. A ideia, evidentemente, é punir e controlar. No entanto, essa abordagem esbarra numa incoerência gritante: como se espera que uma mulher mantenha um corpo saudável e esteja apta para a gestação se sequer pode se alimentar adequadamente?
Esse tipo de punição extrema não apenas desafia a lógica interna do regime como também enfraquece a narrativa ao exagerar em símbolos de opressão sem considerar suas implicações práticas.
Serena Joy: impunidade que desafia qualquer lógica
Serena Joy Waterford é, sem dúvida, uma das personagens mais controversas da série. Cúmplice direta na criação de Gilead, ela também se torna vítima do sistema que ajudou a erguer. Contudo, o que mais incomoda os fãs é o fato de que Serena raramente enfrenta consequências reais por suas ações.
Mesmo após inúmeros atos de crueldade e manipulação, ela continua escapando ilesa — algo que não parece compatível com a lógica rígida e punitiva de Gilead. Sua posição de poder não deveria ser suficiente para blindá-la por tanto tempo, especialmente em um regime tão brutal e arbitrário.
A improvável amizade entre June e Serena
Ainda mais difícil de engolir é a relação que se desenvolve entre June e Serena ao longo das últimas temporadas. Inicialmente rivais e inimigas declaradas, as duas acabam formando uma espécie de aliança em nome da proteção do bebê de Serena.
A reviravolta dramática chega ao ponto em que June tenta proteger Serena de uma multidão enfurecida. Para muitos espectadores, essa tentativa de redenção para Serena soa forçada e injustificável, levando a narrativa para um caminho que parece trair a essência da personagem e das experiências traumáticas pelas quais June passou.
June, a aia que desafia as regras sem punição

Por fim, talvez o maior buraco na trama esteja no tratamento diferenciado dado a June. Enquanto outras aias são brutalmente punidas por transgressões mínimas, June constantemente desafia as regras, incita rebeliões, ajuda fugitivas e encara os comandantes de frente — e ainda assim sobrevive.
O contraste com o destino das demais mulheres em Gilead é tão gritante que muitos fãs se perguntam como ela ainda está viva. Essa discrepância compromete a consistência do roteiro e dá a entender que há uma “proteção de protagonista” que enfraquece o realismo da série.
Entre acertos e deslizes, uma distopia que ainda provoca reflexão
Mesmo com essas falhas e inconsistências, The Handmaid’s Tale continua sendo uma obra poderosa, que levanta discussões importantes sobre poder, controle, gênero e resistência. No entanto, quando a lógica interna de um universo distópico se rompe em nome de conveniências narrativas, é natural que o público questione.
A expectativa agora é que a série consiga se despedir com coerência, respeitando tanto sua base original quanto os espectadores que a acompanharam ao longo de tantas temporadas.