A tão aguardada estreia da 2ª temporada de The Last of Us finalmente chegou à HBO, e o episódio “Future Days” já mostra a que veio: preparar o terreno para o turbilhão emocional e narrativo que será esse novo capítulo da jornada de Ellie e Joel.
Com uma abordagem mais íntima e introspectiva do que a da estreia da temporada anterior, o episódio aposta no drama pessoal, mas levanta questões que merecem atenção.
Um retorno mais calmo – e mais tenso
Diferente da adrenalina que marcou o início da 1ª temporada, a nova estreia é propositalmente mais lenta. A ação dá lugar à melancolia, à distância emocional e às rachaduras cada vez mais visíveis entre Joel (Pedro Pascal) e Ellie (Bella Ramsey). Os dois vivem agora em Jackson, Wyoming, uma comunidade em expansão onde finalmente há respiro e estrutura. Mas o que poderia ser um momento de paz revela-se um espaço onde os traumas e segredos do passado voltam à tona.
Joel, por exemplo, está tentando lidar com a culpa e o luto — e também com a mentira que contou no final da primeira temporada. Ele até procura ajuda profissional, numa das cenas mais inesperadas: sessões com a terapeuta Gail (vivida por Catherine O’Hara, em uma escalação que pode dividir opiniões). Já Ellie, com sua postura cada vez mais rebelde e ressentida, parece estar à beira de uma transformação — mas a forma como essa fase da personagem está sendo construída na série ainda gera estranhamento.


Ellie: o ponto mais controverso em The Last of Us
Bella Ramsey continua entregando atuações intensas em The Last of Us, mas o tom escolhido para Ellie — especialmente no roteiro — ainda incomoda parte dos fãs do jogo. A personagem está mais hostil, mais impulsiva, e ainda parece emocionalmente imatura para quem já deveria estar cinco anos mais velha.
A caracterização segue sendo um ponto delicado: apesar da atriz ter 21 anos, sua aparência mais jovem e a forma como a personagem é escrita tornam difícil acreditar que ela já está no estágio emocional e físico exigido para o arco de vingança que está por vir.
A comparação com a versão do jogo é inevitável. Lá, Ellie já mostrava uma transformação silenciosa, uma maturidade melancólica. Na série, essa virada parece ainda distante — o que pode ter sido uma escolha consciente dos criadores, mas que, por ora, soa destoante.
Mudanças, ausências e boas adições
Alguns fãs sentiram falta de momentos marcantes do jogo em The Last of Us, como a cena em que Joel entrega o violão para Ellie e canta “Future Days”. A ausência dessa sequência logo no começo — essencial para estabelecer o vínculo entre os dois antes da tragédia — é sentida. Por outro lado, o episódio acerta ao apresentar novos personagens como Dina (Isabela Merced), mesmo que sua química com Ellie ainda careça de naturalidade, e Abby (Kaitlyn Dever), que surge implacável e cheia de mistério.
Apesar das críticas quanto ao visual “limpo demais” do grupo de Abby e à maneira como algumas cenas soam artificiais (incluindo a reação desproporcional de Joel num conflito com um civil), a direção continua tecnicamente impecável, com tomadas inspiradas nos jogos e uma ambientação que mantém o clima opressivo e brutal do universo pós-apocalíptico.
Estreia de The Last of Us 2ª temporada trouxe um episódio que planta sementes… mas ainda não floresce
“Future Days” é uma estreia que entrega emoção contida e promessas de dor. O roteiro começa a construir a tensão inevitável que dominará a temporada: a jornada de vingança que moldará os personagens para sempre. Mas ao mesmo tempo, a série ainda parece indecisa sobre como equilibrar fidelidade ao jogo e liberdade criativa.
A boa notícia é que Craig Mazin e Neil Druckmann já provaram na 1ª temporada que sabem arriscar com elegância — vide o belíssimo episódio “Long, Long Time”. Se souberem usar essas mudanças para aprofundar os conflitos e não apenas para provocar rupturas gratuitas, The Last of Us pode continuar sendo uma das melhores adaptações de games da história da TV.
No entanto, é preciso ajustar o tom, especialmente com Ellie. Ainda há tempo para amadurecê-la e dar peso emocional ao que virá. Porque o que vem… não será fácil.
Veredito:
A 2ª temporada de The Last of Us estreia com uma base sólida, atuações fortes e belas imagens — mas deixa dúvidas sobre escolhas de caracterização e narrativa. É um começo denso, que prepara o terreno para um drama visceral, mas que precisa encontrar rapidamente seu equilíbrio entre o que foi e o que quer ser.