The Leftovers – 3×03 – Crazy Whitefella Thinking

Imagem: HBO
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“Eu quero um propósito”, Kevin Garvey Sr. em “Crazy Whitefella Thinking”.

Fazia algum tempo que não víamos o Senhor Garvey. Na primeira temporada, o personagem parecia estar constantemente caminhando rumo à loucura, assim como seu filho. Ele depois disse que sua próxima parada seria a Austrália. Bom, lá está ele agora; um novo local para colocar sua insanidade – ou seria convicção? – em prática. Desviando um pouco a atenção do elenco principal, The Leftovers vai para o outro lado do mundo para mostrar o ponto de vista de Kevin Garvey Sr.

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O 14 de Outubro – 15 na Austrália – tirou qualquer controle que os seres humanos achavam que tinham sobre as coisas. Um fenômeno inexplicável que veio para abalar as crenças da humanidade e tirar dela a ideia de poder; ninguém quer pensar que não tem poder sobre as coisas. Nesse âmbito, entra a história do Senhor Garvey. Num conjunto de sinais, que poderiam também ser interpretados como coincidências, o personagem se leva a acreditar que precisa cantar rituais aborígenes para impedir o mundo de acabar. Um exemplo da retomada do controle, e também um exemplo da vontade de propósito. Ao mesmo tempo que a ideia de cantar e dançar para salvar o mundo pareça absurda, ela também é tangível. Afinal, quem iria pensar que os desaparecimentos iriam acontecer antes deles acontecerem? Outro desastre poderia estar vindo no aniversário de sete anos da Partida Repentina e Kevin Garvey Sr. está se preparando.

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A procura de propósito e significado no mundo de The Leftoves é sempre interessante. Me preocupou o começo do episódio, quando parecia estar tentando jogar um monte de mistérios e tentando resolver alguns outros, mas fiquei aliviado que esse não foi um “episódio explicação”. No final das contas, a narrativa seguiu pelo caminho que The Leftovers sempre segue: personagens tentando achar significado na vida. Não estou reclamando, essa é a espinha da série afinal de contas.

Imagem: HBO

Apesar de não ter sido um “episódio explicação”, algumas dúvidas que estavam na nossa cabeça foram esclarecidas: Kevin foi para a Austrália porque as vozes – que só começaram a aparecer depois da Partida Repentina – mandaram ele ir para lá. Grace, líder das mulheres no final do episódio passado, achou Kevin, e junto com ele uma passagem do livro de Matt mencionando Kevin Jr. e sua habilidade de ir para o outro lado. A mulher então matou o Kevin australiano pensando ser o Kevin original porque queria se comunicar com suas filhas mortas no além.

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Esclarecida essas dúvidas, ainda permanece a constante apreensão de saber o que de fato vai acontecer no aniversário de sete anos do 14/10. Talvez nada. Talvez o fim do mundo. Talvez outro desaparecimento em massa. Ou talvez algo além disso. Mas a dúvida que deveria ficar é “O que vai acontecer DEPOIS do aniversário de sete anos da Partida Repentina?”. Se o mundo não acabar, se nada acontecer, o que as pessoas irão fazer? Seria o fim do mundo se todo mundo esperasse algo tão fortemente que se esse algo não chega o que se segue é simplesmente um vazio sem fim? Talvez não seja a hora de pensar nisso.

Falando um pouco sobre os aspectos técnicos… a fotografia desse capítulo foi vibrante, saturada e cheia de urgência, se encaixando bem com a história. Com várias cenas externas e ensolaradas, esse episódio foi “quente” (no quesito de cores rs). A trilha sonora não foi tão marcante como anteriormente, mas ainda assim estava lá. Nada da trilha original de Max Richter aqui, em “Crazy Whitefella Thinking”, as músicas são mais folclóricas e culturais. A construção dos sets também tiveram mais personalidade. Cada cenário parecia um lembrete da distância de onde a ação se desdobrou anteriormente.

Gostaria de fazer uma observação de um artifício que aprecio muito quando aparece em The Leftovers: personagens contando histórias. Nesse episódio tivemos Kevin Garvey Sr. contanto sobre o motivo de ter ido a Austrália e o porquê de estar cantando passagens aborígenes para salvar o mundo. Ele ainda falou um pouco sobre seu passado com o filho. Perto do final, Grace compartilhou suas memórias sobre o desaparecimento de sua família e falou de sua fé. Nesses momentos de diálogos longos, as falas dos personagens fluem, e no final parecem te deixar pensando sobre tudo. É como sentar diante de seu avô e ouvi-lo contar sobre algo que mudou a vida dele décadas atrás. São passagens que revelam várias coisas sobre as personagens e ao mesmo tempo não parecem extremamente explicativas. Falas carismáticas, cheias de peso e emoções.

Entretanto, mesmo com todas as suas ótimas qualidades, senti que o episódio dessa semana teve um pouco menos de gás que os anteriores. O ritmo parecia um pouco mais lento que o normal. Nada que estrague a experiência, lógico, mas ainda assim é notável.

Desviando a atenção para outros personagens e intercalando a narrativa da terceira temporada, “Crazy Whitefella Thinking” pega novamente a via da fé e do místico para mergulhar na cabeça de um homem em busca de propósito. Pela primeira vez, The Leftovers pareceu responder mais perguntas do que deixar, mas não abriu mão de seu lado misterioso. Agora é só esperar a chegada da família Garvey na Austrália e descobrir se Kevin é realmente um messias, ou se só estamos em mundo inexplicável.
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P.S.: A música de abertura desse episódio foi diferente do anterior. Algo que não sabia é que a abertura do segundo episódio pertence a sitcom Perfect Strangers, estrelada por Mark Linn-Baker, que em The Leftovers foi o único do elenco principal da série que não desapareceu. Ele liga para Nora para lhe falar sobre uma máquina que pode levar as pessoas para o “outro lado”, junto aos desaparecidos. O tema de abertura desse episódio foi Personal Jesus que fala sobre “tocar a fé” e “alguém para ouvir suas orações”. Um trecho da música diz o seguinte: “Sentindo-se desconhecido/ E você está sozinho/ Pele e osso/ Diante do telefone/ Erga o receptor/ Farei de você alguém que acredita”. Esse trecho lembra bastante um momento específico do episódio com Kevin em uma cabine telefônica.