The Leftovers – 3×06 – Certified

Imagem: HBO/ Divulgação

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E chegou a vez de Laurie…

Esse episódio apresentou quatro pessoas distintas seguindo para a morte por vontade própria, tornando possivelmente o capítulo mais denso e intrincado para se discutir. E potencialmente perigoso, preciso dizer. A série nunca foi uma explosão de alegria, e definitivamente não é um entretenimento despretensioso, mas em “Certified” as coisas vão muito além.

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Nas minhas resenhas, eu falo o tempo todo sobre emoções complexas, personagens quebrados, um mundo afogado na tristeza, etc e tal. Mas essa semana, eu REALMENTE quero dizer o quanto The Leftovers tem emoções complexas, personagens quebrados e um mundo afogado na tristeza. Tipo, realmente mesmo.

Começando pela menor participação: Matt. O padre é uma das quatro pessoas seguindo para a morte. Como revelado anteriormente, sua leucemia voltou e ele decide não procurar tratamento, ao invés disso aceita o destino. A participação de Matt é mínima e serve apenas para não deixar pontas soltas sobre o que teria acontecido a ele após o final do último episódio. Ele abdica do Evangelho de Kevin, no que pode ser interpretado como um abalo de fé, e decide passar seu tempo na Austrália com a irmã, Nora.

Enquanto isso, na fazenda de Grace, Kevin se prepara para morrer e ir para o “outro lado”. Kevin é a segunda pessoa caminhando para a morte. As escolhas e pressões que o personagem precisa passar são torturantes, e o fato de que Kevin Sr. o influencia para ir ao mundo dos mortos para tentar impedir o apocalipse coloca ainda mais peso em suas costas. Não falarei mais do que isso sobre Kevin nessa resenha específica, pois o episódio da semana que vem irá tratar justamente dele, e terei mais espaço para desenvolvê-lo.

Nora é a terceira pessoa seguindo para a morte, em tese. A personagem de Carrie Coon resolve perseguir as físicas à frente do grupo que manda pessoas para onde os desaparecidos foram, numa tentativa de achar o dispositivo “transportador”. Ela tem a ajuda de Matt e Laurie nessa tarefa.

Não acredito que Nora seja uma suicida, mas é inegável a vontade que ela tem em atravessar através da máquina para se juntar a família. A máquina pode ao mesmo tempo ser verídica ou uma farsa para extorsão; ou também, como disse na resenha de “G’day Melboune”, uma desculpa para incomodar as pessoas e impedi-las de seguirem em frente. Impossível saber, e talvez nunca venhamos a saber de fato.

Imagem: HBO/ Divulgação

Laurie diz para Nora em determinado momento do episódio que o luto de quem perdeu alguém para a Partida Repentina nunca termina. Ela não poderia estar mais correta. O luto se estende indefinitivamente, deixando somente uma casca oca. Nesse mundo, só é possível ter uma imitação de vida. Mas Nora parece querer desesperadamente uma salvação, e essa jornada para “atravessar” é a salvação dela. Se ela será cremada ou transportada, isso é o que menos importa.

A despedida da personagem, após rastrear o dispositivo, é emocionante. O momento em que ela diz adeus a Laurie e resolve seguir seu caminho é de cortar o coração. Apesar de algumas tribulações ao longo do episódio, um crescente respeito e companheirismo se criou entre as duas. Não existe amargura em nenhuma delas sobre o fato de terem se relacionado com o mesmo homem. Sororidade.

Seria o fim de Nora? Talvez sim, talvez não, mas ela definitivamente influenciou o aparente fim de Laurie. Laurie é a quarta pessoa seguindo para a morte.

Ela deve ser a personagem mais estável de The Leftovers. Sim, Laurie entrou em um culto, mas ainda assim, se manteve como a rocha de sanidade no programa. Não é a toa que Kevin ligou para ela quando teve um surto; ela é uma pessoa sem julgamentos e tenta ao máximo ajudar os outros. Mas nesse semana, com 60 minutos focados quase inteiramente na personagem, vimos que Laurie também tem problemas, ô se tem…

O episódio abriu com ela em seu consultório de psicologia dois anos após a Partida Repentina. Sua paciente é a mulher que vimos bem no comecinho da série, a que perde o bebê no 14/10. A mulher pede a ajuda de Laurie sobre o que fazer em seguida. Mas ela também não sabe. Quem é que sabe? A falta de propósito faz a personagem tentar o suicídio, e depois disso, se juntar aos Remanescentes Culpados.

Os roteiristas parecem ter uma ideia bastante clara do rumo de cada um; pequenos elementos acabam sendo fundamentais para futuras decisões. Por exemplo, quando Nora fala a Laurie como mergulhar seria uma forma elegante de suicídio, porque muitas coisas podem dar errado enquanto se está debaixo d’água e ninguém saberia que você se matou. Ao fim do episódio, Laurie decide fazer um mergulho, no que talvez tenha sido a sua última participação na série.

É interessante observar, também, como o cigarro parece ser um rito de passagem nesse episódio, quase como uma preparação para o fim; levando em conta que os Remanescentes Culpados fumavam em grande quantidade, pois acreditavam que o mundo já não existia mais e não era preciso se preocupar com coisas “banais” como família, posses e saúde. Aqui em Certified, o cigarro é como aquela respirada funda de coragem antes de tomar uma atitude drástica e definitiva. Laurie fuma com Kevin na varanda da casa de Grace enquanto cada um deles se prepara para tomar um caminho: ele, a morte voluntária para entrar em contato com os mortos, ela, o aparente suicídio.

Amy Brenneman merece muitos prêmios e elogios. Sua interpretação sincera de Laurie não deixou a desejar em nada, e olha que teve muitos momentos difíceis de por em tela. Laurie, assim como qualquer personagem nessa série, poderia cair facilmente no espectro de “pessoa triste”, mas a interpretação dos atores adiciona diversas camadas. Reforçados pelo roteiro, os personagens se tornam imbatíveis.

Foi um episódio triste, foi sim, não a típica tristeza, mas uma mais existencial, uma tristeza que parece vir do simples fato de existir, e de ter que lidar com as consequências disso. Uma tristeza de despedida também. De dizer adeus para uma das melhores séries dos últimos anos. De dizer adeus para personagens tão bem construídos que parecem mais humanos do que nós mesmos. Com mais dois episódios restantes, a trama de The Leftovers não está enrolada em uma emaranhado de mistérios, mas parece estar bem definida de seu fim. Encerramentos dignos foram dados nesse capítulo e o que resta agora são detalhes. O fim está próximo e eu não poderia estar mais triste.

P.S.: A música de abertura foi 1-800-Suicide, que fala sobre… suicídio!
P.S. 2: Jill e Tommy tiveram uma breve participação por voz ao ligarem para Laurie. Aparentemente eles não vão mais aparecer.

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