The Leftovers – 3×07 – The Most Powerful Man in the World (and His Identical Twin Brother)

Imagem: HBO/ Reprodução

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“É o sétimo aniversário da Partida Repentina e há uma expectativa pelo fim do mundo. Iremos atacar os russos, eles vão retaliar, e pronto. Vamos morrer queimados. Amanhã ninguém acorda decepcionado por nada ter acontecido. Damos a eles o que querem. E eles querem morrer.” Patti

Mencionei na resenha de “Crazy Whitefella Thinking” o seguinte: “A dúvida que deveria ficar é ‘O que vai acontecer DEPOIS do aniversário de sete anos da Partida Repentina?’ Se o mundo não acabar, se nada acontecer, o que as pessoas irão fazer? Seria o fim do mundo se todo mundo esperasse algo tão fortemente que se esse algo não chega o que se segue é simplesmente um vazio sem fim? Talvez não seja a hora de pensar nisso.”

Agora é a hora de pensar sobre isso.

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Muito pior do que deixar de existir de fato, deve ser esperar o momento que se vai deixar de existir e ele não chegar. Ok, você talvez pense “se eu esperasse o fim do mundo e ele não chegasse, eu iria ficar aliviado”, MAS, nesse mundo de The Leftovers, um evento inexplicável destruiu as pessoas de formas inimagináveis, e agora não resta alternativa se não encarar o demônio da Partida Repentina. Encarar de frente, ou morrer tentando.

Lembro de ler em 2012 que várias pessoas que pensavam que o fim seria naquele ano, acabaram fazendo loucuras como última chance de aproveitar o restante dos dias. Não imagino a decepção dessas pessoas quando perceberam que ainda estávamos aqui no primeiro dia de 2013. Muitas previsões sobre como, onde, quando o mundo vai acabar, já foram feitas. Mas felizmente, ou infelizmente, ou os dois ao mesmo tempo, o mundo vai continuar aqui quando eu for embora, vai continuar aqui quando você for embora, vai simplesmente continuar. Girando. Indiferente a sua crença e a sua vontade.

Imagem: HBO/ Divulgação

Mesmo que o dilúvio não tenha vindo para os personagens da série, outra realidade se despediu para sempre: o mundo dos mortos, ou “qualquer que seja aquele lugar no qual Kevin vai quando morre e a gente não sabe o que diabos está acontecendo”. E que maneira de se despedir…

Kevin começou o episódio decidido a se voluntariar para a morte, não sobrando tempo para provações internas ou indecisões. O personagem encara de frente o peso de possuir as dádivas que possui, e então morre. O propósito inicial é impedir o dilúvio de devastar a terra, e também mandar mensagens para algumas pessoas que se encontram nesse lugar, como Evie e os filhos de Grace. Mas o propósito ganha outras dimensões ao longo da projeção. No fim, é apenas sobre Kevin.

Os minutos que se seguem ao afogamento do personagem e a chegada no plano dos mortos são marcados pela confusão. Assim como em “International Assassin”, da segunda temporada, leva um tempo até se ter uma ideia de como essa outra realidade se constrói. Nesse novo mundo, pessoas que já morreram parecem viver normalmente sem ter ideia de estarem mortas, e as pessoas vivas na nossa realidade, estão mortas nessa. Kevin ainda é um assassino profissional, mas há uma pequena reviravolta: ele possui um irmão gêmeo. É galera, é um episódio de The Leftovers, esperavam o que?

No quinto episódio da temporada, o personagem de David Burton, que clama ser Deus, diz que Jesus não ressuscitou, e sim, ele possuía um irmão gêmeo. Os paralelos entre Kevin e Jesus Cristo não param… Não é por menos, considerando que ele consegue voltar dos mortos com a mesma facilidade com que consegue ser autodestrutivo. E como se não bastasse, o gêmeo de Kevin é o presidente.

A narrativa é muito similar com o já mencionado “International Assassin”, tanto em estilo, como em aspectos técnicos. O onírico e o surreal são inspirações claras para a construção desse universo. Kevin consegue se transportar de um corpo para o outro vendo seu reflexo, possibilitando o desenvolvimento da trama em dois focos diferentes. Em determinado ponto, os dois Kevins se encontram frente a frente em uma mesa, num dos momentos mais engraçados e tensos do episódio.

A abordagem lembra muito uma série política ou de espionagem, mas sem perder a “poeticidade”. Kevin vai tentando realizar seus objetivos um por um até encarar as verdades mais cruéis, verdades que se refletem no mundo real. Ele é uma pessoa que foge. Sempre fugiu. Preferia colocar as coisas embaixo do tapete em oposição a confrontos. Laurie disse para ele na metade da temporada que sua ida a Austrália era uma fuga, e ele finalmente percebeu. Nora e Kevin queriam fugir das maldições de serem quem são.

Falando em Nora, Kevin se lembra da personagem ao fim do episódio, recordando o fato de ter fugido dela também, ter a deixado para trás e estragado tudo. Talvez ainda há um futuro entre os dois. Sim, eles são potencialmente destrutivos, mas o são por natureza, e continuariam a ser assim com quem quer que estivessem.

Se tratando de um episódio passado no mundo dos mortos, claro que muitos personagens iriam dar as caras novamente: Dean era o ajudante do Kevin assassino, o Kevin australiano era segurança do Kevin presidente, Evie era uma ativista em um mundo dominado pelos Remanescentes Culpados e aparentemente morto, desculpa o trocadilho. Até os filhos de Grace, que nunca apareceram anteriormente, estavam presentes.

Gostaria de destacar duas participações especialmente emblemáticas: Meg e Patti. Foi incrivelmente agradável, na falta de palavra melhor, vê-las de novo na série, principalmente Patti. As duas tiveram papéis importantes para o desenvolvimento, mas Patti deu um show em sua personagem. Como eu senti falta dela. A Remanescente fantasma que atormentou a vida de Kevin na segunda temporada voltou para ser Secretária da Defesa, e uma bem louca por sinal.

A interação dela com o presidente Garvey é maravilhosa e cômica. A personagem tem uma força e um poder de persuasão que são assombrosos. Os dois posteriormente põem em prática um plano de acabar com o mundo. Kevin não queria mais voltar para aquele lugar, então era melhor por fim a ele. Os dois assistem de mãos dadas diversos mísseis bombardearem a cidade à la Clube da Luta, realizando seus desejos e o de milhões de pessoas. Morrer.

Voltando a realidade, Kevin se depara com o mundo exatamente intacto no dia seguinte ao aniversário do 14/10. A música que embala os créditos é uma regravação de Patty Duke para “The End of the World”, de Skeeter Davis, que dentre várias coisas diz: “Por que o meu coração continua batendo?/ Por que meus olhos choram?/ Eles não sabem que é o fim do mundo?/ Ele terminou quando você disse adeus”. Se for assim, então o mundo definitivamente já terminou.

P.S.: A música de abertura foi carregada de nostalgia, voltando ao tema da primeira temporada composta por Max Richter.
P.S. 2: Que momento foi aquele em que um Kevin mata o outro ao som de “God Only Knows” do The Beach Boys!!!
P.S. 3: A fotografia desse episódio foi belíssima. Não tinha uma grande paleta de cores, não tinha saturação, mas entregou o tom do episódio com perfeição.
P.S. 4: Se aquele mundo alternativo dos mortos foi destruído, isso significa que agora se o Kevin morrer ele morre pra valer?!
P.S. 5: O que foi aquele scanner de pênis?? Pena que não vimos nadinha do Justin Theroux…
P.S. 6: A dúvida em saber se Laurie morreu ou não ainda paira.