The Leftovers – 3×08 – The Book of Nora [SERIES FINALE]

Imagem: HBO/ Divulgação
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O fim é uma história de amor.

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Ao contrário dos outros episódios, gostaria de não dar uma nota de zero a cem para este. O motivo: eu não acho que seja justo colocar The Leftovers em um espectro de avaliação por números nesse dado momento, simplesmente parece inadequado. The Leftovers é uma das melhores séries dos últimos anos, possivelmente uma das melhores de todos os tempos, e a percepção que qualquer um pode ter ao assisti-la é da sua disparidade com qualquer outro programa no ar; ela não se encaixa e não se define. Assim, a velha “avaliação” vai ter que ficar para trás aqui, dando espaço a uma análise sobre o fim. E ainda não me dei conta que o fim finalmente chegou.

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Esse último capítulo foi vendido como aquele em que “nada é explicado, tudo é explicado, e então acaba”. Essa é provavelmente a análise mais acurada e sintetizada que alguém poderia ter criado sobre o finale, extremamente correta em sua definição. Ao começo nada parece fazer sentido, então tudo faz sentido, e então vemos os créditos. Créditos que, mais do que nunca, servem como um minuto de silêncio para te deixar pensando em toda a jornada que The Leftovers teve até esse momento. Mas vamos ao episódio em si. Aviso com antecedência que grandes spoilers serão revelados a frente, e aconselharia a não prosseguir de maneira alguma caso ainda não tenha assistido “The Book of Nora”.

Nora Durst foi vista pela primeira vez no piloto da série como a “pobre Nora que perdeu toda a família para a Partida Repentina”. Todos a olhavam com dó e a tratavam como uma porcelana, mas Nora tinha uma casca grossa, na verdade, Nora era a força e a sensibilidade na mesma pessoa. Ainda no piloto não dava para prever a importância que ela viria a ter no futuro, mas ao longo do tempo a personagem foi conquistando seu espaço merecido, até chegar a esse final, que é inteiramente sobre ela.

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O começo do fim é sua declaração gravada antes de partir, nela Nora diz seu nome completo e mostra uma cópia do jornal do dia. Esse é um dos procedimentos padrões por parte do grupo que envia as pessoas para o “lugar onde os desaparecidos se encontram”. Durst se torna mais uma naquela incontável lista de pessoas que decidiram “atravessar”, todas por vontade própria.

Antes de ir, ela teve uma breve interação com seu irmão Matt, nos antecipando e ansiando pelo que viria a seguir. Nem mesmo a espera pelo aniversário de sete anos foi tão aguardada como esses minutinhos antes de Nora entrar no dispositivo que iria a transportar. Matt serve como o consolo para os minutos finais, o ombro amigo, além de ser um ótimo piadista. Apesar das fagulhas que existiram entre os dois no passado por divergências de pensamento, o clima foi de companheirismo extremo. Matt estava lá pela irmã, mesmo sabendo que essa seria a última vez que ele a veria. Ele também sabia que tinha que deixá-la ir. Ela nunca conseguiria viver sem esse encerramento para o luto. Assim, ao meio de risos e lágrimas, nos despedimos de Matt para acompanhar Nora pela travessia.

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Imagem: HBO/Divulgação

Instruções são dadas do que fazer no dispositivo. Nora entra em uma carreta, totalmente nua, onde o aparelho está localizado e caminha rumo a ele. Nenhuma palavra é dita, não há porque dizer. Sentimos tudo o que a personagem sente nessa caminhada. A caminhada para o fim. Os passos são as despedidas; um de cada vez. Esse momento é praticamente uma metáfora para a luz no fim do túnel, a fantasia de pós-morte onde uma luz é vista ao fim do corredor, a luz que irá guiá-lo para outro lugar. Ao chegar ao dispositivo, a ansiedade e expectativa estão a mil. Seria o momento em que finalmente descobriríamos o que aconteceu com parte do mundo? Pois bem, Nora espera, e esperamos junto dela. De repente, não estamos mais lá, estamos no futuro, com ela já numa idade avançada se passando pelo nome de Sarah, assim como no começo da temporada. Por quase toda a projeção do episódio acompanhamos Nora nessa nova vida, tentando entender o que teria acontecido. Essa é a parte do “nada é explicado”.

Nora vive sozinha em uma casa no meio do nada criando pombas. Essas pombas são usadas em casamentos e nelas são amarradas mensagens de amor. Elas são soltas, voando cada uma pra um lado carregando o que um desconhecido qualquer escreveu em um bilhete. Todas posteriormente voltam para casa e Nora recolhe cada um dos bilhetes e os joga num balde cheio deles. Mil interpretações podem ser feitas disso. Uma: Nora vive perto daquele mundo cheio de amor, mas se mantém distante e quase intocável. Outra: a ilusão de que os pássaros vão voar pelo mundo carregando escritos é muito mais empolgante do que saber que eles têm um alcance de apenas 80 km e que inevitavelmente não vão muito longe. Uma terceira analogia é que, se até a ave, que é símbolo da liberdade, não consegue voar muito, então a liberdade não é uma fuga, a liberdade não é voar por aí. A liberdade é um sentimento. Nora fugiu, Kevin fugiu, mas eles nunca conseguiram ser livres.

Mas o maior tema deve ser o amor mesmo. Ainda tentando entender se estamos em um mundo alternativo ou não, eis que Kevin, também já em idade avançada, bate a porta da casa de Nora. O reencontro. Kevin parecia não a conhecer muito. Ele disse que se lembrava dela de uma noite em que os dois se encontraram no corredor da escola na primeira temporada e que estava ali na Austrália de viajem quando a avistou e a reconheceu. Logicamente Nora não comprou essa ideia. Ele a convida para ir a um baile, do qual ela recusa a principio, mas decide aparecer.

Décadas se passaram desde a última vez que se viram no hotel, e mesmo não sabendo se Kevin estava mentindo ou não sobre a conhecer, o envolvimento deles é palpável. Eles conversam, falam algumas trivialidades e debatem assuntos mais sérios. O baile acaba sendo um casamento do qual Kevin fora convidado. Aquele é o momento de um personagem atormentado buscando redenção. O fim do episódio passado mostrou claramente o arrependimento de Kevin em relação a ter estragado tudo o que tinha com Nora. Os dois choram enquanto dançam juntos e é uma das coisas mais íntimas e emocionantes de se ver. Apesar da distância que a personagem decide manter de Kevin no começo, ela inevitavelmente acaba cedendo pelo sentimento que ainda tem por ele. Esquecemos todas as esquisitices de The Leftovers e só sobra o envolvimento entre dois seres humanos. A aguardada reconciliação.

Uma hora, porém, as respostas chegariam, e isso aconteceu no finalzinho; “tudo é explicado”.

Não estávamos vendo Nora em uma realidade paralela, aquele era simplesmente o futuro. Kevin se lembra de tudo. Todo ano ele passava algumas semanas na Austrália a fim de achar Nora. Até que ele finalmente a achou. Durst então decide contar para ele tudo o que viu quando atravessou pela máquina:

Esse lugar onde ela foi era um mundo reflexo do nosso, mas nele 98% da população desapareceu ao invés de “apenas” 2%. Todos os que haviam partido aqui estavam lá, e todos que estavam aqui haviam partido lá. Se o nosso mundo acabou com o desaparecimento de alguns milhões, o mundo deles praticamente deixou de existir, aviões não voavam, cidades estavam vazias, praticamente tudo havia ido. Ficamos imaginando como seria esse mundo para essas pessoas, o que elas sentiam devia ser infinitamente mais poderoso. Mas Nora ainda tinha uma missão: encontrar seus filhos. E ela os vê, mas eles estão felizes, com uma nova vida, todos juntos. O pai arrumou uma nova mulher; eles são a nova família Durst. Nora não tem espaço ali, e então decide voltar para casa. Ela procura o cientista que criou a máquina e “atravessou” e pede para ele criar um novo dispositivo para poder voltar. E isso levou muito tempo. Quando voltou, ela decidiu ficar reclusa de todos com medo de que não acreditassem no que havia passado.

Tudo o que temos é a descrição de Nora sobre o que aconteceu, cabe ao telespectador se irá acreditar em suas palavras. Não vemos em momento algum o “outro lado”, mas a visão que ela pinta desse lugar é quase desolada. Eis as respostas. As pontas fechadas. O final para essa jornada.

A personagem pode seguir em frente agora. O luto terá fim. E ela tem ao seu lado Kevin. Os dois seguram as mãos nos segundos finais. Finalmente juntos. Kevin acredita em Nora, assim como eu acredito. Um final extremamente otimista para uma série que despertou as mais variadas emoções ao longo do tempo e que soube tratar o ser humano com uma complexidade assustadora.

“E então acaba”.

Imagem: HBO/Divulgação

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P.S.: A música de abertura da segunda temporada voltou nesse episódio.
P.S. 2: Laurie está viva! Ela era a única que sabia sobre Nora e seu paradeiro e atuava como sua psicóloga através de ligações.
P.S. 3: Jill e Tommy estão bem. Jill casou e teve um filho e Tommy está seguindo em frente depois do fim de seu casamento. Kevin Sr. ainda está vivo, com noventa e poucos anos.
P.S. 4: John e Laurie ainda estão juntos e morando do lado da casa de Kevin.
P.S. 5: Miracle já não tem mais o mesmo movimento que tinha antes.
P.S. 6: Estou aguardando ansiosamente a próxima investida de Damon Lindelof na TV. Tom Perrotta também.
P.S. 7: Não sabemos a natureza da Partida Repentina e dos poderes de Kevin, e fico feliz por isso.