The Path – Acredite no caminho

the-path-hulu-series-scientology

Continua após publicidade

[spacer size = “20”]

Continua após a publicidade

Poucas coisas são tão poderosas quanto a crença de uma pessoa. Quando em conjunto, pessoas com fé inabalável podem representar uma força quase que impenetrável. A crença em qualquer religião ou símbolo é raramente retratada na TV justamente por ser um assunto delicado e polêmico. The Path, novo produto original da Hulu, aborda a vida de um grupo de pessoas vivendo sob a doutrina de um culto – ou movimento, como veremos a seguir – chamado Meyerismo. A grande virada está no fato de que um dos membros mais ilustres começa a duvidar do que sempre acreditou e deseja abandonar o grupo.

Continua após publicidade

The Path é basicamente sobre isso: ver/não ver e acreditar/não acreditar. Nos episódios iniciais, vários são os diálogos que abordam a “visão”. Não estamos falando no sentido superficial, é claro. Não se trata de enxergar bem, mas ver além. Um dos momentos de destaque do piloto, por exemplo, é quando Cal Roberts (interpretado por Hugh Dancy) discursa para uma plateia atenta acerca da caverna de Platão.

Em linhas gerais, segundo Platão, um grupo de pessoas vivia em uma caverna e sua realidade era enxergar imagens na parede. Imagens que eram apenas sombras de pessoas que passavam em frente a uma fogueira. A moral é que todos viviam uma mentira ou, em outras palavras, uma representação da verdade. Um dos homens do grupo descobre a verdade sobre tudo e fica na dúvida: contar para seus colegas ou deixá-los vivendo a confortável realidade pela qual eles já estão habituados? A verdade não seria pior?

Continua após publicidade

Não é preciso teorizar em demasia para associarmos o mito da caverna de Platão e o sujeito que guarda a verdade com o culto do Meyerismo e a Eddie Lane (vivido por Aaron Paul). Imaginemos o movimento como a caverna e os seguidores como seus habitantes. Lane surge em The Path depois de passar meses em um treinamento no Peru, conhecendo os bastidores do movimento e construindo “novos degraus na escada” e volta cheio de dúvidas e chocado com o que viu sobre o Meyerismo. Ele, assim como o homem na caverna, não sabe se conta tudo aos seus amigos e familiares ou se mantém tudo e todos na habitual realidade que conhecem e respeitam.

É claro que, na série, Cal Roberts e os líderes do culto consideram seus seguidores como aqueles que saíram da caverna e encontraram a verdade. E os seguidores de Meyer acreditam nisso. Para eles, a luz foi encontrada ou está à vista. Todos os outros que estão fora acompanham tudo por sombras na parede. Neste sentido, Roberts é um líder inteligentíssimo, pois faz com maestria aquilo que todo culto faz: molda a cabeça dos seguidores para que estes achem que estão do lado certo.

[spacer size = “20”]

the-path-hugh-dancy-slice-600x200

[spacer size = “20”]

E aqui vale elogiar a atuação de Hugh Dancy que voltou às séries depois de ter aquele que pode ter sido o papel de sua carreira em Hannibal. Dancy se sai incrivelmente bem não só por convencer os membros do movimento, mas por quase entrar nas mentes da audiência. E em uma entrevista, quando enfático corrige a entrevistadora – “este é um movimento, não um culto” – Roberts/Dancy quase nos faz acreditar.

Não é à toa que a série constantemente é citada como uma crítica à cientologia, tendo Roberts como uma representação dos porta-vozes da famosa religião. Assim como os líderes da cientologia – e de praticamente todas as religiões –, Cal parece acreditar em cada palavra que diz, embora tudo seja um absurdo. É por isso que a presença de Eddie é tão importante na trama: desacreditado, o rapaz é um contraponto considerável frente a Roberts. Se Cal acredita piamente no culto, Lane nutre diversas dúvidas e começa a entender o poder do movimento.

The Path, portanto, parece caminhar para se estabilizar assim: o crente versus o descrente. Ao fim, questionamos: quem ? Na galeria elogiável de personagens, The Path se sai muitíssimo bem. Além dos dois protagonistas, a série ainda investe em ótimos coadjuvantes, como a jovem Cox, que vê em Cal a imagem de um salvador, ao tempo em que vai mergulhando cada vez mais no universo do Meyerismo.

Outro ponto que merece destaque é a direção de Mike Cahill, que comanda os dois primeiros episódios. O diretor, conhecido de outras produções indies provocadoras, como O Universo no Olhar e o excelente A Outra Terra, faz um ótimo trabalho ao ilustrar a vida dos personagens sem nos mostrar muito. A câmera, e consequentemente o público, não é onisciente ou onipresente, ao contrário: há muito que não sabemos e muitos lugares que não visitamos.

The Path, contudo, ainda precisa melhorar em alguns pontos. Falta o ingrediente surpresa e realmente envolvente. Ainda que a atmosfera seja misteriosa, a série carece de uma reviravolta de impacto ou de ganchos surpreendentes. Além disso, seria ainda mais interessante caso o programa investisse um pouco mais em conflitos e deixasse de ser tão complacente. Para encerrar, ainda que Aaron Paula seja ótimo e esteja excelente como Eddie Lane, o ator é muito jovem para o papel. É difícil acreditar que Paul tenha um filho daquela idade ou todo o passado sugerido. Alguém mais velho poderia resultar num impacto maior.

[spacer size = “20”]

the-path-feat-480x279[spacer size = “20”]

Caso você esteja interessado em assistir outras obras que abordem cultos ou “movimentos” como o Meyerismo, confira abaixo algumas dicas:

Martyrs: terror francês violento e chocante. Não é para todos os gostos, mas as ideias finais e qualidade técnica e das atuações valem a pena. Imperdível para fãs do gênero.

The Invitation: o mais recente desta lista é um suspense que acompanha um grupo de amigos que se reúne em uma casa depois que um dos membros retorna de uma viagem onde participou de um culto. Bem, veja o filme e saiba mais.

The Sacrament: mistura de documentário e horror sobre um grupo de amigos que vai até uma comunidade para visitar a irmã de um deles e tentar filmar um documentário. Aos poucos, o culto que acontece no local vai ficando cada vez mais assustador. Baseado na história real de um culto cujo líder incentivou um dos maiores suicídios coletivos já registrados.

Sound of my Voice: suspense indie intimista na pegada de The Path. A atriz principal é amiga e parceira de Mike Cahill, diretor da série, em diversos projetos.

The Master: drama poderoso do genial Paula Thomas Anderson. Posso dizer que Joaquin Phoenix e Philip Seymour Hoffman estão perfeitos em seus papeis.

Kill Listsuspense bem construído com um final absolutamente aterrador. Acompanha um matador de aluguel que passa a desconfiar de tudo e todos ao redor.

The Conspiracy: acompanha dois cineastas filmando um documentário sobre uma enorme teoria da conspiração. Para eles, uma sociedade secreta detém parte considerável do poder político, econômico e social. Cada vez que mergulham mais na procura, mais sinistras as coisas ficam. Bom filme que começa razoável, mas melhora gradativamente.

Going Clear: Scientology and the Prison of Belief: documentário sobre a história da cientologia. Conta com a entrevista de diversas pessoas, incluindo artistas como Jason Baghe de Chicago PD. Um dos pontos mais notáveis é quando o filme aborda a tentativa de John Travolta (famoso seguidor da religião) e de diversas pessoas saírem do culto. Quando alguém tenta abandonar o movimento, membros da cientologia fazem de tudo para que você não saia. E se sair, farão com que se arrependa. Semelhanças com The Path? Pois é.

Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.