The Strain – 01×04 – It’s Not for Everyone

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The Strain entra em território perigoso com o último episódio, e o título deste quarto capítulo é irônico e perfeito para descrever tudo o que aconteceu: “It’s Not for Everyone”. Definitivamente. A série se arrisca com as decisões que têm tomado, mostrando coragem, mas arriscando perder público. A cena da autópsia, por exemplo, é grotesca. Nada que não se tenha visto em filmes, mas não recordo de nenhuma série televisiva (seja ela de TV aberta ou a cabo) que tenha apresentado uma cena como essa. O diretor Keith Gordon (responsável por episódios de Rectify, The Killing, Dexter e The Leftovers, entre várias outras) até tenta ocultar um detalhe e outro através da imagem desfocada, mas na maior parte do tempo deixa a câmera filmar corte a corte, órgão a órgão, numa sequência angustiante, daquelas que marcam a história de uma série. Não tenho nada contra cenas do tipo, pelo contrário; sou do tipo que concorda com todo tipo de cena que seja necessária à história, que sirva a trama e que não exagere e extrapole os limites do bom senso, e a tal cena da autópsia está dentro destes parâmetros. The Strain desde o início tem mostrado que é um programa forte, sem medo, e que vai mostrar o que precisar mostrar para contar a sua história. É uma criação de Guillermo Del Toro, afinal de contas, e há pouca gente na indústria atual que saiba misturar o gore, o grotesco e o gótico com inteligência e – sim – sensibilidade. Toda cena violenta ou chocante de The Strain, até aqui, não foi gratuita. A autópsia serve para mostrar toda a mutação sofrida por um humano transformado em strigoi. A perda do órgão genital, explicitada no episódio anterior, serve para mostrar que os vampiros são apenas monstros, sem distinção de gênero. São animais e não há subdivisões e classificações nisso. Quando O Mestre esmaga o crânio de uma vítima a socos, é para que a audiência perceba que Ele não quer que aquele humano seja transformado, para isso, ele impede a mutação cortando a cabeça do coitado. Esmagando, neste caso.

E assim nós vamos. Posso citar diversos momentos chocantes de The Strain e, ainda que muitos também sirvam como entretenimento, todos têm uma finalidade. Assim, quando alguém crítica ou diz que abandonará a série por esta ser muito violenta ou trash, fico chateado. Pela série, que perderá audiência e pode correr riscos de cancelamento, e pelo espectador, que deixa de acompanhar uma grande história por um motivo banal. Mas tudo bem, cada um faz o que acha melhor e não obrigo ninguém a assistir algo que lhe causa desconforto. Assim, algumas decisões narrativas e visuais de The Strain são perigosas, já que podem afastar uma parcela do público. Concordo e estou satisfeito com tudo que vem sendo contado e mostrado até então, mas arriscar tanto logo no início da série (que ainda está em inegável estágio de aceitação) é perigoso.

De todo modo – e completamente independente de conter cenas violentas/chocantes ou não -, The Strain teve o seu pior momento em It’s Not for Everyone. É um bom episódio, mas é o mais irregular. O grande problema do quarto capítulo talvez seja a incapacidade da roteirista Regina Corrado em dividir o tempo satisfatoriamente entre todos os personagens. Houve pouco Setrakian, um grande personagem que precisa – e merece – crescer. Um bom tempo foi depositado em Eph, Nora e Jim, mas pouco ou nada se viu de Eldritch Palmer, Vasiliy Fet e Gabriel Bolívar. Os personagens precisam ser desenvolvidos e a audiência precisa se acostumar a eles. Vasiliy Fet é um grande personagem – já falei isso mais de uma vez aqui -, e a série até agora não lhe deu nenhum episódio digno para contar sua história. Se em reviews anteriores elogiei o desenvolvimento dos personagens, desta vez é isso que critico. Os roteiristas precisam achar um meio termo entre quem é importante e quem é secundário. Setrakian e Fet são essenciais no transcorrer da história e precisam urgentemente entrar no centro da trama.

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Outro ponto fraco do quarto episódio – e que é o mal para qualquer série – é a sensação de que a trama não avançou. Não retrocedemos, mas tampouco fomos à frente. It’s Not for Everyone pouco nos mostrou e pouco nos falou sobre o futuro. Ainda assim tivemos bons momentos: além da autópsia, tivemos uma esposa em crise tendo de lidar com o querido marido transformado. Sobrou até para o cachorro! Para coroar as boas sequências, vemos Abraham Setrakian, O Matador, cortando cabeças com a sua afiada espada. O sujeito parece ter uns noventa anos e tem uma espada que é escondida na bengala! Tem como não querer que um personagem desses preencha os quarenta e poucos minutos inteiros de episódio?

Momento curioso nº 1: Em entrevista recente, realizada pela jornalista brasileira Ana Maria Bahiana, Guillermo Del Toro disse que até ele mesmo achou que alguns momentos dos livros eram pesados demais para serem mostrados na TV, e, assim, deixou-os de fora. “Ler é uma coisa, ver é outra”, diz. “Algo excessivo pode ser repugnante, visualmente. E isso sou eu falando […]”. Sim. Este é Del Toro falando. Imaginem!

Momento curioso nº 2: Em outra entrevista, também de Bahiana, Del Toro é questionado acerca de seu autor de terror que ele mais admira. E ele responde: “Stephen King. Ele está para a literatura de terror como Alfred Hitchcock está para o thriller cinematográfico”. É por isso que adoro esse sujeito: além de talentoso, ele sabe o que diz.

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Matheus Pereira

Matheus Pereira

Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.

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