The Strain – 2×01 – BK, NY

TheStrain2011

Imagem: Arquivo pessoal

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The Strain chega a sua segunda temporada buscando se estabilizar. Todo segundo ano de qualquer série é delicado; o programa não é nem muito velho para ter uma audiência sólida, nem muito novo para estar fora do radar. É o momento dos programas se firmarem dentro do cenário onde se encontram. A série, baseada na trilogia literária criada por Guillermo Del Toro e Chuck Hogan, não foi o sucesso que poderia – e merecia – ter sido, mas conquista seu público aos poucos. A boa notícia é que o canal FX costuma respeitar e dar boas chances às suas produções, e The Strain ainda tem espaço para conseguir se estabelecer.

O problema é que The Strain é uma série feita de tensão, criação de atmosfera, suspense. Não há cenas de ação ou reviravoltas surpreendentes. É um programa com desenvolvimento lento que mais antecipa do que mostra. Isso é ótimo no gênero do horror, mas acaba afastando uma parcela da audiência. Como bem escreveu Jesse Schedeen em sua review no IGN, The Strain se beneficiaria amplamente no formato das produções da Netflix. O programa teria ao seu favor o famoso binge-wathcing, onde o espectador pode assistir vários episódios consecutivos. O show tem uma forte pegada cinematográfica e seu desenvolvimento lento encontraria respaldo na plataforma online. Strain sofre na televisão o que Sense8 sofreria caso não estivesse abrigada pela Netflix. O formato clássico dos episódios semanais prejudica o programa, já que afasta aquele espectador que ainda tinha dúvidas acerca da série e não tem muita paciência. Ao encontrar uma premiere calma como a da segunda temporada, é possível que o público desista do show. O que é uma pena, já que Strain recompensa em longo prazo, sem se precipitar ao entregar reviravoltas ou grandes acontecimentos.

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O primeiro episódio começa com um prólogo, dirigido por Guillermo Del Toro, que nos conta, através de um belo flashback, a origem do Mestre, além de nos dar um pequeno vislumbre da infância pobre de Setrakian. A sequência é extremamente fiel ao prólogo do primeiro romance, Noturno. Quando a cena não apareceu no primeiro ano da série, tive certeza de que ela seria o início da segunda temporada. Certeiro. O capítulo começa diretamente com uma senhora contando para seu pequeno neto, Abraham, a lenda do gigante Sardu. As diferenças com relação ao livro são mínimas. O que acontece nas telas, por exemplo, é que Sardu é muito mais humanizado do que nas páginas, tornando-o, assim, mais trágico.

The Strain como um todo, aliás, é bem fiel aos romances. Muito que foi visto nessa premiere, por exemplo, vem direto do primeiro e, principalmente, do segundo livro. Toda a trama envolvendo as crianças cegas, por exemplo, é muito interessante, ainda que não pareça. Por falar em cegueira, não lembro se foi mostrado na série, mas muitas pessoas ficaram cegas durante o eclipse visto no primeiro ano. Isso aconteceu porque muitos olharam diretamente para o sol sem a devida proteção. O fato é que vários óculos de proteção defeituosos foram vendidos propositalmente. Quem comprou o produto com defeito e olhou direto para a luz solar, acabou cego. De qualquer forma, o Mestre estava a procura de crianças cegas desde o nascimento, o que pode ter sido um problemas para aquelas que perderam a visão por outros motivos. O Mestre, inclusive, parece estar se aposentando, mas duvido que a série o descarte tão cedo e muito menos que coloque Kelly como sua substituta.

Outra trama interessante é a dos Anciãos. Toda a mitologia dos vampiros criada por Del Toro e Hogan é impecável, mostrando-se melhor que a maioria das histórias recentes envolvendo as conhecidas criaturas da noite. Os monstros de Strain não só são fisicamente interessantes (toda a transformação de humano em vampiro é ótima), como possuem um background notável. A sensação é de que há toda uma história por trás das criaturas, uma hierarquia. São detalhes não explícitos que enriquecem a série. Além disso, apenas o fato dos strigoi serem criaturas violentas, assassinas sugadoras de sangue, já é grande coisa.

Voltando ao episódio em si, BK, NY começou basicamente onde a primeira temporada acabou. Colocando as cartas na mesa, The Strain soube definir os rumos com calma e inteligência. De qualquer forma, o programa ainda não se desvencilhou, ao menos num primeiro momento, de alguns de seus problemas antigos. É triste, por exemplo, que os roteiristas não façam o mínimo de esforço para transformar Eph em um sujeito mais simpático. Chato, irônico e beberrão, o personagem, que deveria ser protagonista, acaba como coadjuvante idiota. Fet, um dos melhores personagens da série e dos livros, segue em um injusto segundo plano. Ao menos Setrakian segue firme e forte e Dutch, personagem exclusiva da adaptação, mostrou-se bem encaixada na trama. Além disso, Strain falhou, assim como na primeira temporada, em não mostrar as conseqüências da “infecção” na cidade. Parece que os vampiros atacam apenas o grupo central, e que Nova York parece nem saber da existência dos monstros. Seria interessante ver como a população está sendo afetada pelo surgimento dos strigoi.

The Strain, então, retorna como acabou no último ano: é muito boa, mas poderia ser ainda melhor. O programa tem uma mitologia fantástica e personagens excelentes. Resta, talvez, uma sacudida, um roteiro mais seguro, que saiba exatamente o que quer. Posso afirmar que adoro a série, e que ela pode render bons frutos. É preciso, porém, achar uma forma de agradar o público em geral e, assim, garantir mais tempo no ar.

Matheus Pereira

Matheus Pereira

Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.

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