A 3ª temporada de The White Lotus afunda em sua própria pretensão | Crítica

A essa altura do campeonato, The White Lotus já se tornou sinônimo de viagens paradisíacas, milionários entediados e mortes misteriosas em resorts de luxo. A fórmula criada por Mike White parecia imbatível — até agora. Então, com a exibição completa da 3ª temporada, ambientada na Tailândia, a série não só tropeça: ela cai de cara no chão.

Apesar de cenários deslumbrantes, atuações competentes e um elenco recheado de estrelas, The White Lotus 3ª temporada é, sem rodeios, um desastre narrativo. E o que mais incomoda não é o desastre em si, mas o fato de que tudo isso é embalado como se fosse uma obra genial.

A série ainda acredita que está no auge, quando na verdade entrega uma temporada confusa, inchada e pretensiosa.

Uma trama central que beira o absurdo

O arco principal, envolvendo Rick, Chelsea e o tiroteio no hotel, no último episódio, é uma sequência de decisões inacreditáveis. Rick ameaça um homem poderoso em Bangkok e… volta calmamente ao resort para tomar café da manhã como se nada tivesse acontecido? A sequência de eventos que leva ao banho de sangue final é tão artificial que mais parece o roteiro de um thriller barato tentando se passar por sátira sofisticada.

A revelação de que Jim é o pai de Rick soa como uma piada mal executada. Desde o primeiro encontro entre os dois, essa era uma possibilidade gritante — não pela construção do roteiro, mas pelo exagero nas pistas. Quando o segredo é finalmente revelado, o impacto é nulo. É o tipo de reviravolta que The White Lotus já fez melhor, mas que aqui parece saída de um drama genérico de domingo à noite.

Personagens mal aproveitados (ou simplesmente mal escritos)

A personagem Mook talvez seja o maior símbolo do fracasso criativo da temporada. Com toda a expectativa ao redor da presença de Lalisa Manobal, esperava-se algo mais relevante. Mas sua personagem é rasa, descartável e existe apenas para empurrar outro personagem para o desfecho violento. Não tem arco, não tem profundidade, não tem função além de parecer exótica. E não adianta culpar a atriz — ela faz o que pode com o material que recebeu, que infelizmente é praticamente nenhum.

O destino de Gaitok é igualmente frustrante. Sua suposta virada moral — ao assassinar Rick pelas costas enquanto ele carregava uma mulher — não é uma catarse, é só desconcertante. A tentativa de torná-lo um justiceiro silencioso cai por terra quando ele simplesmente ignora os criminosos verdadeiros e desaparece do radar, como se nada tivesse acontecido. Não há consequência, nem coerência emocional.

The White Lotus
Imagem: HBO

E o que dizer do plano de assassinato coletivo dos Ratliff? Timothy, o patriarca surtado, tenta envenenar a própria família com sementes. Isso mesmo. Mas por algum motivo decide poupar o filho favorito, após uma conversa rasa sobre dinheiro.

O resultado disso? Uma família quase morta, uma revelação por notificação de celular e um encerramento patético. A tensão acumulada durante toda a temporada se esvai como vapor. Nada se resolve de forma satisfatória.



Desperdício de tramas promissoras

Belinda e Greg retornam em um arco que promete muito e entrega quase nada. A dinâmica entre os dois poderia ter sido uma reinterpretação da exploração emocional e financeira que sempre permeia a série — mas termina de forma abrupta, como se os roteiristas também tivessem perdido o interesse.

A personagem Chloe, uma das mais interessantes da temporada, tem duas falas no episódio final. Duas. É o tipo de escolha criativa que não só subestima o público, como desrespeita o investimento emocional que o espectador fez até ali.

A única salvação em The White Lotus 3ª temporada? As mulheres (de novo)

O trio de mulheres liderado por Carrie Coon, Issa Rae e Emma Corrin é o único ponto onde a série parece lembrar o que era. Há, de fato, nuances emocionais bem trabalhadas, especialmente nos momentos de tensão contida e nas pequenas rupturas que revelam mais do que os diálogos. Carrie Coon, em especial, carrega a temporada nas costas quando lhe é dada a oportunidade. Mas é muito pouco, em meio a tanto ruído.

Beleza que não sustenta

Sim, The White Lotus continua visualmente impecável. Os cenários são belíssimos, a trilha sonora é elegante e a direção de arte é milimetricamente calculada. Mas isso já não basta. A 3ª temporada se esforça tanto para parecer profunda que esquece de contar uma boa história. No final, temos seis horas de episódios que mais parecem um catálogo de imagens bonitas e diálogos vazios, intercalados com reviravoltas que beiram o risível.

Mike White parece ter se perdido em sua própria criação. Ao tentar transformar cada episódio em um manifesto sobre privilégio, identidade ou poder, esqueceu que The White Lotus também precisa ser envolvente. E, acima de tudo, precisa fazer sentido.

Veredito

A 3ª temporada de The White Lotus é uma decepção do começo ao fim. Não pela falta de ambição, mas justamente por mirar tão alto e errar tão feio. É uma temporada que tenta demais, pensa demais e sente de menos. E, ao fim, o que sobra é uma colcha de retalhos de personagens desperdiçados, tramas mal amarradas e um espetáculo visual vazio. Se a série quiser sobreviver à próxima viagem, talvez seja hora de deixar as metáforas de lado e voltar a contar boas histórias. Porque, dessa vez, o paraíso se revelou um verdadeiro inferno narrativo.

Nota: 4.0/10



A 3ª temporada de The White Lotus afunda em sua própria pretensão | Crítica
SOBRE O AUTOR
Anderson Narciso
Criador do Mix de Séries, atua hoje como redator e editor chefe do portal que está no ar desde 2014. Autor na internet desde 2011, passou pelos portais Tele Séries e Box de Séries, antes de criar o Mix. Também é criador e editor do portal Folha JF, projeto regional voltado para Juiz de Fora e região. Séries favoritas da vida: One Tree Hill, Friends e ER.