The Young Pope: possivelmente a melhor série do ano

the young pope

Imagem: Mix de Séries

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The Young Pope é uma espécie de House of Cards no Vaticano. Repleta de intrigas e reviravoltas, a série criada por Paolo Sorrentino aborda toda a politicagem e sujeira por trás da alta cúpula católica. É claro que o diretor e roteirista toma diversas liberdades criativas e investe em um épico dramático envernizado por tons shakespearianos. The Young Pope é, em resumo, aquela obra que é feita e lançada para se destacar. É o tipo de série destinada a uma vaga ao lado dos grandes programas da atualidade. E constatar isso depois de apenas dois episódios só comprova o poder de Sorretino e sua criação.

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Protagonizada por Jude Law (em um papel que, certamente, marcará um ponto alto em sua carreira) a série já começa indo pelo caminho menos óbvio. Ao invés de começar nos bastidores da briga para definir o novo Papa, The Young Pope já inicia com a decisão tomada. Lenny já é o novo Papa e o show acompanhará sua trajetória como sumo pontífice. Assim, as disputas internas entre cardeais ficam no passado, mas voltam para assombrar o presente de tempos em tempos. Fica claro, por exemplo, que a guerra para definição do novo Papa foi tão violenta que causou um cisalhamento de relações entre diversos cardeais e entre Lenny e seu mentor, Spencer.

Com isso, The Young Pope evita repetir tramas que já foram utilizadas em House of Cards, The Borgias e tantas outras séries e filmes que acompanham um personagem em busca pelo poder. Lenny agora é Pio XIII e ele está no comando. O grande barato do programa é, então, tentar decifrar a personalidade difícil do novo Papa. Ao mesmo tempo em que parece um sujeito de ideias liberais (a sequência inicial, um sonho, indica isso), Pio surge como um preconceituoso conservador disposto a qualquer coisa para conseguir o que quer. No segundo capítulo, por exemplo, ele pergunta a um cardeal se este é homossexual. A pergunta não tem cunho pessoal, mas o novo Papa sabe que, sendo homossexual, o homem não poderá exercer nenhum cargo importante na alta cúpula, o que movimenta seu tabuleiro político.

Fica claro que Sorretino e Law criaram mais um personagem antológico na TV. Assim como Don Draper, Soprano, White e Underwood já conquistaram o coração do público, Pio XIII tem tudo para ocupar uma cadeira ao lado dessas lendas. Isso porque a complexidade do sujeito é admirável. Não demora para nos encantarmos com a constante dicotomia que aflige o novo líder da Igreja Católica. Ao mesmo tempo que parece poderoso e decidido, Pio parece abandonado e perdido. Sua cruzada para mudar o perfil da Igreja não é certo: ele quer melhorar a religião ou quer destruí-la? Logo, Pio chega a ser absolutamente assustador em alguns momentos. Em uma cena incrível, o Papa afirma não acreditar em Deus. Em seguida ele diz ser brincadeira, mas a dúvida está plantada e tudo indica que a piada, no fim, é a mais pura verdade.

E os momentos de terror não param: a sequência final do segundo capítulo (transmitido junto com o primeiro na Europa) é aterradora. Pio decidiu que sua imagem não é importante e, por isso, ninguém verá seu rosto. Quando aparecer em público, apenas sua silhueta será vista. Assim, quando vai até a sacada para discursar em frente a milhares de fiéis pela primeira vez, é noite e apenas sua silhueta é perceptível. O público não entende. A voz de Pio (um trabalho notável de Law, diga-se) sai mais imponente do que nunca. Inquisidora, a voz potente do Papa ecoa assustadora pelo Vaticano. E aí o mundo vem abaixo com declarações totalmente inesperadas. “Procurem por Deus e talvez poderão me ver”. “Não estou aqui para ajudá-los!”. “Todos estão sozinhos aos olhos de Deus!”. Todos parecem atônitos, inclusive do lado de cá da tela.

The Young Pope está repleta de momentos incríveis, sempre bem amparados pelas ótimas atuações e pela direção irretocável de Paolo Sorrentino. No elenco, além de Law, outros nomes brilham como Diane Keaton e James Cromwell. Keaton vive Mary, freira que criou Lenny/Pio desde criança. As conotações religiosas e relação mãe/filho são claras e muito bem utilizadas pelo roteiro. A figura paterna do novo Papa, Spencer, também é importante para o desenrolar da trama. Mas talvez seja Silvio Orlando que mais merece destaque. Pouco conhecido do lado de cá do oceano, o italiano interpreta o cardeal Voiello, principal antagonista de Pio XIII neste início de jornada. Assim como todos os outros, Voiello é cheio de segredos e facetas e por mais que pareça apenas um homem sem escrúpulos, o cardeal surge em momentos-chave como alguém realmente preocupado com o futuro da Igreja.

Mas se alguém merece um prêmio por The Young Pope, este é Sorrentino. Com total domínio sobre a trama e seus personagens, o diretor e roteirista enche os olhos do público não só com o roteiro, mas com uma direção admirável. Sorrentino faz-se notar sem chamar muita atenção para si. Ele não é apenas alguém que liga a câmera e filma; pelo contrário, ele cria quadros inventivos e conta uma história inteira só com as imagens. Os simbolismos estão por toda parte e é elogiável o talento do diretor ao equilibrar todas as qualidades da produção, indo desde a mise en scène, passando pela edição e pela excelente trilha sonora (uma mistura de música clássica, eletrônica e rock). O talento de Sorrentino pode ser comprovado em cenas chave como aquela em que Pio conversa pela primeira vez com a responsável pela “imagem” do Papa e na longa sequência em que o sumo pontífice dá seu primeiro discurso. Os quadros criados por Sorrentino são justamente isso: quadros que, de tão belos, podem ser pendurados na parede.

Exibida em diversos países da Europa, The Young Pope estreia nos Estados Unidos apenas em fevereiro de 2017. No Velho Continente a série é transmitida semanalmente às sextas-feiras. Os dez capítulos foram divididos em cinco semanas, assim, dois episódios são exibidos. A série promete levantar polêmicas homéricas com a Igreja Católica (o Papa bebe, fuma, xinga, é vaidoso, mente, não dá a mínima para regras e nem para os fiéis e aparentemente não acredita em Deus), além de propor questionamentos importantes sobre religião, liberdade de expressão e questões sociais. Só um apocalipse bíblico pode estragar The Young Pope que, com apenas dois episódios exibidos, já pode ser considerada uma das – talvez a – melhores séries de 2016.

9 comentários

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    • Matheus Pereira
      Matheus Pereira 31 outubro, 2016 at 18:55 Responder

      Oi Juk… esta é “”possivelmente”” a melhor… tem mtas outras coisas no ano e na fall q são fantásticas… Quarry mesmo é linda, Black Mirror foi impecável, This is Us tá excelente, Westworld, Timeless, The Exorcist, No Tomorrow e tantas outras. Young Pope me cativou bastante, mas isso é totalmente pessoal pq curto o tema, o ator, diretor, etc. E as suas séries favoritas, quais foram? Abs

  1. Richard Gonçalves
    Richard Gonçalves 29 outubro, 2016 at 22:17 Responder

    The Young Pope é talvez a melhor surpresa da atual Fall Season. Combinando o estilo singular que só uma escrita italiana poderia trazer e elementos que já amávamos em séries que se adentram nas peculiaridades da Igreja (como The Borgias, outra de minhas traquinagens favoritas), tudo isso acomodado na junção das noções que a Análise Crítica do Discurso cobre tão bem (jogando com a estética para tal) e na atuação titânica de Law. Some isso aos arranjos técnicos de nível inquestionável e o resultado claramente é uma das melhores séries do ano. Excelente texto.

    • Matheus Pereira
      Matheus Pereira 29 outubro, 2016 at 15:56 Responder

      Você já viu Black Mirror? Tem um episódio sobre hate na internet que pode te agradar. Se você tiver um tempo de sair do computador e tiver idade mental para isso, pode entender alguma coisa da história.

      • Avatar
        Elliot Uploader 29 outubro, 2016 at 20:11 Responder

        rsrsrsrsrs cara não sou “hate” apenas tenho o direito de discordar de uma crítica bastante ruim (aceite você ou não rsrsrs) , e sim já assisti Black Mirror, então por favor para de bancar o menininho maduro e vai se aprimorar

        • Matheus Pereira
          Matheus Pereira 29 outubro, 2016 at 22:48 Responder

          Ah, agora sim vc discordou da crítica, o que é um direito seu e n me afeta. Só que vc n tinha discordado, vc apenas disse “teu cúuuuuu”. Essa é a sua crítica, esse é seu modo de discordar, dizendo “teu cú”? Eu ia achar mto bom se vc viesse e fizesse mil críticas. Tentaria explicar e melhorar. Mas vc n discordou, vc n apontou nada. Apenas disse “teu cú”. Eu realmente queria que vc apontasse o que está ruim na crítica justamente pra que eu me aprimore. Abs.

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