Todos os dias são da consciência negra

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Hoje, sexta-feira (20), é comemorado no Brasil (sendo feriado em algumas cidades) o Dia da Consciência Negra, símbolo que em pleno século 21 ainda sofre preconceitos diversos da sociedade. Na televisão isso continua muito gritante, mas por incrível que pareça, as coisas vêm progredindo.

Na TV brasileira, por exemplo, os negros sempre tiveram papéis de escravos em tramas de época, ou em histórias contemporâneas muitos deles faziam sempre papéis de empregados ou pessoas extremamente pobres, e com pequena importância. As coisas por aqui começaram a mudar em meados dos anos 90, quando a extinta TV Manchete exibiu a novela Xica da Silva, que foi um verdadeiro rebu, sendo a primeira da história a ter uma protagonista negra. A escrava que virou sinhá causou um grande marco na nossa história.

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Interpretada por Taís Araújo, a novela rendeu a atriz diversas oportunidades. A artista conseguiu quebrar mais dois recordes anos depois. O primeiro em 2004, por ser a primeira protagonista do gênero na Rede Globo ao viver Preta na icônica Da Cor do Pecado, trama estreante de João Emanuel Carneiro. Depois em 2009, Taís foi mais além ao se tornar a primeira negra a protagonizar uma novela em pleno horário nobre da principal emissora do Brasil, com a Helena de Viver a Vida, de Manoel Carlos.

 

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Por aqui a progressão está sendo lenta, mas acontecendo. Desde meados dos anos 2000, os personagens estão tendo mais destaque núcleos, e vez ou outra vistos em ocupações sociais de melhores condições. Atualmente um dos exemplos mais claros é a comédia Mr Brau, série exibida pela Rede Globo, e que vem fazendo sucesso. A atração é estrelada pela própria atriz ao lado de seu marido, Lázaro Ramos, que na história também interpretam um casal bem sucedido da mídia. Há muito o que melhorar, mas estamos no caminho.

Na TV americana, por sua vez, os personagens negros não têm tal paradigma. Por lá os tabus foram quebrados ainda nos anos 70, com a comédia Diff’rent Strokes, conhecida por aqui como Arnold. A história de um milionário em Manhattan que adota dois irmãos afro americanos, mostrava o que Arnold e Willis enfrentaram para então serem aceitos nessa nova realidade. Vindos da periferia, eles foram bastante resistentes no começo em aceitar as coisas, e a série foi mostrando de forma gradual a evolução de tudo isso.

 

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Nos anos seguintes a comédia Cosby Show se tornou um grande marco na TV de lá, porém foi na década de 90 que as produções começaram a ganhar mais ênfase. A comédia Fresh Prince Of Bel-Air, ou também Um Maluco no Pedaço foi uma das primeiras produções a mostrar uma família de negros em condições financeiras plenamente satisfatórias. Os seis anos de duração que ela teve, mostrou que para Phillip Banks ter chegado até o topo não foi algo fácil, e muitas às vezes trama mostrando a realidade da Philadelphia de forma bastante realista, deixando explícito que o preconceito sempre houve e nunca deixou de existir até na terra do tio Sam.

Outra comédia que retratou o preconceito racial de fundo foi Everybody Hates Chris. A série biográfica sobre a vida do comediante Chris Rock era a amostra evidente do escancarado racismo que ele sofreu na sua infância, indo estudar numa escola para brancos. Naquela época isso era um verdadeiro choque, mostrando o choque por parte dos estudantes e até professores do ambiente. O humor ali sempre foi garantido, mas era algo inteligente, escancarando o preconceito sem fim.

 

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Atualmente quem vem se destacando na TV são os dramas, mais precisamente da genial e “psicopata” Shonda Rhimes. Duas das suas três séries que dominam as noites de quinta-feira no canal ABC, garantindo sucesso de audiência e crítica, possuem suas protagonistas negras.

O melhor aqui é que tanto Olivia Pope de Scandal quanto Annalise Keating de How To Get Away With Muder são mulheres negras, de garra, bem sucedidas profissionalmente, e que são modelos de referência mundial não por esses itens. E sim pelo fato de ser escancarado que para os afros americanos possam ter destaque não adianta de nada serem poderosos, porém pessoas vazias.

 

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As duas personagens arrastam multidões de fãs pelo mundo, justamente por mostrar que no fundo elas são pessoas vulneráveis, que erram, nem sempre são honestas, e são sim capazes de qualquer coisa para se darem bem, principalmente a icônica personagem da maravilhosa Viola Davis. Independente da sua cor, sexo ou religião, todos erram e têm seus defeitos.

Apesar dessa ascensão toda, nunca um negro levou um dos principais prêmios da TV americana, o  Emmy Awards. Somente esse ano que esse quadro mudou, após Viola levar o prêmio de melhor atriz de drama por seu brilhante trabalho em Murder. É claro que esse momento foi algo que entrou para a história, depois de tanto tempo, e a estrela fez um discurso para se aplaudir de pé.

 

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A FOX também está pegando a carona e mostrando protagonistas do gênero, tendo Empire como exemplo claro. A maior audiência da TV aberta, aborda também a disputa de poder, ambição e cobiça de um empresário musical e sua família, que eram pobres e com o tempo foram enriquecendo. A série é um tapa bem dado de que ter personagens afro ricos não é sinônimo de perfeição, muito pelo contrário, o lado podre de onde uma pessoa é capaz de ir por poder, independente das circunstâncias também são válidas aqui.

 

Empire season 2

Portanto, todos os dias são da consciência negra, pelo menos na TV o caminho está tendo devagar, porém bons passos.