A nova série documental da Netflix, Tragédias Coreanas – Histórias de Sobrevivência, mergulha em alguns dos episódios mais sombrios da história recente da Coreia do Sul. Logo em seus dois primeiros episódios, o foco recai sobre a Brothers’ Home, um suposto centro de acolhimento que, por trás dos muros, escondia um cenário de abusos, trabalhos forçados e mortes.
O resultado é um retrato devastador de um período em que o governo militar do país, sob o pretexto de “purificação social”, institucionalizou a violência contra milhares de cidadãos — muitos deles nem sequer pertencentes ao grupo que dizia proteger.
O que era a Brothers’ Home? Tragédias Coreanas explica
Tema dos episódios 1 e 2 de Tragédias Coreanas, ela foi instalada no distrito de Buk, em Busan, e ativa entre 1975 e 1987. A Brothers’ Home era apresentada como um abrigo para moradores de rua e jovens infratores. A propaganda prometia moradia temporária, alimentação saudável e oportunidades de trabalho que seriam remuneradas e acumuladas para garantir um recomeço digno. Na prática, no entanto, o que se via estava muito distante dessa imagem.
O contexto político da época ajuda a entender o surgimento de locais assim. Sob regime militar, a Coreia do Sul implementou um programa nacional de “purificação social”, com a ideia de retirar das ruas os pobres e desamparados para, supostamente, promover o progresso. Com a proximidade das Olimpíadas de Seul, em 1988, havia também a pressão para “limpar” a imagem das cidades aos olhos do mundo. Nesse cenário, instalações como a Brothers’ Home proliferaram — muitas delas privadas, mas com aval e apoio das autoridades.
As atrocidades por trás dos portões
Os relatos apresentados nos episódios 1 e 2 de Tragédias Coreanas, vindos de sobreviventes como Choi Seung-u, Han Jong-seon e Lee Hye-yul, revelam um sistema pautado na brutalidade. Muitos dos internados nem sequer eram moradores de rua: estimativas apontam que cerca de 90% das pessoas levadas para o local tinham família, casa e, em alguns casos, frequentavam a escola. Eram sequestrados por policiais ou enganados para entrar nas “instituições de reabilitação”.
Dentro do complexo, o cenário era de horror. Os internos, inclusive crianças de 7 e 8 anos, eram obrigados a trabalhar exaustivamente em obras públicas e privadas sem qualquer pagamento. As condições eram desumanas: alimentação feita com restos impróprios para consumo, ausência de higiene e violência física constante. Casos de abuso sexual eram comuns, assim como punições cruéis por infrações mínimas ou inexistentes.
O saldo foi trágico: mais de 600 mortes confirmadas, muitas por espancamento. Corpos eram enterrados às pressas em terrenos próximos, sem caixões ou registros, e alguns foram encontrados anos depois durante construções. Testemunhos relatam até que ferimentos graves eram agravados propositalmente, com sal jogado sobre cortes abertos, para causar dor extrema.
O verdadeiro objetivo
Com o tempo, ficou claro que o propósito da Brothers’ Home ia além de “reabilitar” ou “acolher”. O próprio filho mais novo do fundador, Park Cheon-gwang, admitiu no documentário que seu pai, Park In-geun, mantinha contato direto com o presidente Chun Doo-hwan, grande defensor da “purificação social”. O governo e a polícia eram parte integrante do processo, premiando agentes que capturassem “vagabundos” e fechando os olhos para os abusos.
Os internos eram, na prática, mão de obra escravizada para obras de infraestrutura, como estradas e pontes. Os lucros iam para os administradores do local e seus aliados, enquanto as famílias das vítimas enfrentavam dívidas e desesperança na busca por seus parentes.
A impunidade dos culpados
Em 1986, denúncias começaram a ganhar força e a Brothers’ Home foi fechada. Park In-geun chegou a ser preso, mas não pelos crimes de tortura e assassinato. Foi condenado a apenas dois anos e meio de prisão por corrupção e desvio de verbas — uma punição irrisória diante da magnitude das atrocidades.
Após cumprir pena, mudou-se com a família para a Austrália, onde viveu confortavelmente até morrer em 2016. Outros envolvidos, como o pastor Lim Young-soon, também fugiram do país e escaparam de qualquer responsabilização. A ligação com autoridades de alto escalão parece ter garantido essa rede de proteção até hoje.
A luta das vítimas por justiça
Como vemos em Tragédias Coreanas, décadas depois, sobreviventes continuam exigindo um pedido formal de desculpas do governo e da polícia, que nunca reconheceram oficialmente o papel que tiveram na tragédia. Embora haja decisões judiciais favoráveis à indenização, o governo sul-coreano recorreu para evitar os pagamentos. Enquanto isso, muitos ex-internos sofrem sequelas físicas e psicológicas graves — e alguns não resistem, seja por doenças decorrentes das agressões, seja por suicídio.
O único integrante da família Park que manifestou arrependimento foi Cheon-gwang, mas seu pedido de desculpas é visto por muitos como insuficiente e pouco genuíno.
Por que essa história importa
Ao expor a verdade sobre a Brothers’ Home, Tragédias Coreanas – Histórias de Sobrevivência não apenas resgata a memória das vítimas, mas também denuncia o quanto regimes autoritários podem instrumentalizar o discurso de “ordem” para legitimar abusos. A série provoca reflexão sobre como sociedades lidam com seu passado e como, muitas vezes, a justiça falha em proteger os mais vulneráveis.
Os episódios 1 e 2 de Tragédias Coreanas deixam claro que a história dessa instituição não é um caso isolado, mas parte de uma rede de violações sistemáticas que, por anos, ficaram ocultas. Ao dar voz aos sobreviventes, o documentário da Netflix cumpre um papel essencial: impedir que o silêncio e a impunidade sejam o capítulo final dessa tragédia.