O segundo episódio de Tremembé, série do Prime Video que expõe os bastidores da penitenciária mais famosa do país, trouxe de volta à tona um nome real e polêmico: Acir Filló, ex-prefeito de Ferraz de Vasconcelos e jornalista, condenado por lavagem de dinheiro e fraudes em licitações públicas.
Na produção, Filló aparece ajudando Alexandre Nardoni a reconstruir, através de uma maquete, o crime pelo qual foi condenado — numa tentativa simbólica de provar sua inocência.
Na vida real, Filló foi uma figura influente da política paulista até ser preso em 2017. O Ministério Público de São Paulo apontou que, durante sua gestão, ele aumentou o patrimônio em 31 vezes, estruturando um esquema de desvio de recursos públicos que envolvia dispensas indevidas de licitação, superfaturamentos e direcionamentos de contratos.
Em 2020, ele foi condenado a 13 anos e quatro meses de prisão em regime fechado, além de multa e perda de bens avaliados em cerca de R$ 5 milhões.
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O livro proibido: “Diário de Tremembé – O Presídio dos Famosos”
Durante o período em que esteve preso no Centro de Detenção Provisória III de Pinheiros e na Penitenciária II de Tremembé, Filló escreveu o livro Diário de Tremembé – O Presídio dos Famosos, no qual relata suas experiências e interações com outros detentos notórios, como Alexandre Nardoni, Cristian Cravinhos, Roger Abdelmassih, Gil Rugai, Lindemberg Alves, Mizael Bispo de Souza e Guilherme Longo.
A obra, entretanto, foi proibida de circular pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, que manteve em 2019 uma decisão de primeira instância alegando que a publicação poderia violar a imagem de outros presos citados, todos sob responsabilidade do Estado. O relator do caso, desembargador João Morenghi, afirmou que a medida não seria censura, mas uma forma de “preservar o direito à imagem dos detentos mencionados”.
Mesmo assim, trechos do livro continuam repercutindo. A contracapa de Diário de Tremembé revela frases que foram recriadas ou reinterpretadas pela série, como Nardoni afirmando que não matou a filha Isabella, e a suposta fala do médico Carlos Sussumu, segundo Filló, sobre Abdelmassih: “Os problemas de saúde e a prisão domiciliar de Roger Abdelmassih foram uma fraude.”
Outros relatos incluem uma suposta confissão de Cristian Cravinhos, que teria dito: “Depois que o casal Richthofen foi atacado, a Suzane foi ao quarto deles e desferiu golpes.”
A repercussão e a versão ficcional
A série do Prime Video mistura fatos e ficção, mas a presença de Acir Filló serve como elo entre os crimes reais e o olhar de quem viveu Tremembé por dentro. A escolha de retratá-lo como um homem que ajuda outros detentos, como Nardoni, tem um fundo simbólico: o de alguém que busca se redimir através da narrativa — a mesma que tentou construir em seu livro proibido.
Enquanto a defesa do ex-prefeito tenta recorrer para liberar a circulação da obra, Tremembé reacende o interesse do público por essa figura ambígua, que transita entre o político condenado, o escritor censurado e o personagem que agora vive uma nova existência na ficção.