A série Tremembé, do Prime Video, vem despertando curiosidade não só por reunir os nomes mais conhecidos da crônica policial brasileira, mas também por revelar personagens que, até então, passavam despercebidos fora dos muros da prisão. Entre eles está Sandra Regina Ruiz Gomes, a Sandrão, interpretada com intensidade por Letícia Rodrigues.
Na trama, ela é retratada como uma figura dominante dentro da penitenciária e peça central no triângulo amoroso com Suzane von Richthofen (Marina Ruy Barbosa) e Elize Matsunaga (Carol Garcia). Mas quem foi, afinal, a verdadeira Sandrão — e o que é fato ou dramatização?
A verdadeira Sandrão por trás da série
De acordo com reportagem de O Globo, Sandra Regina Ruiz Gomes foi condenada em 2003 a 27 anos de prisão pela participação no sequestro e assassinato do adolescente Talisson Vinicius da Silva Castro, de 14 anos, em Mogi das Cruzes (SP).
Na época, Sandra — conhecida como Galega — tinha 20 anos e foi apontada pela polícia como autora das ligações de resgate para a família. O menino foi encontrado morto, com um tiro na cabeça, amordaçado com uma echarpe feminina, e com as mãos e os tornozelos amarrados. O crime chocou a cidade, e Sandra chegou a admitir envolvimento, embora alegasse ter sido obrigada a participar.
Com o tempo, Sandrão se tornou uma figura temida e respeitada dentro do sistema prisional. Após agredir um agente penitenciário em 2011, foi transferida para a Penitenciária Feminina II de Tremembé — onde, segundo a Folha de S.Paulo, ganhou fama de “barra pesada”, mas também se destacou em atividades sociais, como mestre de cerimônias de concursos de beleza internos.

Os relacionamentos com Suzane e Elize
A notoriedade de Sandrão veio anos depois, quando, ainda presa, ela iniciou relacionamentos amorosos com Elize Matsunaga e, posteriormente, com Suzane von Richthofen. O Globo lembra que as duas relações são retratadas na série em ordem cronológica: primeiro com Elize, depois com Suzane — com quem chegou a “casar” dentro do presídio.
Esse “casamento” consistia em um termo de compromisso sem valor legal, mas que garantia à dupla o direito de frequentar a ala de casais. O relacionamento ganhou repercussão nacional em 2014, e Sandrão passou a ser citada como uma das presas mais conhecidas de Tremembé.
Em 2015, ela conseguiu autorização para o regime semiaberto. Hoje, segundo O Globo, vive em liberdade, já separada de Suzane e levando uma vida discreta, sem aparições públicas ou notícias recentes.
A Sandrão de Letícia Rodrigues
Para dar vida à personagem da série Tremembé no Prime Video, a atriz Letícia Rodrigues, de 35 anos, passou por um processo intenso de transformação. Em entrevista à revista Glamour, Letícia contou que raspou o cabelo, abandonou qualquer maquiagem e mergulhou em uma preparação física e emocional profunda.
“Fomos cortando o cabelo aos poucos para eu sentir essa ‘nova cabeça’”, relatou a atriz, descrevendo o impacto da caracterização.
O trabalho contou com apoio da caracterizadora Britney Federline e da figurinista Flávia Lhacer, além de preparação com Maria Laura Nogueira e Carol Fabri. O processo levou cerca de dois meses e foi descrito como “minucioso e visceral”.
A ausência total de maquiagem e o cabelo moicano descolorido foram elementos que a ajudaram a incorporar a crueza da personagem.
“Me libertar do desconforto de mostrar os poros, as marcas e as manchas me deu uma liberdade que eu ainda não tinha experienciado”, afirmou Letícia.
A atriz também contou que a caracterização impactou sua vida fora do set:
“Eu não me sentia bem indo comprar carne moída com um moicano descolorido. As pessoas me olhavam diferente, como se eu tivesse virado outra pessoa.”
O simbolismo de Sandrão em Tremembé
Na série, Sandrão representa a força e a contradição das mulheres encarceradas, ao mesmo tempo em que serve como ponte entre figuras conhecidas — como Suzane e Elize — e a realidade da penitenciária. A diretora Vera Egito, responsável pela adaptação dos livros de Ullisses Campbell, afirmou ao Estadão que a série organiza os fatos reais dentro de uma linha narrativa dramática, mas sem distorcer a essência dos acontecimentos.
Ou seja, a Sandrão de Letícia Rodrigues é uma versão ficcional de uma história real, com detalhes e emoções construídos a partir de pesquisa e interpretação, mas sempre baseados em fatos documentados e registros jornalísticos.

O que é fato e o que é ficção
- É verdade: Sandra Regina Ruiz, a Sandrão, realmente existiu, foi condenada por sequestro e assassinato, e teve relacionamentos com Elize Matsunaga e Suzane von Richthofen dentro de Tremembé.
- É ficção: A série dramatiza os encontros, diálogos e conflitos pessoais — a forma como os relacionamentos se desenvolveram é uma recriação artística, e não uma reprodução literal.
Uma atuação de entrega e desconforto
Letícia Rodrigues definiu a experiência como “um mergulho no desconforto”.
“Sou uma pessoa doce, e nas primeiras diárias percebi que estava muito diferente. Era como guiar um megazord de dentro”, contou à Glamour.
O resultado é uma das atuações mais comentadas da produção: sem glamour, sem artifícios e com uma entrega física e emocional total, que faz da personagem Sandrão uma das presenças mais marcantes de Tremembé.
“Sou uma contadora de histórias, e nem sempre é fácil contá-las. Mas o Daniel Lieff, nosso diretor magnífico, me deu uma lição importante: ‘Lê, é tudo faz de conta’. E tem um sentimento que só o faz de conta pode nos trazer”, conclui a atriz.