A estreia de Tremembé (Prime Video) reabre um capítulo sombrio da história recente brasileira ao retratar o ex-médico Roger Abdelmassih, por anos celebridade da reprodução assistida e, desde 2010, condenado a 278 anos de prisão por dezenas de estupros contra pacientes sedadas.
A série — inspirada nos livros de Ulisses Campbell e em casos reais ocorridos na penitenciária conhecida como “prisão dos famosos” — encara o contraste entre a imagem pública do “milagreiro” e o rastro de violência por trás do consultório de luxo em São Paulo.
Do estrelato à queda
Durante décadas, Abdelmassih cultivou fama e prestígio: presença em programas de TV, capas de revista, pacientes famosas e uma promessa de índices de sucesso acima da média nos tratamentos de fertilização.
Em 2009, porém, uma onda de denúncias rompeu o silêncio: mulheres relataram ter sido estupradas enquanto estavam sob sedação em procedimentos de coleta de óvulos e implantação de embriões. Em 2010, ele foi condenado; chegou a recorrer em liberdade e fugiu para o Paraguai, até ser recapturado em 2014. Desde então, cumpre pena em São Paulo, em unidade hospitalar penitenciária, em razão do estado de saúde.
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Relatos de vítimas — como o de Vana Lopes, que descreve ter acordado com o médico sobre seu corpo, sem conseguir se mover — expõem o padrão de ataque durante a vulnerabilidade máxima das pacientes. Ex-funcionários apontaram que a equipe “sabia que ele mexia com as pacientes”, enquanto o próprio Abdelmassih, à época, tentou desqualificar as denúncias alegando “alucinações” provocadas por anestésico — tese rejeitada pela Justiça.
Como Tremembé aborda Abdelmassih
Na série, Anselmo Vasconcelos interpreta Abdelmassih. O ator relata um processo de caracterização impactante — envelhecido, semblante duro — e uma preparação focada no corpo para encarar cenas de violência sem “romantização” do criminoso.
O recorte dramatúrgico segue a proposta de Tremembé: não recontar o crime em tom sensacionalista, mas desvelar as relações e dinâmicas de poder dentro da prisão, as tensões entre detentos célebres, e como casos de grande repercussão ressoam nos corredores do sistema.
O tom é de drama carcerário com lente social: o roteiro insiste na pergunta “o que acontece depois do crime?” — tanto para o condenado quanto, sobretudo, para as sobreviventes que reconstruíram a vida e levaram o caso adiante até a condenação. A série ecoa também a trajetória de mobilização de vítimas, o papel da imprensa e o estilhaço que atingiu a reputação do “médico das estrelas”.
O efeito Abdelmassih: confiança, poder e vulnerabilidade
O caso joga luz sobre três frentes que Tremembé evidencia:
- Assimetria de poder médico-paciente: mulheres em busca do sonho da maternidade foram capturadas por um discurso de garantias e promessas, com pacotes de tentativas pré-pagas e uma aura de autoridade incontestável.
- Vulnerabilidade sob sedação: o ambiente anestésico e a estrutura privada favoreceram o modus operandi — motivo pelo qual depoimentos convergentes tiveram papel central na condenação.
- Cultura do silêncio e quebra da represa: por anos, o peso da reputação calou denúncias isoladas. Quando as primeiras vieram a público, em 2009, outras vítimas se encorajaram, e a “barreira” ruiu.
Por que essa história importa agora
Ao inserir Abdelmassih no mosaico de Tremembé, o Prime Video não “humaniza” o crime, expõe o sistema: o brilho midiático que sustentou o abuso, as falhas de fiscalização em clínicas privadas, a lenta resposta institucional e a força das vítimas, cuja insistência levou à captura após a fuga internacional. A série cola o espectador à pergunta incômoda — como evitar que o prestígio blindado repita o ciclo? — e reforça protocolos de segurança, consentimento e transparência em ambientes médico-hospitalares.
No fim, Tremembé reencena a queda de um ícone e devolve o foco às sobreviventes. Ao fazer isso sem espetáculo, mira onde interessa: responsabilização, memória e prevenção.