Tudo em família – The Sopranos

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A primeira vez que vemos Tony Soprano ele está na sala de espera do consultório psiquiátrico que se tornaria um dos principais cenários da série. O primeiro frame traz o homem solitário, preso entre o estreito espaço entre as pernas de uma pequena estátua. Não é o modo mais típico de se revelar o protagonista da história, o herói. Logo nos primeiros segundos, portanto, The Sopranos já subverte os conceitos e nos revela: Tony não é um herói, é um anti-herói; além disso, ele não é o Homem da Máfia poderoso e indestrutível, mas um homem comum, cheio de problemas e decisões para tomar.

Tony entra no consultório e começa a contar sua história. Aos poucos, descobrimos que o sujeito tem praticamente duas vidas, e que muitas vezes elas se cruzam. Uma é a vida do pai de família, o homem que ama a esposa, mesmo tendo diversos problemas em seu relacionamento; o homem que ama os filhos, mas luta para entendê-lo e acompanhá-los em seus ritmos estranhos. A outra vida é aquela que leva no mundo do crime, como o chefe da família Soprano. A partir do absolutamente brilhante episódio piloto, The Sopranos mergulha na psique e no cotidiano de Tony e suas duas famílias. O que se vê dali em diante, em 86 sólidos e marcantes capítulos, é o desenvolvimento de uma das melhores e mais importantes séries da história da televisão. A atual Era de Ouro da TV e todos os recentes sucessos devem – e muito – à obra-prima de David Chase.

Woke Up This Morning – O Início

 

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A ideia de David Chase sempre foi acompanhar um chefe da máfia através da ótica de um homem comum. Por mais que esteja envolvido no mundo do crime, Tony é um sujeito que acompanha sua filha até a faculdade, levanta-se pela manhã e apanha o jornal na frente da casa, toma café com a família, assiste jogos filho e vai à psiquiatra. A ideia de ter um mafioso abalado psicologicamente e, principalmente, com síndrome do pânico, esteve presente desde o início. Chase pensou na história como se fosse um filme, mas decidiu adaptar a trama original para se tornar uma série de TV.

No processo, Chase criou a família baseado em sua própria dinâmica familiar. Os problemas de Tony com a mãe, também vieram da relação pessoal do roteirista, assim como as visitas ao psiquiatra. Chase queria salientar que as famílias da máfia não estão sempre sob forte violência, trocando tiros e matando uns aos outros. A vida dos mafiosos pode ser bem ordinária, na verdade, com uma explosão ou outra de tempos em tempos. O objetivo, então, sempre foi mostrar a relação de Tony com sua família e seus negócios, como se fosse um homem trabalhador comum, e não um matador sanguinário vingativo.

Don’t Stop Believin’ – O Fim

 

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The Sopranos convergiu em uma das melhores finales já feitas. Muitos criticam o anticlimático final em aberto, mas o fato é que David Chase fez aquilo que fizera desde o início: subverteu o óbvio, as convenções. Enquanto muitos esperavam um desfecho épico, com confrontos e catarses, Chase entregou um desfecho dúbio, cheio de simbolismo e referências à própria mitologia. É um dos poucos finais que podemos consideram realmente surpreendentes e únicos. Ninguém poderia imaginar que a saga de Tony Sopranos terminaria do jeito que terminou. E isso é, acredite, o melhor de tudo.

De todo o excelente episódio final, são os minutos finais que marcam. Tony entra no Holsten’s, um restaurante, e caminha até sua mesa. Don’t Stop Believin’, da Jouney, começa a tocar. Tony está sentado de frente para a porta do estabelecimento. A porta abre algumas vezes, e Tony vê alguns clientes entrar. A porta abre, e ele vê a esposa. Tempo depois, a porta abre, e ele vê o filho entrar. Segundos depois, a porta abre mais uma vez. Tony levanta os olhos para ver quem está entrando e a cena é interrompida por um brusco corte para uma tela preta. É o fim de The Sopranos.

Assista a última cena da série:

 

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Muitos reclamaram do desfecho pouco lógico e um tanto vazio, mas é preciso mergulhar na cena e no roteiro de Chase para tentar entender o que acontece. Análises da cena trazem o que pode realmente ter acontecido nos minutos finais do capítulo: Tony e baleado e morto repentinamente, e por isso a cena é interrompida abruptamente. O grande barato é que é impossível ter certeza se Tony morreu ou não, o que faz com que o encerramento seja debatido até hoje. Além disso, cabe a cada fã decidir se que pensar no personagem vivo ou morto. Não cabe ao roteirista definir o futuro do personagem, mas sim deixar que o público imagine o melhor destino para o homem que acompanhou durante anos. Foi uma forma genial de deixar Tony nem vivo, nem morto, mas eterno.

white_draper_sopranoO Legado dos Sopranos

The Sopranos foi a série que colocou a HBO definitivamente no mapa como uma das emissoras e produtoras de TV mais importantes das últimas décadas. Com a história de Tony e sua família de mafiosos, o canal tornou-se sinônimo de qualidade técnica e narrativa. Depois da série, houve uma revolução no modo de produzir e contar uma história na televisão. Durante muito tempo, a TV foi conhecida como uma espécie de primo pobre do Cinema. Depois de Sopranos, as telinhas começaram a rivalizar com Hollywood. Hoje, muitos autores e artistas migram para a televisão em busca de liberdade criativa e qualidade.

The Sopranos, portanto, merece respeito não por ser legitimamente uma das melhores séries da história, mas por ser, também, uma das mais importantes. O viés cinematográfico da produção elevou os níveis da TV; a narrativa original e afiada, fez com que os roteiristas repensassem o modo de se contar histórias. E mais: com a série, a TV a cabo tira a TV aberta do trono e os anti-heróis tomam conta. Você não conheceria Don Draper, Gregory House ou Walter “Heisenberg” White sem Tony Soprano. James Gandolfini e seu inesquecível mafioso abriram portas para diversas outras histórias e personagens que se tornaram ícones.

Matheus Pereira

Matheus Pereira

Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.

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