A TV ainda pode nos surpreender?

Imagem: Arquivo Pessoal

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Depois de uma pausa nos temas mais “ácidos”, meu Editorial desta semana se faz inteiramente numa questão não só complicada, mas também consideravelmente polêmica. Afinal, embora esta seja uma Fall Season com algumas surpresas gratas – Timeless sendo uma das principais – a idealização de “sucessão” construída em volta de Westworld exemplifica o já bastante gasto problema (recorrente nestas minhas traquinagens de domingo): a questão da criatividade na TV.

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Mas antes de prosseguir, ou antes que o meu leitor abandone o texto (considerando o quanto isso já foi exaustivamente discutido aqui), esta não é outra de minhas tentativas de crítica à quantidade de reboots e revivals desnecessários e que em nada acrescentam à qualidade de suas franquias, nem a televisão como um todo. Eu, mais do que ninguém, sei o quanto já gastei linhas com isso. A jornada na qual embarcaremos aqui é de imaginário e expectativa, não de lamentação. Afinal, embora questões de outras ordens (especialmente comerciais) nos façam esquecer disso, a TV, além de ser uma indústria colossal, é baseada em entretenimento, e a capacidade de criar, recriar e quebrar expectativas é um elemento chave nisso.

E não me entendam mal, a TV também é feita de previsibilidade, estrutura narrativa de qualidade e de trocentas outras coisas que já estamos cansados de saber. Mas a surpresa ainda é o elemento que fala mais alto. Foi a surpresa com a qualidade de The Exorcist que mudou as opiniões das massas e até de algumas partes da crítica especializada – não este que vos escreve, but nervetheless… – quanto a qualidade e necessidade da série. É esta surpresa, o mero ato do inesperado… é o segundo que nos faz prender a respiração que ainda move e direciona massas quando se trata de entretenimento. E embora isso pareça não ser muito (ou talvez já não seja realmente muito), é esse princípio de surpreender, ou melhor, é a falta de novas maneiras de fazê-lo que constituí a diferença entre aquilo que nos acostumamos a aceitar como qualidade e a quantidade infinita de possibilidades que poderíamos ter.

Sim, a TV avançou muito. Sim, moderadamente, há surpresas todas as vezes que viramos uma esquina, digo, toda vez que assistimos a um novo episódio. Mesmo assim, a cada episódio que passa, a cada novo ou velho capítulo, a sensação de que algo não se encaixa, de que mergulhar nesses ensaios de realidade (ou da falta dela) com tempo marcado para acabar geram uma inquietude, uma insatisfação, que se aproveitada poderia reescrever a maneira como percebemos tudo.

Obviamente não estou falando da realidade em si. Afinal, já disseram uma vez, que “há muito que não serve para a realidade” e, atrevo-me a acrescentar, que não serve para todas as restrições que compõem a nossa distopia cotidiana. E mesmo que isto tenha perdido o sentido, a imitação do espaço de possibilidades, do fadado “o que poderia ter sido” é a parte mais grossa do tecido que faz ficção. Mas, ao mesmo tempo que tal imitação faz a ficção, ela “normatiza” no plano real a distopia que habita essa “proto-realidade” ficcional, e encadeia a si mesma num ciclo de consumo imensamente problemático.

Esta é a geração que não só consome (muitas vezes sem entender), mas deseja ser parte da distopia. Que não se satisfaz com o ato de criar, mas sim em responder a pergunta do que substituirá aquilo que acaba de ser criado, onde não mais integridade ou satisfação no ter, mas sim em esperar o que se seguirá. Que deseja se ver retratado ou tomar o lugar dos “heróis” de Distritos e Labirintos, sem entender a magnitude do significado disso nem às críticas envolvidas na produção de tais narrativas.

E não é sequer esta a questão. Me propus a responder uma pergunta que pode ser respondida de muitas formas, inclusive com resposta nenhuma. É claro que a TV pode nos surpreender! Em sua plasticidade, que mesmo muito mal utilizada tem produzido sucessos que caem na falácia de criarem universos expandidos antes de se consolidarem ou de fabricarem um sucessor mesmo antes de seu fim, a TV ainda abriga tantas surpresas quanto é possível existir, e muitas outras que ainda não pudemos conhecer ou contabilizar. E a cada vez que um personagem se refaz, a cada vez que uma trama é reutilizada de uma maneira inusitada ou simplesmente quando o nonsense se torna a pedra-fundadora  de uma nova produção, as surpresas só aumentam. Contudo, enquanto a preocupação do antropofagizar for com criação de novos-velhos sucessos instantâneos, o cerne do texto só será enfraquecido. E realidade ensaiada só projetará na realidade “real” a aceitação, a incorporação, o desejo absurdo de pertencimento a distopias sem fim, ao lado de lá do espelho negro.

Então (e por fim) sim, não nos faltam surpresas. Agora se pergunte se é o tecido dessas surpresas que queremos projetar na realidade. Se é está a linha do ficcionalmente aceitável. Porque é esta linha que marca a nossa criatividade, e pior: esta é a linha que usamos para moldar o real (e os limites desse real e do que é “aceitável” nele) que nos cerca. Podemos conviver com isso?

Inspirado pelo retorno de Black Mirror e pela morte de Steve Dillon (1962-2016).

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