Quando Twisters foi anunciado, a reação inicial parecia previsível: mais um legado tardio de um blockbuster dos anos 90 tentando se sustentar apenas pela memória afetiva. Mas o filme faz algo raro nesse tipo de projeto. Ele entende exatamente o que tornava Twister inesquecível e constrói sua identidade a partir disso, sem tentar transformar o passado em algo mais profundo do que ele realmente era.
E talvez esse seja o grande acerto de Twisters: não romantizar demais o original. O filme de 1996 nunca foi lembrado por personagens complexos ou uma trama sofisticada. O que ficou foi o espetáculo, a sensação de caos e a experiência quase física de ver tornados destruindo tudo pelo caminho. O novo filme sabe disso e não tenta reinventar a roda.
Um legado respeitado, não copiado
A estrutura de Twisters dialoga claramente com o clássico: alguém que abandonou a caça a tempestades é puxado de volta para o olho do furacão, conflitos éticos surgem no meio do caminho e a ciência divide espaço com adrenalina pura. Só que, desta vez, o tom é mais consciente.
Kate Cooper, vivida por Daisy Edgar-Jones, carrega um trauma real. Diferente do clima quase cartunesco do original, aqui as consequências dos desastres são levadas a sério. Há peso emocional, culpa e medo. Isso dá ao filme uma âncora dramática que o Twister dos anos 90 nunca teve – e nem precisava ter.
Espetáculo com senso de realidade
Mesmo com essa base mais dramática, Twisters não esquece sua missão principal: entregar tornados em escala máxima. E entrega. As sequências de destruição são intensas, imersivas e filmadas de forma mais crua. Não há aquela estética de “monstro cinematográfico” surgindo ao longe. A câmera está no meio da lama, do vento, dos destroços.
Isso torna tudo mais opressor. Os tornados deixam de ser apenas espetáculo visual e passam a ser ameaça constante, algo que pode matar qualquer um a qualquer momento. O filme entende que, hoje, o público espera um pouco mais de responsabilidade ao lidar com desastres naturais reais.

Um elenco que sustenta o caos
Grande parte do sucesso vem do elenco. Daisy Edgar-Jones segura o filme com facilidade, criando uma protagonista que é ao mesmo tempo vulnerável e determinada. Glenn Powell, como Tyler Owens, injeta carisma, humor e um tipo perigoso de irresponsabilidade que faz sentido dentro da narrativa. A dinâmica entre os dois funciona porque não tenta copiar Helen Hunt e Bill Paxton, mas criar algo próprio.
Anthony Ramos completa o trio central com humanidade, funcionando como o ponto moral da história. E o elenco de apoio é tão afiado que dá a sensação de um grupo real, não apenas peças de roteiro esperando para serem descartadas.
Entre a diversão e o respeito
Twisters é consciente do próprio exagero. Ele sabe quando pode abraçar o absurdo e quando precisa frear. Há momentos cientificamente improváveis? Claro. Mas o filme constrói tão bem seu tom que isso nunca quebra a imersão.
No fim, o longa encontra um equilíbrio raro: trata os desastres com respeito, sem perder o espírito de entretenimento desenfreado que fez do original um sucesso. Não é um filme perfeito, nem tenta ser. Mas é honesto, empolgante e sabe exatamente por que existe.
Não à toa, o filme está no Top 1 da Netflix. Twisters prova que honrar um legado não significa viver preso a ele. Às vezes, basta lembrar do básico: viemos pelos tornados. E eles valem cada minuto da viagem.