Um Ano para Recordar

Imagem: Looney Tunes Wiki

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Ah, 2016… Parece que foi ontem que nos deliciávamos com “The Abominable Bride”, o episódio de Ano Novo de Sherlock e agora, sentamos juntos para o nosso último Editorial do ano. E não me entendam mal; apesar do título que descaradamente tomei do maravilhoso revival de Gilmore Girls (que me deu parte da ideia para o texto), não falaremos especificamente do revival; também não vamos revisitar cada linha ou crítica – prudente ou não – que povoaram os meus textos nesse ano.

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Na verdade, desta vez, faremos o check-out do ano olhando para uma coisinha ou outra que já vimos e continuaremos a ver em 2017, porque é exatamente este o conceito chave de toda essa traquinagem: repetição.

Fácil de notar, difícil de compreender e impossível de ignorar, a repetição é a verdadeira pièce de résistance injustiçada da indústria de entretenimento. Afinal, não é preciso um crítico literário para apontar o quanto as produções ocidentais seguem quase que religiosamente a jornada do herói de Joseph Campbell, fazendo uso constante e repetitivo de mecanismos de tal forma que uma “fórmula” de se produzir entretenimento é facilmente abstraída de qualquer produção da última década.

As eternas dualidades entre personagens, as rivalidade, as dicotomias, a discussão crescente dos problemas dos young adults… tudo isso se repete na TV, no Cinema, na Música e na Literatura, tão constantemente que essa fórmula já se tornou o nosso estranho natural, a nossa realidade “by default”, da qual qualquer desvio imediatamente resulta num título de genialidade ou extrema burrice, e tudo aquilo que se afasta demais forma uma zona fantasma, legada a certos grupos de fãs e somente a eles, em microcosmos inacessíveis a qualquer um que não seja parte daquele grupo.

E por favor, não perca a sua paciência com as minhas divagações ainda. Elas já se aproximam do fim, mas ainda há uma ou duas coisas para serem ditas, porque o fato é que até mesmo apontar para a repetição banal parece tão banal e pretensioso que leva as pessoas a tacharem o crítico antes mesmo de se depararem com o “coração” da crítica, e é a essa encruzilhada que quero apontar.

Chegamos a um ponto de tanta saturação, de tamanha repetição que até mesmo falsear a realidade perdeu o sentido. Rótulos de genialidade ou baixa qualidade não são mais embasados, e qualquer mínimo detalhe vira argumento suficiente, desde que ele cause suficiente zumbido nas mídias sociais. Tamanha é a banalização do absurdo que o crítico se policia (ou não) para medir o nível de rage que ele quer causar com suas palavras. Usando meios termos e comparando visceralmente para se assegurar em um dos dois “lados” da reação das massas – reação essa que é mais uma faixa de möbius do que uma real dicotomia entre “genial” e “lixo”.

Mas é aqui que desenho o meu coup de grâce. Afinal, alguém que tenha acompanhado mais de uma dessas traquinagens de domingo que escrevo, sabe que esses argumentos que levanto em si são repetição. Contudo, eles não representam igualdade, e é essa noção, essa disposição de, como crítico, aceitar certos fatos e procurar novas maneiras de encarar o objeto que é a repetição que impede que a crítica de cristalize e encontre seu fim. Porque até mesmo para olhar para a repetição do objeto, sempre haverá uma maneira “nova” de repetir tal ação. O problema não está e nunca esteve com o objeto analisado. As coisas se repetem, mas não estamos presos num tipo de loop que as irmãs Wachowski escreveriam muito bem. Pouco importa a repetição enquanto a recepção for diferente.

Cada obra, cada objeto de análise nos afeta de maneira diferente e o fato da estrutura ser cíclica nada mais é do que o perfeito testamento da natureza da humanidade. Viver é repetição, nem por isso a existência é singular.

Então realmente não importa que aquilo que vamos ler, ouvir ou assistir use e abuse das fórmulas que já existem; não importa o nível de excentricidade ou alegada normalidade que você espera da produção ou da crítica. Quando você se permite apreciar, quando as coisas não precisarem ser “obras-primas” – porque toda criação de arte que sobreviva a marca do tempo é, em si, uma obra-prima – mas simplesmente serem, você será tomado por uma pluralidade de reações e emoções que antes não fariam sentido. Até porque, a realidade – seja lá o que ela for – nos ultrapassa; então não há ciência nem explicação que possa contornar o fato de que existir é repetir, e que, quando encaramos isso da maneira certa, dispensam-se explicações.

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