Um ator não morre…

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“Ator não morre… troca de papel”

Pouco antes de sentar para escrever este texto, zapeei pelos canais da TV e caí na Globo. Era o programa da Angélica, Estrelas, e nele, em um de seus quadros, Lima Duarte era homenageado. Peguei a reportagem quase no fim e pude ver apenas os minutos derradeiros. No vídeo, Duarte encontrava-se sentado ao lado da apresentadora enquanto ambos assistiam um vídeo do ator bem mais jovem, em um monólogo emocionado sobre a profissão a qual se dedicou a vida inteira. Em sua fala, o veterano comentava: “Seria melhor não viver, se na vida eu não fosse ator“.

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Mas uma das frases mais significativas é aquela que abre este texto. Isso porque o significado por trás da fala vai além de qualquer interpretação precoce. E mais: o texto, banhado em metalinguagem de Duarte, vem em um momento oportuno e curioso. Na última quinta-feira, aos quinze dias do mês de setembro, Domingos Montagner, um dos melhores atores do elenco global, faleceu. Afogou-se nas águas do rio São Francisco. Assim como seu personagem, Santo, Domingos foi levado pelo Velho Chico. O artista não teve a mesma sorte de Santo, mas Santo não teve a sorte de ser Domingos.

A grande comoção causada no país pela morte do ator vai além do choque. As circunstâncias inesperadas não tornam tudo mais tristes. O que torna tudo terrivelmente difícil de aceitar é o fato de que Montagner era um grande ator e tudo indica que era um grande homem. Todos que o conheceram são unânimes: Domingos era simpático, amável, humilde, íntegro. É só assistir vídeos de bastidores ou entrevistas do ator. O sorriso estava sempre lá, assim como sua cordialidade.

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Outra prova de que Domingos era tudo isso é o fato de que sua carreira de ator deslanchou e tornou-se gigante com uma rapidez notável. Montagner tornou-se protagonista rapidamente e foi de trabalho a trabalho sem nunca decepcionar. Além disso, seu currículo é elogiável. As novelas que participou são algumas das mais belas e elogiadas dos últimos anos. Cordel Encantado fazia sucesso pela técnica e agradava o público com a linda narrativa; Sete Vidas tornou-se um pequena joia cult, bela em texto e visual; Velho Chico, embora criticada por vários, tem duas coisas impecáveis: a beleza plástica e a presença de Domingos Montagner.

Porque ele era daqueles atores que melhoram qualquer produção. Sua presença em tela ofusca as outras. Era daqueles que chamava a responsabilidade para si, cuja câmera não conseguia recusar filmá-lo. Era um ator completo, daqueles clássicos. Se o destino não interrompesse sua vida e sua carreira de forma tão trágica, ele teria caminhado ao panteão dos grande atores da teledramaturgia nacional. Os autores e diretores já havia percebido, por isso o chamavam incessantemente às suas produções; o público também percebeu. É por isso que sua perda foi tão dolorosa. Ainda que em uma carreira rápida, seu talento logo garantiu o respeito e o carinho do povo.

Muitos não entendem o motivo da comoção em torno da morte de algum ator ou atriz. Não sabem como lamentam por alguém que nunca conheceram. E aí está o erro. Nós conhecemos. Conhecemos não só ele, o ator, mas todos aqueles que ele criou, seus personagens. Duarte, naquele monólogo, já dizia: “[…] o ator é parceiro de Deus na criação de uma nova criatura. Ou criaturas.” Quando um artista se vai, a sensação é de que um vasto grupo vai junto. Todos aqueles personagens, aqueles papeis aos quais deu vida.

A diferença é que a arte nos faz eternos. A imagem, o sentimento, o olhar, o homem ou a mulher estarão registrados para sempre na história. Ainda podemos assistir os filmes, séries e novelas daqueles artistas que já se foram. Atores não morrem. Assim como escritores, cineastas e qualquer outra pessoa que dedica sua vida à arte. Pois a arte nos faz eternos. E é a eternidade que, no fim, todos buscamos.

Por isso, Domingos agora é eterno.

Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.