Uma ficção de Peculiares

Imagens/Montagem: Arquivo Pessoal

Imagens/Montagem: Arquivo Pessoal

Não raro me deparo com a excruciante dúvida do que escrever para preencher estes Editoriais. Afinal, até eu sei o quão redundante minhas linhas devem parecer, na minha há muito falha cruzada de crítica a certos lugares da Indústria cinematográfica/televisiva.

Talvez por isso, enquanto a madrugada lá fora recebe o primeiro gosto da manhã e eu leio as linhas que mais cedo escrevi (que provavelmente, sobrevivendo a minha revisão, serão as linhas que você se depara agora, ao ler o Editorial desta semana), eu tenha tomado o tempo para acrescentar esta introdução que celebra a peculiaridade da ideia súbita em volta da qual construí todo o texto. Uma ideia que veio, como as minhas nada sutis insinuações já devem ter apontado, dos desenrolares de uma sessão de fim de noite d’O Lar para Crianças Peculiares, a mais nova traquinagem de Tim Burton.

É claro, o leitor não precisa se espantar aqui e abandonar o texto. Não pretendo escrever uma crítica sobre o filme e entregá-la como Editorial. Nem pretendo fervorosamente defender ou crucificar o trabalho de Tim Burton – que, embora recorrendo ao velho “plágio de si mesmo” que o diretor faz tão bem, entregou um filme que brinca com estruturas narrativas e com o todo da jornada do herói de maneiras que nem todos estão dispostos a admitir. É da maneira como o diretor adaptou a ideia de perculiar do livro de Ransom Riggs, ou melhor, é a maneira como recebi – para indiscretamente me emprestar das Estéticas de Recepção – tal ideia, de como ela encontrou meu horizonte de expectativa que me levou a tão subitamente escrever.

Formalidades teóricas deixadas de lado, peculiaridade é talvez a maior cartada de qualquer narrativa. A ideia de domar o inesperado, ou de pelo menos encontrar uma maneira de traduzir parte ou o todo de um imaginário indomado e, teoricamente, infinito, é o cerne daquilo que faz o entretenimento (e, por conseguinte, toda a indústria construída ao redor dele) aquilo que ele é.

É claro, por si só, nenhuma dessas coisas parecem mais do que divagações. Mesmo assim (ou exatamente por isso), é por estas coisas que devemos querer nos enveredar. Seja porque a indústria nem sempre lembra disso ou porque ela tem tentado e continua, incansavelmente, tentando redescobrir e reformular o limite de fantástico e impossível que ela nos oferece – tanto pelo caminho do verossímil quanto pelo caminho do absurdo. E enquanto uma nova Fall Season, cujos méritos e deméritos não discutirei, se desenha, é impossível negar o quanto a indústria tenta, mesmo que por caminhos há muito desgastados, alimentar, satisfazer e, às vezes, sanar a necessidade do telespectador por toda uma miríade de expectativas, de imaginários, de devaneios que vão das mais iluminadas às mais sombrias naturezas… tudo isso enquanto tenta, tão desesperadamente quanto àqueles que a consomem, emular ou, em raras ocasiões, realmente produzir pertencimento.

O imediatismo de tudo, ou melhor, a maneira como a gigantesca efemeridade inerente a todas as coisas foi largamente intensificada nos últimos tempos nos deixa cada dia mais próximos de um não-ser de realidade, onde a fronteira daquilo que espaço de criação compartilhado e individual desaparece rapidamente. Este espaço de não-ser, que serve a tantos propósitos e a nenhum simultaneamente é parte daquilo que faz a Arte o que ela é, especialmente quando olhamos para a narrativa e seus suportes. Aquilo que a economia de meios tão bem explica tem ao mesmo tempo se perdido e atuado mais ferozmente do que nunca na TV que nos é entregue. O grande problema é que, enquanto o telespectador continua pronto para o espetáculo de singularidades, o outro lado da situação esqueceu de que é por não primar o espetáculo que o verdadeiro singular é produzido.

A cada dia mais, especialmente entre os Millennials (embora seja um dilema que todos vivenciamos em algum ponto), o desejo de pertencer a tantos retratos distópicos de “realidade” que a ficção entrega cresce. Seja pela básica necessidade humana de sentir parte de algo, de se sentir entendido, ou simplesmente como uma resposta a crescente maré do imediato-efêmero que o cotidiano se transformou. E em seu desespero de produzir lucrar, o não-fazer foi deixado de lado. O lugar de corte, a negação da (ou talvez a consciência do quão inevitável ela é) finitude gera cada dia mais produções é exatamente nesse excesso que a própria finitude é deixada de lado. Muito pouco é produzido pensando no fim daquilo que se está produzindo, e embora isso não seja uma qualidade (nem inteiramente um defeito) e tenha inúmeras explicações, ainda sim é impossível não sentir o peso da saturação, não assimilar também o cansaço de tudo isso.

No fim de tudo, aquilo que sobrevive a críticas, divagações, e a todo um contentamento descontente que ainda não encontrou forma de se expressar é a peculiaridade da imaginação. Independente da forma, das redundâncias, dos defeitos e até das agradáveis surpresas, a ficção ainda luta para não perder sua essência. E enquanto a ficção continuar a fazer daquilo que não existe tecido de uma proto-realidade na qual conseguimos nos fazer pertencer (para melhor ou para pior), enquanto ficção continuar a ser a pergunta para qual não existe resposta (ou pelo menos não uma única resposta) e que provisoriamente responde a si mesma toda vez que é moldada em uma nova produção (ou na continuação de uma produção antiga), enquanto o espaço entre se e então abrigar todo um infinito e houverem aqueles dispostos a tentarem a sorte com este infinito, sempre haverá possibilidade.

Edgar Allan Poe disse uma vez que “Tudo o que vemos ou parecemos/não passa de um sonho dentro de um sonho.”. Pode não parecer muito (ou pode parecer uma piada infame com Inception, decida você), mas considerando que a realidade também não é essa coisa toda, acho que é uma conclusão – ou uma falta dela – tão boa quanto qualquer outra. Afinal, foi exatamente essa imaterialidade que conduziu você até aqui, porque terminar de maneira diferente?

Tags Editorial
Richard Gonçalves

Richard Gonçalves

Estudante de Letras, apaixonado por quadrinhos, música e cinema. Viciado em séries desde sempre. Fã de carteirinha de Doctor Who, House, Battlestar Galactica, Sherlock, 24 Horas, The Borgias, Penny Dreadful, E.R. e Lost. Aqui no Mix de Séries é editor de reviews, além de escrever as reviews de Marvel's Jessica Jones, Marvel's Agents of S.H.I.E.L.D. e The Originals.

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