Brasil, mostra a tua cara! É com essas palavras, cantadas por Gal Costa, que ambas as versões de “Vale Tudo” chegam para o público, através da TV Globo. Em 2025, a novela voltou ao ar com missões de alta dificuldade: recuperar (mais uma vez) o público fugitivo do horário nobre da Globo e fazer jus ao departamento de dramaturgia da empresa no ano em que ela completa 60 anos de existência, um marco considerável.
Diferente do que muitas análises apontaram, o público brasileiro continua apaixonado pela narrativa de folhetim. Nos últimos 12 meses, Beleza Fatal, do Max, e Pedaço de Mim, da Netflix, conseguiram provar que ainda existe uma base grande de telespectadores ávidos por uma novelinha. Além disso, mostra expectativa de vida longa para o gênero, pois o público tem se renovado e muitas novas gerações são fãs das tramas novelísticas.
Em seis capítulos, a nova Vale Tudo conseguiu virar o jogo na internet. O que pouco tempo atrás era um terreno de poucos corajosos determinados que ainda assistiam Mania de Você apenas pra criticar, agora uma chuva de comentários (diversos) tão intenso toma conta do debate virtual sobre a novela que até um perfil próprio para a Maria de Fátima (Bella Campos) – ou melhor, Fátima Aciolli – já foi criado no Instagram.
Mas, será que a primeira semana conseguiu mostrar ao que veio?
Vale Tudo traz temas que não envelhecem
Uma vantagem que a autora Manuela Dias com certeza tem na hora de adaptar Vale Tudo está no tempo de vida que o texto de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Brèsseres, de 1988, tem. A trama, que discute o caráter do brasileiro, não tem prazo de validade.
Questões sobre moralidade, a linha entre o certo e o errado e a criatividade, por vezes fora da lei, que o brasileiro apresenta pra ganhar dinheiro são exemplos de debate que existiam naquela época, ainda existem hoje em dia e muito provavelmente não deixarão de existir nunca.
Nos primeiros capítulos da nova velha trama, Dias consegue rapidamente colocar o telespectador no centro do problema, o que faz muito bem pra a empatia e pra a vontade de assistir o próximo capítulo. Para uma novela realmente atingir o sucesso com o público, é essencial que o telespectador se faça uma pergunta: “o que eu faria se estivesse no lugar desse personagem?”. Melhor ainda se ele não souber, de cara, a resposta.
E, justiça seja feita, num elenco estelar, existe um nome que tem carregado com muito talento esse questionamento pra o público, de forma viva e real: nossa nova Raquel, Taís Araújo num auge absoluto de sua carreira nas novelas.
Casamento entre atores e personagens
“Ah, mas na versão original aconteceu isso”. Essa talvez seja a frase mais chata e mais frequente que se lê nos debates quando um remake está no ar. Por mais que sirva de fonte e inspiração máxima, o texto original precisa também servir para o novo crescer, respirar e criar por conta própria. No mundo das criações, não tem como não citar a Raquel de Taís Araújo.
A protagonista muito boa de caráter pode facilmente ficar chato em qualquer história, principalmente se for numa novela que discute justamente ele. Mas, a mocinha de Araújo consegue executar tranquilamente seu papel como bússola moral do núcleo principal, ao mesmo tempo que parece existir de verdade – ela poderia ser aquela nossa vizinha, conhecida. Nos permitindo a comparação, a também ótima Raquel de Regina Duarte, em 1988, era a mocinha ideal. Em 2025, Taís consegue entregar uma mocinha real que muito nos cativa.
Vale também destacar o Marco Aurélio de Alexandre Nero. Ele pareceu repetir os clássicos do original em suas primeiras aparições, mas o maior número de cenas já mostram o potencial para uma reinvenção da jornada do personagem, mantendo a essência do vilão um dia interpretado pelo grande Reginaldo Faria.
A Heleninha de Paolla Oliveira também vale o destaque. A coadjuvante que, ao longo da trama, se vê tantas vezes no meio das histórias de outra pessoa é uma personagem difícil. Oliveira consegue trazer o peso da personagem. Infelizmente, a maioria das cenas dela são peso demais. Fica aqui a expectativa para os momentos felizes da personagem e que também sejam graciosos na mão da nova intérprete.
“Não sabendo que era impossível, foi lá e fez”


A frase, iconicamente usada no primeiro post das novas redes sociais de Maria de Fátima (Bella Campos), resume bem a jornada da personagem. Não existe trama sem conflito, não existe conflito sem antagonismo e não existe antagonismo em Vale Tudo sem Maria de Fátima.
A personagem mistura um deslumbre juvenil com uma vilania inconsequente que toda boa novela deveria ter. Também foi alvo do maior escrutínio prévio durante as chamadas do remake e Campos certamente está com um desafio imenso nas mãos.
Vamos ser justos? Acompanhar a nova versão da personagem tem sido o ponto alto de Vale Tudo. A melhor parte disso é que a Maria de Fátima agora tá diferente e tem algumas nuances de deslumbre que muito agrega ao amor “por odiar” a personagem. Maria de Fátima 2.0 não é tão fria e calculista e parece estar montando seu plano enquanto o faz. Claro que a atuação de Campos não é a mesma de todos os seus colegas veteranos, mas a entrega que tem realizado e a mobilização que a personagem causa são sinais que está tudo bem – pode descansar, Twitter!
166 capítulos pela frente
Muitas águas irão rolar ainda em Vale Tudo. Por mais que a aposta tenha sido, principalmente nos primeiros dois capítulos, seguir à risca a versão original, mudanças serão necessárias. A nova versão tem uma previsão de 173 capítulos, trinta e um a menos que a versão de 1988. Por isso, adaptações não são nem uma opção, mas um fato. E ainda bem que são!
Por enquanto, leves piadas e frases soltas mostram que Manuela Dias está jogando aos poucos sua identidade. Pra mim, Vale Tudo tem muito a ganhar com uma pegada mais próxima do que a autora já apresentou nas ótimas Justiça e Amor de Mãe, por exemplo. Por isso, seguimos atentos e animados com os próximos capítulos!