Vamos de Trash?

Imagem/Montagem: Arquivo Pessoal

Parece difícil ter uma linha de abertura para um texto que já começa pedindo passagem para um gênero que literalmente traz “lixo” no nome, certo? ERRADO! Dono de uma herança deliciosamente indigesta que junta nudez gratuita, humor tosco, o medo nonsense em sua forma mais crua e os bons e velhos banhos de sangue, o trash é talvez o lugar onde todas as possibilidades realmente estão na mesa, e onde não há medo de testar.

Claro, é preciso esclarecer algumas coisas antes de prosseguir. Roteiros ruins, falta de estética e pura baixaria fazem sim parte do gênero, mas o trash não é desculpa para más produções. Afinal, a sutileza do negócio está em ser tão ruim que a suspensão de descrença é forçada ao ponto de quebra em que bom e ruim invertem seus papéis.

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Sendo o ás na manga de alguns, a feitura de carreiras para outros – John Carpenter, Peter Jackson, estou falando de vocês – e aquele momento que sempre se retorna para medir a “evolução” de atores e diretores, essa área mais-que-cinza do entretenimento divide opiniões. E mesmo que sempre hajam aqueles que olham para o trash como Cult e aqueles que o olham com desdém, o que realmente marca o gênero é sua liberdade.

Se a Marvel hoje consegue inserir o seu humor de galhofa – que figura em todos os filmes do estúdio – e não se levar tão a sério, é exatamente porque essa indústria, apelidada de “Z” e de tantas outras coisas, abriu portas para se abraçar uma estética muito menos preocupada em se levar a sério, e muito mais preocupada em entreter.

O exército que muito erroneamente ainda tenta e falha defender The Walking Dead deve à Noite dos Mortos-Vivos de George Romero e ao Evil Dead (de ’83) de Sam Raimi por plantar a semente para a tradição de mortos-vivos e espíritos malignos no Cinema e na TV como a consumimos hoje.

H.P. Lovecraft disse uma vez que a emoção mais forte e mais antiga do homem é o medo e, no Cinema, o medo e o trash consagraram títulos dos anos ’80 e ’90 que embalaram a infância deste que vos escreve e de uma sólida parcela do mundo POP/Geek. Esse legado não é aleatório, especialmente quando se fala de terror.

O compromisso do terror trash com a crítica de valores é uma cruzada válida e ativa, e garante que não possamos negar o pior da condição humana. A loucura e paranoia abrem passagem para sujeira e demência, tão sinônimos da parte da condição humana que procuramos negar que chega a ser difícil encarar a tela. Quanto mais trash o terror, mais vividamente ele encarna tudo aquilo que a sociedade procura negar.

Filmando rápido e reaproveitando elencos, não se importando com orçamentos e limitações, a magia do trash é exatamente essa. Ao usar e abusar, seja da violência ou do riso, o amador, o profissional e o experimental sempre terão aqui uma casa, um baluarte para a imaginação, onde o exagero, a inconsequência juvenil e a boa e velha nudez nunca são demais. Certo, tudo isso vem sim acompanho de efeitos “especiais” são uma das primeiras coisas que os millenials usam para desmerecer o gênero. Mas, e com essas linhas eu trago essa divagação a um fim, talvez um pouco de tosco, um pouco do risível e do experimental não façam mal a uma sociedade que se leva tão a sério. Afinal, o que seriam dos westerns, dos procedurais e até mesmo do noir sem o trash? Então, vá de trash vez ou outra – você vai aprender mais sobre Cinema e TV do que é possível descrever.

Tags Editorial
Richard Gonçalves

Richard Gonçalves

Estudante de Letras, apaixonado por quadrinhos, música e cinema. Viciado em séries desde sempre. Fã de carteirinha de Doctor Who, House, Battlestar Galactica, Sherlock, 24 Horas, The Borgias, Penny Dreadful, E.R. e Lost. Aqui no Mix de Séries é editor de reviews, além de escrever as reviews de Marvel's Jessica Jones, Marvel's Agents of S.H.I.E.L.D. e The Originals.

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