Velho Chico: um mar de arte e história na TV

Foto: Rede Globo (Divulgação)

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Depois de quase uma década, a cidade mais uma vez dá lugar ao campo. Com texto de Benedito Ruy Barbosa – longe do horário nobre desde Esperança, de 2002 – Velho Chico traz mais do que uma trama de raiz para a TV. Cheia de nuances, e com a mesma fórmula de fases dos últimos folhetins, a nova novela do horário nobre global é tudo que precisávamos no momento.

A direção artística de Luiz Fernando Carvalho – nome responsável por Hoje é Dia de Maria e Meu Pedacinho de Chão – foi essencial para tornar os quase 60 minutos do primeiro capítulo uma experiência prazerosa. Longe da polêmica, o Rio São Francisco ganha uma nova forma nas mãos desse mestre, que já é chamado de Stanley Kubrick brasileiro. Com 2,8 mil km de extensão, é um espaço de diversidade e principalmente de muita história. Afinal, engana-se quem acha (ou quem faltou às aulas de História) que o Brasil começou no eixo sul. Sem caricaturas, mas com um exagero necessário, Velho Chico se estabeleceu em uma verdadeira obra de arte, um mosaico de sons, cores e expressões quase naturais.

Velho Chico 01

Foto: Rede Globo (Divulgação)

A arte não para por aí. Embalada por “Tropicália”, na voz de Caetano Veloso, a abertura entra uma viagem pelas margens do rio em trinta segundos (ou menos), com uma paleta de cores vibrante e singelo ao mesmo tempo. A trilha sonora ainda tem nomes regionais como Amelinha, Robertinho do Recife e Capinan, além das ótimas canções de Marcelo Jeneci, Alceu Valença, Tom Zé, Gal Costa, Chico César e tantos outros, que, a exemplo de O Rei do Gado, prometem deixar essa trama inesquecível – basta cantarolar “Admirável Gado Novo”, que as lembranças de Bruno, Luana e Rafaella.

A história se passa na cidade fictícia de Grotas de São Francisco, dividida em duas fases. O primeiro mote de 24 capítulos se passa nos anos 60, centrada na história do Coronel Afrânio, personagem de Rodrigo Santoro. Ele herda do pai (vivido por Tarcísio Meira) não só controle sobre a região, mas também os inimigos, como o Capitão Rosa, interpretado por Rodrigo Lombardi. Junto com a esposa Eulália, ele abriga os retirantes Belmiro (Chico Diaz) e Piedade (Cyria Coentro), que geram Santo.

Como tradição de Benedito Ruy Barbosa, Velho Chico também se apoia em um romance a lá Romeu e Julieta com os personagens Santo (Renato Góes / Domingos Montagner) e Maria Tereza (Julia Dallavia / Camila Pitanga), filha do Coronel Afrânio. Mais do que um romance dividido pelo ego de ambas famílias, a questão da terra e a cultura regional vão ter vontades quase próprias para manter esse casal separado. É o elemento melodramático que fazia falta na grade da Globo, e desafia a lógica, tão buscada e tão criticada em A Regra do Jogo e Babilônia, últimos títulos do horário.

Adicione a esse caldeirão a sensualidade, representada por Iolanda, a cantora vivida por Carol Castro e Cristiane Torloni. Ainda que com a forte presença do homem, a mulher tem espaço marcado – e não é subestimado – dentro das cenas. Logo de cara, mesmo que encantada pelo moreno e jovial Coronel Afrânio, Iolanda tem sua mente forte e decidida. Mesma força que vemos na interpretação de Selma Ergei como Encarnação, como aquela que – com bastante roupa – não economiza esforços para criar a sua família da maneira que lhe convém.

 

Velho Chico 03

 

Por fim, a religiosidade. É nela que a trama vai buscar o ponto de equilíbrio, o conselho, o ponto de partida e o de chegada. É a marca do Nordeste. Em meio à seca, à falta de recursos e à guerra pela sobrevivência, figuras como o Padre Romão, de Umberto Magnani, fazem o ritmo voltar aos eixos quando for necessário. Fora que uma intriga paroquiana, quem não gosta, né?

Num fervilhar de crise política e divisões ideológicas, Velho Chico reflete o lúdico e o artístico de um Brasil quase esquecido. Uma novela despretensiosa, mas artisticamente grande, reciclando clichês de maneira única, com mistério, romance e divisão que parecem irreparáveis. Receita que promete dinamizar o horário nobre da Globo.

Equipe Mix

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Perfil criado para realizar postagens produzidas pela equipe do Mix de Séries.

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