Vinyl – 1×02 – Yesterday Once More

Vinyl S01E02
Imagem: Arquivo Pessoal/Renato MP

 

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Ipso facto e pluribus unum.

Em meio a um mundo de sexo, drogas, música, extravagância, agressividade e loucura existem personagens que lhe cativam e chamam atenção mais do que tudo por seus dilemas sociais e pessoais, suas profundidades reflexivas e seus problemas com um mundo composto por algo tão cru e crível que apenas quem o vive sabe como é o sentimento, sabe como é gosto e sabe como é escutar coisas que lhe fazem uma pessoa única, rara e diferente.

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Após a sua magistral premiere, Vinyl retorna com um episódio ainda mais cativante e muito menos glamouroso, que demonstra em seus 25 minutos iniciais tudo o que a série será: Nova, fresca, rápida e excitante. Yesterday Once More” caracteriza a série com todas essas definições e outras mais. Seu brilhantismo encontra-se nas músicas que se mesclam de uma maneira muito mais do que excelente nas cenas, seja ela tocada apenas por alguns poucos segundos, implementando a elas uma característica típica de Scorsese, personificada através de artistas em concertos, como Velvet Underground, ou personificada por artistas alheios a história e que aparecem apenas para um toque de exibição e fanatismo, como Jerry Lee Lewis (Lance Lapinsky).

Muito mais do que ser uma série que focada na música, Vinyl foca-se em seus personagens que são trazidos a vida graças a excelente atuação de atores como Bobby Cannavale, Ray Romano, Juno Temple e a fabulosa Olivia Wilde. Todos esses atores trazem uma vivacidade tão enorme para seus personagens que seus dramas e pesadelos são passados diretamente para os espectadores de uma maneira incrível. Bobby Cannavale é o grande destaque desse elenco fantástico, sua atuação como Richie é ótima, este episódio trouxe ao personagens as emoções mais fortes e chamativas do personagem.

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Após ter sobrevivido ao terrível desmoronamento do Mercer Arts Center, Richie se encontra em uma mistura de sentimentos e sensações confusas, que o levam a um patamar que o trazem a realidade, lhe trazem ao seu velho espírito e a sua voracidade. Essa confusão é transmitida através da decisão de não vender a sua gravadora em uma cena dramática e cômica ao mesmo tempo. Richie está abalado – não pelo desabamento, mas pela energia do Rock n’ Roll do New York Dolls e pela descoberta de algo maior do que a sua empresa apresenta – e sobre efeito da cocaína, suas ações poderiam ser imprudentes, mas elas foram sensatas e também arriscadas. Ele sentiu que através daquela sensação calorosa, complicada e mágica que foi estar em um show underground regado a culturas diferentes e uma energia pesada e contagiante que emergia da música e da agitação e recepção do público, ele precisava tomar uma decisão: ele precisa reinventar a sua gravadora, levá-la a outra direção.

A cena em que Richie entra na sala de reuniões com seu rosto sujo e abatido, seus olhos vermelhos e sua personalidade forte e agressiva é completamente roubada pelo próprio, a atuação de Cannavale é estonteante, conseguimos sentir tudo o que o personagem está passando no momento. Rich demite toda a equipe e lhe da o prazo de duas semanas para conseguirem os seus empregos de volta trazendo a American Century Records uma banda que mude a cultura.

A decisão tomada por Richie de uma maneira imprudente e não compartilhada com seus sócios, trouxe a eles consequências graves, principalmente a Zak (Ray Romano), que além de receber um golpe certeiro em seu nariz – efetuado por Richie –, havia feito comprometimentos financeiros com a sua família devido a grandiosa quantia em dinheiro que seria embolsada com a PolyGram. Problemas com o seu relacionamento com a sua esposa e a aproximação do sweet sixteen de sua filha, fazem ele se questionar sobre certas coisas, que são apenas transparecidas através de suas reações e suas expressões. Dúvida, cansaço, tristeza, questionamentos.

Devon (Olivia Wilde) também está passando por questionamentos, só que muito mais aflitos e abrangentes. Descobrimos nesse episódio mais sobre ela e seu relacionamento com Richie, o que trouxe uma excelente participação de Andy Warhol – figura extrema do movimento pop art entre os anos 60 e 70 – e a banda experimental/psicodélica Velvet Underground. A química demonstrada entre os dois durante o episódio foi excelente, ela transparece que realmente eles formam um casal, que eles são parceiros e que eles se conhecem. O momento em que Devon abraça seu marido e ambos começam a ficar sem fala e a se emocionar é o grande ponto alto do relacionamento de ambos até o momento, é impressionante ver o quão real e emocional aquele abraço foi para ambos. A paixão e o amor dos dois é transmitida nesse abraço.

Foi também muito interessante termos durante o episódio uma interação especial entre Devon e Warhol, mostrando que ambos nutrem uma amizade forte assim como uma grande paixão pela fotografia, pela arte em si. John Cameron Mitchel conseguiu transmitir exatamente o que era Andy Warhol através de sua aparência e trejeitos típicos do artista.

O mundo de Devon é extremamente abalado quando ela vê Richie bêbado, e através de pequenas cenas e falas introduzidas no piloto nós podemos perceber que ambos tinham alguma espécie de acordo em não beber e não usar drogas. Zak fala no piloto que seu sócio não precisa usar mais cocaína por que ele já usou toda ela, isso traz um desconforto ao personagem. Quando ela vê seu marido assim, percebemos através de seu olhar perdido e parado que ela está se questionando sobre tal assunto, se Richie pode, por que ela não?

Essa sua nova era sem drogas ao lado de seu maridos trouxe uma cena que definiu todo o relacionamento de ambos e toda a pressão que Devon vem recebendo: O flashback de Devon e Richie tendo uma relação apaixonante e quente pela primeira vez, vemos na expressão dela o seu lado imprudente e selvagem, podemos notar que ela quer Richie, a cena corta para uma Devon – atualmente – abatida, pensante e descontente que combina com o trecho da música Yesterday Once More – que dá nome ao episódio – com o trecho “[…]Those wore happy times/And not long ago[…]”. Devon era contente e orgulhosa de sua vida antiga, desregulada e rebelde, agora ela é mãe e dedica-se a cuidar de seu casal de filhos, uma mudança radical em seus paradigmas.

Neste episódio Vinyl mostrou erros de continuidade que não afetam muito, mais incomodam muito, principalmente em posicionamento e em ações. Em ambos os episódios tivemos o mesmo exemplo com o mesmo personagem, Kip Stevens (James Jagger) está sempre mudando o seu posicionamento em formas muito claras, nítidas. Não é algo que prejudique todo o invólucro da série, é claro, mas é algo tão visível que ele nos tira a atenção da cena em si.

“Yesterday Once More” é um episódio excelente e que concretiza Vinyl com todos os aspectos que nos foram apresentados em seu piloto: teremos uma excelente mescla com a ficção da série com o real da Nova Iorque de 1973 – para quem não sabe o Mercer Arts Center realmente existiu e desabou enquanto uma banda ensaiava no local –, uma excelente trilha sonora, personagens complexos, complicados e problemáticos, uma estética convincente e uma história que irá muito além de uma gravadora querendo se registrar na história como o reino do Rock n’ Roll.