Wallander e a solitária busca pela justiça

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faceless-killersExistem inúmeras histórias de detetives tanto na literatura, quanto na TV e no Cinema. Sherlock Holmes talvez seja o maior expoente desse subgênero que encanta milhares de pessoas ao redor do mundo, mas há muito mais investigadores escondidos do que podemos imaginar. Nos Estados Unidos, algumas das séries que mais fazem sucesso são as policiais/criminais, cujas investigações são promovidas por grupos especializados (CSI, NCIS, Criminal Minds, Law & Order, etc.). Na terra da Rainha, por outro lado, o que faz sucesso entre o público são os detetives, sejam eles particulares e anônimos ou profissionais; o importante nas séries britânicas (e europeias de um modo geral) é que os investigadores trabalhem sozinhos ou com o mínimo de ajuda; quanto mais solitário, trágico e inteligente for o detetive, melhor.

É do lado de lá do Atlântico que nascem os grandes detetives. Nos últimos anos foram inúmeras as séries, minisséries e especiais lançados que trazem investigadores descobrindo crimes hediondos e dedicando suas vidas à busca pela verdade e pelos culpados. Para citar alguns exemplos, temos Luther, estrelada por Idris Elba; Sherlock, com Benedict Cumberbatch; Quirke, com Gabriel Byrne; Ripper Street; Whitechapel; Vera, entre outras. Dentre as melhores do gênero está Wallander, a versão inglesa para um famoso detetive da literatura européia.

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Kurt Wallander é um personagem criado pelo escritor sueco Henning Mankell em 1991 no livro Faceless Killers. Nascia, então, Kurt Wallander Mysteries, uma série que teria um novo livro lançado a cada ano e traria sempre um novo mistério para o detetive desvendar. Além disso, Mankell busca manter uma cronologia em seus livros, sendo que fatos ocorridos em livros anteriores são respeitados em obras posteriores, o que geralmente não acontece no gênero, onde cada livro trás um caso diferente, mas não mantém uma linha narrativa fixa. Ainda que seja possível ler a série fora de ordem, o ideal é que a cronologia seja respeitada

Com tantos detetives sendo criados e explorados nas mais diversas mídias, Mankell tentou modelar seu personagem com adornos mais incomuns. Wallander é um homem de meia idade, solitário, pessimista, adorador de ópera e quase alcoólatra. Kurt já fora casado e do fruto de seu relacionamento nasceu Linda, que, quando adulta, segue os passos do pai e vira uma detetive de polícia. Wallander é filho de um velho pintor, Povel, que pinta a mesma paisagem inúmeras vezes, sempre tentando achar uma nova interpretação para a imagem; além disso, seu pai começa a demonstrar sinais de demência e esquecimento, o que torna a já difícil relação com o filho ainda mais complicada. Em um universo tão triste e pessimista, Kurt deve ainda lidar com a diabetes e com o princípio de Alzheimer, doença que ameaça impossibilitar sua carreira como detetive.

 

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É isso, dentre tantos outros detalhes, que fazem de Kurt Wallander um personagem especial. Diferente de outros investigadores que demonstram inteligência acima da média, eloqüência ou força física, Wallander é um sujeito comum e trágico, cheio de problemas e sem perspectiva de futuro. Ainda assim, Mankell aborda em seus livros vários lados positivos da vida do detetive, mostrando que sempre há esperança e luz para todos.

Os livros, enfim, são um sucesso na Europa. Fenômeno na Suécia, os livros escritos por Mankell conquistaram admiradores no mundo todo, principalmente na Inglaterra, Alemanha, Holanda e França. Num total de 13 volumes, a série foi traduzida em vários idiomas e possui exemplares lançados no Brasil. Dos treze títulos, sabe-se que seis foram lançados aqui pela Cia das Letras. Como dito anteriormente, o primeiro volume lançado é Faceless Killers; o primeiro em ordem cronológica, porém, é The Pyramid, uma antologia de cinco contos lançada em 1999 que conta a origem de Wallander e seus primeiros casos. Dos treze livros, dois não têm Kurt como o foco principal. Before the Frost, lançado em 2002 (11º na ordem), trás Linda, sua filha, como protagonista. Na série inglesa, este mesmo livro foi adaptado e remodelado para ter Kurt como o investigador principal do caso.

Com um material tão rico, não tardou para surgirem adaptações. As primeiras foram filmes suecos lançados entre 1995 e 2007. Como o foco aqui é outro, vamos dar uma olhada nas duas séries baseadas nos livros de Henning Mankell.

A primeira e menos conhecida do grande público, é “Henning Mankell’s Wallander”, série sueca lançada em 2005 e estrelada por Kirster Henriksson. Dividida em duas temporadas de treze episódios cada, essa versão é fiel aos personagens e suas características, mas foge das histórias dos livros. Apenas o piloto foi baseado em uma obra de Mankell; os demais episódios trazem histórias originais. De um modo geral, é uma adaptação crua, seca e tão ou mais deprimente que os livros. Linda, assim como nos livros, também é detetive; o gosto de Kurt por ópera também é mantido nessa adaptação.

 

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Kurt Wallander da versão sueca.

 

Já na versão mais conhecida, Wallander é interpretado com maestria por Kenneth Branagh. Na série, lançada em 2008 pela BBC One, tem-se três episódios de noventa minutos por temporada. Na versão inglesa acontece o oposto do que ocorria na versão sueca: todos os episódios são baseados nos livros de Mankell, mas os personagens principais sofrem alterações significativas. Na adaptação inglesa, a filha de Kurt, Linda, não é investigadora; pelo contrário, tem aversão à profissão que, segundo ela, afastou o pai da família.

A adaptação britânica também elimina a paixão de Kurt por ópera, e ainda que o retrate como um homem solitário, é uma versão mais otimista que os livros e sua equivalente sueca. Wallander da BBC também se passa na Suécia, mas é inteiramente falada em inglês. É uma série extremamente bem feita. A direção dos episódios é fascinante, com um apuro técnico que impressiona e uma narrativa que envolve. A fotografia é um espetáculo à parte: filmada em alta definição, Wallander trás belas paisagens do sul da Suécia e mergulha os personagens em paletas dessaturadas. A impressão que se tem é que sempre chove ou está sempre nublado na região, mas quando o tempo está bom, as cores saltam aos olhos. É um esmero louvável dos responsáveis, pois além de conceber imagens belíssimas, ajudam a mostrar como o personagem se sente: o clima e a fotografia é a exteriorização dos sentimentos do detetive.

 

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Para evocar a sensação de solidão, Wallander – versão inglesa – é quase sempre mostrado isolado e sozinho no quadro, seja no canto ou nos lados da tela.

 

De todas as versões, a que mais indico é a série britânica. Branagh é o ator perfeito para encarnar o personagem e sua atuação como Wallander é tocante e cheia de nuances. Além disso, o elenco de coadjuvantes é excelente, com destaque para Tom Hiddleston, que tem papel importantíssimo nas duas primeiras temporadas.

De qualquer forma, seja nas páginas ou na telinha, acompanhar um personagem como Kurt é sempre um prazer. Não há apenas o cuidado com os casos e os culpados; o que importa são os personagens, suas vidas e seus sentimentos. Os personagens vistos nas histórias não são apenas vítimas, criminosos e números estatísticos, mas seres humanos com muito mais mistérios escondidos do que as superfícies podem conjeturar.

Matheus Pereira

Matheus Pereira

Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.

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