Baseada no premiado romance de Esi Edugyan, Washington Black chegou ao Disney+ com uma proposta ousada: transformar uma história sobre escravidão, identidade e ciência em uma aventura quase fantástica.
Com paisagens deslumbrantes, atuações sensíveis e uma produção de encher os olhos, a série promete muito — mas nem sempre entrega tudo o que poderia.
Um menino escravizado e um balão rumo à liberdade
A trama de Washington Black acompanha George Washington Black — ou Wash — um garoto negro de 11 anos, nascido em uma plantação em Barbados durante o auge do tráfico transatlântico de escravos. Sua vida muda ao conhecer Titch, um cientista excêntrico e abolicionista que também é irmão do cruel dono da plantação.
Ao se tornar protegido de Titch, Wash se envolve na construção de uma máquina voadora chamada Cloud Cutter. Mas quando é injustamente acusado de assassinato, ele e Titch fogem em busca de liberdade, enfrentando tempestades, perdas e revelações enquanto cruzam o oceano rumo à América do Norte.
Um visual impecável, com alma de filme escolar
Filmada em belas paisagens da Nova Escócia (que também representam lugares como Virgínia e Canadá), Washington Black é visualmente encantadora. A reconstituição de época é minuciosa, os figurinos são impecáveis e o elenco entrega atuações sólidas, com destaque para Eddie Karanja (Wash criança), Ernest Kingsley Jr. (Wash adulto) e Sterling K. Brown, também produtor da série.
Mas todo esse cuidado visual contrasta com o tom suavizado da história. Ao tentar tornar a série mais leve e acessível, o roteiro sacrifica parte da densidade emocional e histórica do livro. Em vez de uma narrativa com impacto, temos algo mais próximo de um drama juvenil ou até mesmo uma aula de história fantasiada — daqueles vídeos que professores exibem no fim do semestre.

Romance exagerado e diálogos que parecem letras de música pop
Se por um lado a história de Washington Black acerta ao focar na curiosidade científica de Wash e em seu amadurecimento longe do sistema escravocrata, por outro tropeça ao tentar criar um romance dramático. A relação entre Wash e Tanna — uma jovem mestiça de origem nobre — tenta ser intensa, mas é construída com frases como “Ela respira vida em mim” e “Meu tudo é melhor com você”, que mais parecem saídas de uma canção romântica adolescente.
Ao suavizar os momentos mais pesados do livro, a série se distancia do impacto que poderia ter. Vilões como Erasmus, o dono da plantação, perdem sua complexidade, e temas como racismo, identidade e pertencimento acabam diluídos em meio ao tom quase fantasioso da narrativa.
Vale a pena assistir Washington Black?
Mesmo com seus tropeços, Washington Black é uma série que desperta curiosidade. A história de Wash — um garoto que foge da escravidão para se tornar protagonista de sua própria vida — continua sendo poderosa. A produção tem coração, entrega boas atuações e, visualmente, é uma das séries mais bonitas lançadas recentemente.
Mas é preciso ajustar as expectativas. Se você procura um drama histórico com profundidade e crítica social, talvez saia frustrado. Agora, se quer uma aventura estilizada com elementos de época, ciência e descoberta pessoal, a série tem seus encantos.