Depois de cinco temporadas de assassinatos, mentiras e manipulações, YOU chegou ao fim na Netflix. E, diferentemente do que muitos esperavam, Joe Goldberg não morre. Ele vive para enfrentar o peso dos próprios crimes — mas isso não significa que ele finalmente aprendeu alguma lição.
O desfecho da série, no entanto, vai muito além do destino do protagonista. Ele oferece um comentário afiado sobre como a sociedade consome histórias de violência, idolatra criminosos e transforma monstros em protagonistas carismáticos. A última carta de Joe em especial resume tudo isso — e joga a responsabilidade no colo de quem está assistindo.
Joe finalmente é pego — mas não pelo fogo
No penúltimo episódio de YOU, Joe quase encontra seu fim em um incêndio na livraria Mooney’s, onde ele e Kate estão presos após um plano desastroso. Mas Bronte, sua última vítima em potencial, decide salvá-lo. Não por amor — mas por justiça.
Ela entende que a morte seria fácil demais. Joe merecia encarar seus crimes de frente. Merecia ser exposto, humilhado, julgado. “Você vai viver o resto da vida sozinho”, diz Bronte. E é exatamente isso que acontece.
O julgamento e os crimes expostos
No episódio final, Joe é condenado por diversos assassinatos — incluindo os de Guinevere Beck, Love Quinn, Benji, Peach Salinger e outros. Personagens como Dr. Nicky e Nadia finalmente têm seus nomes limpos. Até Harrison e Maddie, envolvidos em um crime familiar, conseguem seguir em frente com menos peso.
Bronte ainda exige que Joe repare o que fez com Beck, retirando todas as alterações que ele fez no manuscrito da autora. Uma forma simbólica e poderosa de devolver a ela sua voz — algo que Joe tentou apagar tanto quanto sua vida.


Henry diz o que todo mundo queria dizer
Na cena mais tocante do desfecho, Henry, o filho de Joe, o chama de “monstro” ao telefone. É o corte final. Com isso, a série sugere que o garoto terá uma chance real de romper o ciclo de violência — agora sob os cuidados de Kate, que também tenta recomeçar longe da sombra do pai e de Joe.
A última carta: “Talvez o problema seja você”
No último plano da série, vemos Joe na prisão, entediado, mas recebendo cartas de fãs anônimas que o veneram, descrevendo “as coisas depravas que querem que ele faça”. Uma referência direta ao culto em torno de criminosos reais — algo que acontece frequentemente na vida fora da ficção.
E então vem a frase final, carregada de ironia e provocação:
“Talvez o problema não seja eu. Talvez o problema seja… você.”
Com isso, YOU fecha o ciclo com a mesma provocação que marcou toda a série. Joe nunca foi um herói. Ele foi, no máximo, um espelho — e a série não nos deixa esquecer disso.

Um final justo — mas incômodo
O desfecho de YOU não oferece redenção a Joe. Ele termina sozinho, encarando as consequências, mas ainda se fazendo de vítima. O que incomoda é justamente isso: ele continua sendo ele mesmo até o fim. Narcisista. Manipulador. Sedutor. Um produto da própria obsessão por controle — e da nossa obsessão por personagens como ele.
No fim, YOU entrega um recado claro: talvez seja hora de refletir menos sobre Joe Goldberg… e mais sobre o motivo de termos assistido ele por tanto tempo.