Binge-watching e Streaming, ou as novas formas de consumo da TV

Imagem: Special Cable Deals
Imagem: Special Cable Deals

É inegável que os serviços de streaming se consolidam cada vez mais como a mais nova dinastia da indústria de entretenimento. Não só pelas incontáveis (e excelentes) contribuições da Netflix, mas até mesmo emissoras como a FOX ou a HBO já abraçaram os streaming como uma alternativa não só de combate à pirataria, mas de atendimento ao imediatismo de consumo – criado parcialmente pelo próprio streaming – do público.

Mas antes que possamos nos aventurar pelas próximas linhas de minhas divagações, é preciso estabelecer a diferença fundamental que norteia a ideia que será apresentada aqui. Afinal, antes de nos debruçarmos levemente sobre a maneira com que o streaming representa um espaço de mudança – se é algo bom ou terrível, caberá a nós julgar posteriormente – na maneira com que entendemos e consumimos a indústria televisiva/de entretenimento em todas as suas muitas formas… Antes de tudo isso, é preciso responder a pergunta inerente que me fez acrescentar esses parágrafos: o que é binge-watching?

Imagem: Absolute Geeks
Imagem: Absolute Geeks

A ideia de assistir constante ou compulsivamente – ou seja, o binge-watching – é ao mesmo tempo muito próxima e muito distante da velha conhecida dos seriadores: a maratona. E não me entendam mal, eu até concordo que no fim das contas, ambas envolvem assistir muitos episódios, até temporadas completas de uma vez só. Mas nós vivemos numa sociedade de millennials. O entretenimento é feito por eles e pensando neles. Eles são, feliz ou infelizmente, grande parcela do que define o horizonte de expectativa para as produções.

E se fomos capazes de aceitar o “#” transformar-se nas tão famigeradas hashtags, temos que assimilar também a transformação/evolução da maratona na sua versão 2.0, o binge-watching. Afinal, a indústria muda, o consumo muda e os tempos mudam; é mais que natural que a terminologia mude também.  Esclarecida esta questão, podemos partir para alguns dos “finalmentes”.

Para o bem ou para o mal, assim como o streaming, esse consumo acelerado/compulsivo de vários episódios/temporadas em sequência também veio para ficar. A linearidade é chave do formato capitular que as séries adotam. Sim, há produções que fazem uso de vários recursos narrativos – sendo o flashback, o flash forward e até narrativas que usam vários pontos de vista de vários personagens (isso para não mencionar as inúmeras tentativas de usar o poder do fluxo de consciência e tantas outras traquinagens que vemos todos os dias) – para tentar “adensar” essa linearidade, mas é impossível fugir completamente dela. Até mesmo os procedurais, com seus casos da semana, sempre têm algum elemento que depende da sequência linear dos episódios para fazer sentido.

É aqui, nessa linearidade, que o streaming ataca. Não impondo um novo formato, mas criando possibilidades. Afinal, quando a Netflix libera toda uma temporada de suas muitas produções originais, não existe nenhuma obrigação para que o telespectador consuma toda a temporada de uma só vez. É claro que, na cultura de imediatismo e fuga – por um medo que eu não tenho nem consigo explicar – dos “aterrorizantes” spoilers, parece fazer bastante sentido assistir a maior quantidade possível dos episódios de uma só vez, mas isso não é uma imposição do serviço de streaming e sim um exemplo claro da mudança na nossa forma de consumo desses episódios.

Há sim problemas. É aquela ideia básica… quando você passa muito tempo focado em algo, menor será a sua objetividade naquele assunto. O binge-watching retira sim parte da continuidade, borra nossa perspectiva e substitui uma parcela do suspense da espera com uma imersão instantânea – e violenta. Mesmo assim, é exatamente a possibilidade do binge-watching que os serviços de streaming nos dão que nos permite revisitar esta ou aquela produção quantas vezes forem necessárias para resolver essas “perdas”. E é também o binge-watching que permite àqueles telespectadores menos… “radicais” façam aquilo que a indústria espera de todos nós: consumir o máximo possível.

Imagem: The Eagle Eye
Imagem: The Eagle Eye

Sozinha, a Netflix já possui conteúdo (original ou não) suficiente para preencher várias vidas. E sempre, com binge-watching ou não, haverá esta ou aquela série que você simplesmente talvez não vá se quer conseguir tentar assistir. Essa consciência é inerente ao streaming. A finitude não é discutível nem opcional, e as estéticas de consumo e recepção têm que se adaptar a isso. E nem o hype nem o espaço para discussão – que deveria ser o real motivo para se consumir qualquer coisa – deixam de existir com a aceleração do consumo. É exatamente o contrário que acontece. Ninguém (ninguém mesmo!) consegue assistir a toda uma temporada e não precisar discutir, ler uma review ou reclamar numa rede social qualquer.

Expectativa e discussão são as pedras fundamentais para a construção da indústria, do streaming e até mesmo do binge-watching. Então, deixemos de lado todos os “entretantos”; vamos abraçar o streaming como o verdadeiro milagre que ele é. Quem, 12 anos atrás, quando Lost chegou até nós… Quer saber, vamos mais longe. Quem 15 anos atrás achou que poderia, sem todos os custos adicionais que estão envolvidos em colecionar os DVD’s (algo que eu faço, mas não nego ser, no fim do dia, um gasto), rever ou apresentar para alguém as aventuras de Jack Bauer, dos “sobreviventes” do Oceanic Airlines 815 na Ilha e até mesmo os risos direto do Central Perk e tantos outros sucessos sem sair do sofá?

Imagem: Pintrest
Imagem: Pintrest (tabitha_goolsby)

O streaming é mais do que um alvo para críticas ou um “amontoado” de produções; é uma janela para satisfazer os nostálgicos, introduzir todo um novo-antigo universo de produções a uma geração que decididamente precisa desenvolver novos padrões e expectativas para qualidade e é, acima de tudo, um espaço verdadeiramente infinito para novas e velhas leituras surgirem e serem postas a prova.

Disse e repito: a indústria muda, o consumo muda e os tempos mudam. Nós podemos ficar de fora, reclamar da mudança e simplesmente perdermos mais do nosso já limitado tempo – que poderia estar sendo usado para, você sabe, assistir aquele episódio a mais que você tanto quer ver – ou… E esse “ou” e seu espaço de possibilidade são o meu encerramento favorito, você pode abraçar a mudança, tomar parte nela e ser parte do público que constrói esse horizonte de expectativa que deu origem a tudo isso, não como mais um “aceitador”, mas como uma voz. Afinal, algo que o imediatismo nos deu foi o poder de se fazer ouvir. Então, usar ou não usar essa voz depende de você, assim como se jogar ou não no binge-watching também é uma escolha inteiramente individual. No fim do dia, o que todo mundo quer é ver seus episódios/séries do seu jeito… e não há nada de errado nisso.

About Richard Gonçalves

Richard Gonçalves
Estudante de Letras, apaixonado por quadrinhos, música e cinema. Viciado em séries desde sempre. Fã de carteirinha de Doctor Who, House, Battlestar Galactica, Sherlock, 24 Horas, The Borgias, Penny Dreadful, E.R. e Lost. Aqui no Mix de Séries é editor de reviews, além de escrever as reviews de Marvel's Jessica Jones, Marvel's Agents of S.H.I.E.L.D. e The Originals.