Precisamos falar sobre… a homofobia no mundo das séries de TV

Imagem: Netflix
Imagem: Netflix

 

Há algumas semanas fiz um texto para esta mesma coluna discutindo os rumos da história de Gotham, que havia inserido uma sugestão de trama gay para dois icônicos personagens dos quadrinhos, Pinguim e Charada (relembre aqui). O que havia me levado a escrever o texto, na ocasião, era um incomodo que eu sentia em relação a história e debater o fato dela estar funcionando ou não para o show.

Em certo ponto, destaquei que se sentir incomodado com esta história, em específico, não precisava significar, necessariamente, sinais de homofobia. Afinal, o ponto do texto era justamente tratar sobre a ambição de um show baseado em histórias em quadrinhos e os rumos que aquele plot poderia seguir.

Porém, fiquei surpreso com o feedback do texto ao vê-lo rodando em alguns fóruns de discussões em redes sociais. O fato se deu por dezenas de críticas que não gostavam, se quer, de ver a possibilidade da história fluir. Comentários como “qual a necessidade de ter gays na história” ou “tudo agora é sobre gays”, me incomodou, principalmente porque esses comentários tinham um apelo um tanto homofóbico e, naquele texto, não era minha intenção defender qualquer tipo de descriminação.

Nessa posição, senti que havia necessidade de debatermos o tema e esperei uma oportunidade para tal – principalmente para responder alguns destes questionamentos. Portanto, precisamos falar sobre a Homofobia no mundo das séries de TV.

 

“Por que tudo agora é sobre Gays?”

Já passou pela sua cabeça, nem que seja por uma fração de segundos, talvez, que não é que agora “tudo seja sobre gays”, mas sim que, até pouco tempo, nada era sobre eles. O direito gay veio crescendo, aos poucos, nos últimos anos e nada mais natural que abordar esse cotidiano e essa realidade num produto de entretenimento que se propõe a ser um espelho da realidade.

Não é porque você não os via que significa que eles não existissem. Gays sempre existiram e sempre vão existir. Não é porque agora existe um sopro de respeito para eles que não temos que retratar.

Modern Family é reconhecida por ser uma série da atualidade que consegue tratar o tema com naturalidade… Imagem: IG.

 

Se, até ontem, tudo era sobre os héteros, nada mais justo que os gays ganhem força na sociedade e que isso se reflita nas séries de TV.

 

O preconceito é real e ele existe!

A força dessas tramas precisam ser reconhecidas, principalmente por conta de um inimigo que está a frente destes direitos à todo momento: o preconceito.

Não adianta taparmos o sol com a peneira. Ainda há muito preconceito na sociedade e ele é mais real do que se possa imaginar. Seja por um olhar, um comentário, ou o simples fato de atribuir apelidos pejorativos, o preconceito contra gays ainda é muito forte. E, as vezes, ele aparece disfarçado nas mais variadas formas, inclusive, no incômodo de tramas gays nas séries de TV.

Ryan Murphy, premiado produtor de séries de TV, sofreu preconceito também ao escrever suas tramas… Imagem: UOL.

Detalhe: isso não é apenas por parte dos espectadores. Os próprios produtores, diretores e emissoras ainda olham com receios para certas exposições de tramas gays. Em recente entrevista, por exemplo, o escritor Ryan Murphy, autor de sucessos como Glee e American Horror Story, relatou que produtoras como a Warner influenciavam diretamente na construção de tramas gays em suas séries de TV. Autor de Popular, show adolescente que virou hit no fim dos anos 1990, Murphy declarou que a emissora já chegou a solicitá-lo que personagens gays fossem “menos gays”. Porém, estes tempos parecem ter sido deixados, uma vez que a atual CW – que substituiu o canal WB Network – é bem mais aberta para tratar de tal tema – com bastante liberdade até.

No Brasil não é diferente. Um exemplo vivo é a novela Torre de Babel, que vem sendo reprisada pelo Canal Viva. Um dos maiores sucessos dos anos 1990, o folhetim chamou a atenção por explodir o shopping na qual a maioria da trama se passava. E adivinhem? O plot serviu para que o autor Silvio de Abreu se livrasse do casal lésbico – interpretado por Silvia Pfeifer e Christiane Torloni – a pedida da emissora, por conta de rejeição do público. Ou até mesmo já nos anos 2000, quando a Rede Globo vetou o beijo gay do casal de América. Muito se passou, e tramas gays tem sido tratadas de forma mais aberta, mas ainda precisa melhorar.

Casos assim mostram como o preconceito – dentre quem assiste e, até mesmo, de quem produz – é real. São atitudes deste tipo que mostram um reflexo do que a sociedade vive e do que precisa ser vencido.

 

As séries de TV PRECISAM debater o mundo gay, quer você queira, quer você não.

Talvez muitas pessoas não tenham percebido, mas isso é algo que vai além de todos nós. O mundo precisa estar mais aberto a certas atitudes e, uma delas, é explorarmos os direitos gays. Isso vai além de política, de casamentos igualitários e do andar de mãos dadas pela rua… Vai nos meios em que essa realidade tem de ser debatida e explorada.

As séries de TV é um excelente canal para que isso seja explorado e debatido. Histórias gays precisam se tornarem comuns, em meio a um mundo onde ser gay, infelizmente, ainda não é.

Shows de sucesso como Sense8, Orange is the New Black, Orphan Black, Grey’s Anatomy, How to Get Away With Murder, têm dado, cada vez mais, espaço para tais tramas. Então, natural que séries, como Gotham, uma adaptação de HQ, queira inserir assuntos da atualidade em suas tramas. Até mesmo Supergirl tem tratado do tema. Não é porque uma série adapta uma obra que ela não tem liberdade criativa para mexer em seus personagens. Eles podem mudar a etnia, a orientação sexual… tudo é válido. A TV precisa naturalizar a liberdade criativa de seus shows e, principalmente, seus espectadores precisam abrir suas mentes para tais histórias.

Imagem: ABC

 

Indo além, as séries não precisam apenas retratar o gay no cotidiano. É preciso bater na tecla da homofobia, como Transparent ou Grace and Frankie fazem muito bem. Destacar que o preconceito contra gays ainda é forte e, para estas pessoas, a vida tende a se tornar cada vez mais difícil. Afinal, essa é uma forte realidade que ainda se vê presente no dia-dia dos gays.

Essa não é a hora de andarmos para trás, mas sim de evoluir, cada vez mais, para um futuro onde gays não sofram preconceitos e violências, e suas retratações em mídias como as séries de TV sejam tratados com o devido respeito e importância os quais merecem.

Quem sabe assim, perguntas do tipo “por que tudo é sobre gays?” parem de ser feitas!

About Anderson Narciso

Anderson Narciso
Mestre em História, apaixonado por mídias, é o editor responsável e idealizador do Mix de Séries. Eterno órfão de Friends, One Tree Hill e ER, acompanha séries desde que se entende por gente. No Mix é editor de colunas e de notícias, escreve a coluna 5 Razões e resenha a série Gotham.